Confissões – SANTO AGOSTINHO

E ÁUDIO LIVRO CONFISSÕES — SANTO AGOSTINHO LIVRO 1 ao 9.

LIVRO PRIMEIRO
CAPÍTULO I

Louvor e Invocação
És grande, Senhor e infinitamente digno de ser louvado; grande é teu poder, e
incomensurável tua sabedoria. E o homem, pequena parte de tua criação quer louvar-te, e
precisamente o homem que, revestido de sua mortalidade, traz em si o testemunho do pecado e a
prova de que resistes aos soberbos. Todavia, o homem, partícula de tua criação, deseja louvar-te.
Tu mesmo que incitas ao deleite no teu louvor, porque nos fizeste para ti, e nosso coração está
inquieto enquanto não encontrar em ti descanso.
Concede, Senhor, que eu bem saiba se é mais importante invocar-te e louvar-te, ou se
devo antes conhecer-te, para depois te invocar. Mas alguém te invocará antes de te conhecer?
Porque, te ignorando, facilmente estará em perigo de invocar outrem. Porque, porventura, deves
antes ser invocado para depois ser conhecido? Mas como invocarão aquele em que não crêem?
Ou como haverão de crer que alguém lhos pregue?
Com certeza, louvarão ao Senhor os que o buscam, porque os que o buscam o encontram
e os que o encontram hão de louvá-lo.
Que eu, Senhor, te procure invocando-te, e te invoque crendo em ti, pois me pregaram teu
nome. invoca-te, Senhor, a fé que tu me deste, a fé que me inspiraste pela humanidade de teu
Filho e o ministério de teu pregador.
CAPÍTULO II
Deus está no homem, e este em Deus
E como invocarei meu Deus, meu Deus e meu Senhor, se ao invocá-lo o faria certamente
dentro de mim? E que lugar há em mim para receber o meu Deus, por onde Deus desça a mim, o
Deus que fez o céu e a terra? Senhor, haverá em mim algum espaço que te possa conter? Acaso
te contêm o céu e a terra, que tu criaste, e dentro dos quais também criaste a mim? Será, talvez,
pelo fato de nada do que existe sem Ti, que todas as coisas te contêm? E, assim, se existo, que
motivo pode haver para Te pedir que venhas a mim, já que não existiria se em mim não
habitásseis?
Ainda não estive no inferno, mas também ali estás presente, pois, se descer ao inferno, ali
estarás.
Eu nada seria, meu Deus, nada seria em absoluto se não estivesses em mim; talvez seria
melhor dizer que eu não existiria de modo algum se não estivesse em ti, de quem, por quem e em
quem existem todas as coisas? Assim é, Senhor, assim é. Como, pois, posso chamar-te se já
estou em ti, ou de onde hás de vir a mim, ou a que parte do céu ou da terra me hei de recolher,
para que ali venha a mim o meu Deus, ele que disse: Eu encho o céu e a terra?
CAPÍTULO III
Onde está Deus?
Porventura o céu e a terra te contêm, porque os enches? Ou será melhor dizer que os
enches, mas que ainda resta alguma parte de ti, já que eles não te podem conter? E onde
estenderás isso que sobra de ti, depois de cheios o céu e a terra? Mas será necessário que sejas
contido em algum lugar, tu que conténs todas as coisas, visto que as que enches as ocupas
contendo-as? Porque não são os vasos cheios de ti que te tornam estável, já que, quando se
quebrarem, tu não te derramarás; e quando te derramas sobre nós, isso não o fazes porque cais,
mas porque nos levantas, nem porque te dispersas, mas porque nos recolhes.
No entanto, todas as coisas que enches, enche-as todas com todo o teu ser; ou talvez, por
não te poderem conter totalmente todas as coisas, contêm apenas parte de ti? E essa parte de ti
as contêm todas ao mesmo tempo, ou cada uma a sua, as maiores a maior parte, e as menores a
menor parte? Mas haverá em ti partes maiores e partes menores? Acaso não estás todo em todas
as partes, sem que haja coisa alguma que te contenha totalmente?
CAPÍTULO IV
As perfeições de Deus
Que és, portanto, ó meu Deus? Que és, repito, senão o Senhor Deus? Ó Deus sumo,
excelente, poderosíssimo, onipotentíssimo, misericordiosíssimo e justíssimo.
Tao oculto e tão presente, formosíssimo e fortíssimo, estável e incompreensível; imutável,
mudando todas as coisas; nunca novo e nunca velho; renovador de todas as coisas, conduzindo à
ruína os soberbos sem que eles o saibam; sempre agindo e sempre repouso; sempre
sustentando, enchendo e protegendo; sempre criando, nutrindo e aperfeiçoando, sempre
buscando, ainda que nada te falte.
Amas sem paixão; tens zelos, e estás tranqüilo; te arrependes, e não tens dor; te iras, e
continuas calmo; mudas de obra, mas não de resolução; recebes o que encontras, e nunca
perdeste nada; não és avaro, e exiges lucro. A ti oferecemos tudo, para que sejas nosso devedor;
porém, quem terá algo que não seja teu, pois, pagas dívidas que a ninguém deves, e perdoas
dívidas sem que nada percas com isso?
E que é o que até aqui dissemos, meu Deus, minha vida, minha doçura santa, ou que
poderá alguém dizer quando fala de ti? Mas ai dos que nada dizem de ti, pois, embora seu muito
falar, não passam de mudos charlatães.
CAPÍTULO V
Súplica
Quem me dera descansar em ti! Quem me dera que viesses a meu coração e que o
embriagasses, para que eu me esqueça de minhas maldades e me abrace contigo, meu único
bem! Que és para mim? Tem piedade de mim, para que eu possa falar. E que sou eu para ti, para
que me ordenes amar-te e, se não o fizer, irar-te contra mim, ameaçando-me com terríveis
castigos? Acaso é pequeno o castigo de não te amar? Ai de mim! Dize-me por tuas misericórdias,
meu Senhor e meu Deus, que és para mim? Dize a minha alma: Eu sou a tua salvação. Que eu
ouça e siga essa voz e te alcance. Não queiras esconder-me teu rosto. Morra eu para que possa
vê-lo para não morrer eternamente.
Estreita é a casa de minha alma para que venhas até ela: que seja por ti dilatada. Está em
ruínas; restaura-a. Há nela nódoas que ofendem o teu olhar: confesso-o, pois eu o sei; porém,
quem haverá de purificá-la? A quem clamarei senão a ti? Livra-me, Senhor, dos pecados ocultos,
e perdoa a teu servo os alheios! Creio, e por isso falo. Tu o sabes, Senhor. Acaso não confessei
diante de ti meus delitos contra mim, ó meu Deus? E não me perdoaste a impiedade de meu
coração? Não quero contender em juízos contigo, que és a verdade, e não quero enganar-me a
mim mesmo, para que não se engane a si mesma minha iniqüidade. Não quero contender em
juízos contigo, porque, se dás atenção às iniqüidades, Senhor, quem, Senhor, subsistirá?
CAPÍTULO VI
Os primeiros anos
Permita, porém, que eu fale em presença de tua misericórdia, a mim, terra e cinza; deixa
que eu fale, porque é à tua misericórdia que falo, e não ao homem, que de mim escarnece. Talvez
também tu te rias de mim, mas, voltado para mim, terás compaixão.
E que pretendo dizer-te, Senhor, senão que ignoro de onde vim para aqui, para esta não
sei se posso chamar vida mortal ou morte vital? Não o sei. Mas receberam-me os consolos de
tuas misericórdias, conforme o que ouvi de meus pais carnais, de quem e em quem me formaste
no tempo, pois eu de mim nada recordo. Receberam-me os consolos do leite humano, do qual
nem minha mãe, nem minhas amas enchiam os seios; mas eras tu que, por meio delas, me davas
aquele alimento da infância, de acordo com o seu desígnio, e segundo os tesouros dispostos por ti
até no mais íntimo das coisas.
Também por tua causa é que eu não queria mais do que me davas; por tua causa é que
minhas amas queriam dar-me o que tu lhes davas, pois elas, movidas de sadio afeto, queriam darme
aquilo que abundavam graças a ti, já que era um bem para elas ou delas receber aquele bem,
embora realmente não fosse delas, meros instrumentos, porque de ti procedem, com certeza,
todos os bens, ó Deus, e de ti, Deus meu, depende toda minha salvação.
Tudo isto vim a saber mais tarde, quando me falaste por meio dos mesmos bens que me
concedias interior e exteriormente. Porque então as únicas coisas que fazia era sugar o leite,
aquietar-me com os afagos e chorar as dores de minha carne.
Depois também comecei a rir, primeiro dormindo, depois acordado. Isto disseram de mim,
e o creio, porque o mesmo acontece com outros meninos, pois eu não tenho a menor lembrança
dessas coisas.
Pouco a pouco comecei a me dar conta de onde estava, e a querer dar a conhecer meus
desejos a quem os podia satisfazer, embora realmente não o pudessem, porque meus desejos
estavam dentro, e eles fora; e por nenhum sentido podiam entrar em minha alma. assim, agitava
os braços e dava gritos e sinais semelhantes a meus desejos, os poucos que podia e como podia,
embora não fossem de fato sua expressão. Mas, se não era atendido, ou porque não me
entendessem, ou porque o que desejava me fosse prejudicial, eu me indignava com os adultos,
porque não me obedeciam, e sendo livres, por não quererem me servir; e deles me vingava
chorando. Assim são as crianças que pude observar; e que eu também fosse assim, mais me
ensinaram elas, sem o saber, do que os que me criaram, sabendo-o.
Minha infância morreu há muito tempo, mas eu continuo vivo. Mas, dize-me, Senhor, tu
que sempre vives, e em quem nada falece – porque existias antes do começo dos séculos, e
antes de tudo o que há de anterior, e és Deus e Senhor de todas as coisas; e esse encontram em
ti as causas de tudo o que é instável, e em ti permanecem os princípios imutáveis de tudo o que
se transforma, e vivem as razões eternas de tudo o que é transitório – dize-me a mim, eu to
suplico, ó meu Deus, diz-me, misericordioso, a mim que sou miserável, dize-me: porventura a
minha infância sucedeu a outra idade minha, já morta? Será esta aquela que vivi no ventre de
minha mãe? Porque também desta me revelaram algumas coisas, e eu mesmo já vi mulheres
grávidas.
E antes desse tempo, minha doçura e meu Deus, que era eu? Fui alguém, ou era parte de
alguma coisa? Dize-mo, porque não tenho quem me responda, nem meu pai, nem minha mãe,
nem a experiência dos outros, nem minha memória. Acaso te ris de mim, porque desejo saber
estas coisas, e me mandas que te louve e te confesse pelo que conheci de ti?
Eu te confesso, Senhor dos céus e da terra, louvando-te por meus princípios e por minha
infância, de que não tenho memória, mas que, por tua graça, o homem pode conjectura de si
pelos outros, crendo em muitas coisas, ainda que confiado na autoridade de humildes mulheres.
Então eu já existia, já vivia de verdade; e, já no fim da infância procurava sinais com que pudesse
exprimir aos outros as coisas que sentia. Com efeito, de onde poderia vir semelhante criatura,
senão de ti, Senhor? Acaso alguém pode ser artífice de si mesmo? Porventura existirá algum
outro manancial por onde corra até nos o ser e a vida, diferente da que nos dais, Senhor, tu em
quem ser e vida não são coisas distintas, porque és o Sumo Ser e a Suprema Vida? Com efeito,
és sumo, e não te mudas, nem caminha para ti o dia de hoje, apesar de caminhar por ti, apesar de
estarem em ti com certeza todas estas coisas, que não teriam caminho por onde passar se não as
contivesses. E porque teus anos não fenecem, teus anos são um perpétuo hoje. Oh! Quantos dias
nossos e de nossos pais já passaram por este teu hoje, e dele receberam sua duração, e de
alguma maneira existiram, e quantos passarão ainda, e receberão seu modo, e seu ser? Mas tu
és sempre o mesmo, e todas as coisas de amanhã e do futuro, e todas as coisas de ontem e do
passado, nesse hoje as fazes, nesse hoje as fizeste.
Que importa que alguém não entenda essas coisas? Que este alguém se ria, e diga: que é
isto? Que se ria assim, e que prefira encontrar-te sem indagação do que, indagando, não te
encontrar.
CAPÍTULO VII
Os pecados da primeira infância
Escuta-me, ó meu Deus! Ai dos pecados dos homens! E quem isto te diz é um homem, e
tu te compadeces dele porque o criaste, e não foste autor do pecado que nele existe.
Quem me poderá lembrar o pecado da infância, já que ninguém está diante de ti limpo de
pecado, nem mesmo a criança cuja vida conta um só dia sobre a terra? Quem mo recordará?
Acaso alguma criança pequena de hoje, em quem vejo a imagem do que não recordo de mim? E
em que eu poderia pecar nesse tempo? Acaso por desejar o peito da nutriz, chorando? Se agora
eu suspirasse com a mesma avidez, não pelo seio materno, mas pelo alimento próprio da minha
idade, seria justamente escarnecido e censurado. Logo, era então digno de repreensão o meu
proceder; mas como não podia entender a censura, nem o costume nem a razão permitiam que
eu fosse repreendido. Prova está que, ao crescermos, extirpamos e afastamos de nós essa
sofreguidão; e jamais vi homem sensato que, para limpar uma coisa viciosa, prive-a do que tem
de bom.
Acaso, mesmo para aquela idade, era bom pedir chorando o que não se me podia dar sem
dano, indignar-me acremente com as pessoas livres que não se submetiam, assim como as
pessoas respeitáveis, e até com meus próprios pais, e com muitos outros que, mais sensatos, não
davam atenção aos sinais de meus caprichos, enquanto eu me esforçava por agredi-los com
meus golpes, quanto podia, por não obedecerem às minhas ordens, que me teriam sido danosas?
Daqui se segue que o que é inocente nas crianças é a debilidade dos membros infantis, e não a
alma.
Certa vez, vi e observei um menino invejoso. Ainda não falava, e já olhava pálido e com
rosto amargurado para o irmãozinho colaço. Quem não terá testemunhado isso? Dizem que as
mães e as amas tentam esconjurar este defeito com não sei que práticas. Mas se poderá
considerar inocência o não suportar que se partilhe a fonte do leite, que mana copiosa e
abundante, com quem está tão necessitado do mesmo socorro, e que sustenta a vida apenas com
esse alimento? Mas costuma-se tolerar indulgentemente essas faltas, não porque sejam
insignificantes, mas porque espera-se que desapareçam com os anos. Por isso, sendo tais coisas
perdoáveis em um menino, quando se acham em um adulto, mal as podemos suportar.
Assim, pois, meu Senhor e meu Deus, tu que me deste a vida e corpo, o qual dotaste,
como vemos, de sentidos e proviste de membros, adornando-o de beleza e de instintos naturais,
com os quais pudesse defender sua integridade e conservação, tu me mandas que te louve por
esses dons e te confesse e cante teu nome altíssimo. Serias Deus onipotente e bom ainda que só
tivesses criado apenas estas coisas, que nenhum outro pode fazer senão tu, ó Unidade, origem
de todas as variedades, ó Beleza, que dás forma a todas as coisas, e com tua lei as ordenas!
Tenho vergonha, Senhor, de ter de somar à vida terrena que vivo aquela idade que não
recordo ter vivido, na qual acredito pelo testemunho de outros, por vê-lo assim em outras crianças,
embora essa conjectura mereça toda a fé. As trevas em que está envolto meu esquecimento a
seu respeito assemelham-se à vida que vivi no ventre de minha mãe.
Assim, se fui concebido em iniqüidade, e se em pecado me alimentou minha mãe, onde,
suplico-te, meu Deus, onde, Senhor, eu, teu servo, onde e quando fui inocente? Mas eis que
silencio sobre esse tempo. Para que ocupar-se dele, se dele já não conservo nenhuma
lembrança?
CAPÍTULO VIII
As primeiras palavras
Acaso não foi caminhando da infância até aqui que cheguei à puerícia? Ou melhor, esta
veio a mim e suplantou à infância sem que esta fosse embora, pois, para onde poderia ir?
Contudo deixou de existir, porque eu já não era um bebezinho que não falava, mas um menino
que aprendia a falar. Disso me recordo; mas como aprendi a falar, só mais tarde é que vim a
perceber. Não mo ensinaram os mais velhos apresentando-me as palavras com certa ordem e
método, como logo depois fizeram com as letras; mas foi por mim mesmo, com o entendimento
que me deste, meu Deus, quando queria manifestar meus sentimentos com gemidos, gritinhos, e
vários movimentos do corpo, a fim de que atendessem meus desejos; e também ao ver que não
podia exteriorizar tudo o que queria, nem ser compreendido por todos aqueles a quem me dirigia.
Assim, pois, quando chamavam alguma coisa pelo nome, eu a retinha na memória e, ao se
pronunciar de novo a tal palavra, moviam o corpo na direção do objeto, eu entendia e notava que
aquele objeto era o denominado com a palavra que pronunciavam, porque assim o chamavam
quando o desejavam mostrar.
Que esta fosse sua intenção, era-me revelado pelos movimentos do corpo, que são como
uma linguagem universal, feita com a expressão rosto, a atitude dos membros e o tom da voz, que
indicam os afetos da alma para pedir, reter, rejeitar ou evitar alguma coisa. Deste modo, das
palavras usadas nas e colocadas em várias frases e ouvidas repetidas vezes, ia eu aos poucos
notando o significado e, domada a dificuldade de minha boca, comecei a dar a entender minhas
vontades por meio delas.
Foi assim que comecei a comunicar meus desejos às pessoas entre as quais vivia, e entrei
a fazer parte do tempestuoso mundo da sociedade, dependendo da autoridade de meus pais e
obedecendo às pessoas mais velhas.
CAPÍTULO IX
Estudos e jogos
Ó meu Deus, meu Deus! Que de misérias e enganos não experimentei então, quando se
me propunha, em criança, como norma de bem viver, obedecer os mestres que me instigavam a
brilhar neste mundo, e me ilustrar nas artes da língua, fiel instrumento para obter honras humanas
e satisfazer a cobiça! Mudaram-me à escola, para que aprendesse as letras, nas quais eu,
miserável, desconhecia o que havia de útil. Contudo, se era preguiçoso para aprendê-las, era
fustigado, num sistema louvado pelos mais velhos; muitos deles, que levavam esse gênero de
vida antes de nós, nos traçaram caminhos tão dolorosos pelos quais éramos obrigados a
caminhar, multiplicando assim o trabalho e a dor aos filhos de Adão.
Mas, por sorte, encontrei homens que te invocavam, Senhor, e com eles aprendi a te
sentir, quanto possível, como a um Ser grande que podia escutar-nos e vir em nosso auxílio,
embora sem a percepção dos sentidos. Ainda menino, pois, comecei a invocar-te como refúgio e
amparo e, para te invocar, desatei os nós de minha língua; e, embora pequeno, te rogava já com
grande fervor para que não me açoitassem na escola. E quando não me escutavas, o que servia
para meu proveito os mestres, assim como meus próprios pais, que certamente não desejavam o
meu mal, riam-se daquele castigo, que então era para mim grave suplício.
Porventura, Senhor, haverá alguma alma tão grande, unida a ti com tão ardente afeto, pois
isto também pode ser produzido pela estultice – repito, uma alma que alcance tal grandeza de
ânimo que despreze os cavaletes e garfos de ferro, e os demais instrumentos de martírio – para
fugir dos quais se te dirigem súplicas de todas as partes do mundo? Haverá uma alma que assim
os despreze – rindo-se dos que têm deles tanto horror – como se riam nossos pais dos tormentos
que éramos castigados por nossos mestres quando meninos? Porque, na verdade, não os
temíamos menos, nem te rogávamos com menor fervor para que nos livrasses deles.
Contudo, pecávamos por negligencia escrevendo ou lendo, estudando menos do que nos
era exigido; e não era por falta de memória ou de inteligência, que para aquela idade, Senhor, me
deste de modo suficiente, senão porque eu gostava de brincar, embora os que nos castigavam
não fizessem outra coisa. Mas os jogos dos mais velhos chamavam-se negócios, enquanto que os
dos meninos eram por eles castigados, sem que ninguém se compadecesse de uns e de outros,
ou melhor, de ambos. Um juiz sensato poderia aprovar os castigos que eu, menino, recebia
porque jogava bola, e porque com este jogo atrasava o aprendizado das letras, com as quais,
adulto haveria de jogar menos inocentemente?
Acaso fazia outra coisa naquele que me castigava? Se nalguma questiúncula era vencido
por algum colega seu, não era mais atormentado pela cólera e pela inveja do que eu, quando uma
partida de bola era vencido por meu companheiro?
CAPÍTULO X
Amor ao jogo
Contudo, Senhor meu, ordenador e criador da natureza, mas do pecado somente
ordenador, eu pecava; pecava desobedecendo as ordens de meus pais e mestres, uma vez que
podia no futuro fazer bom uso das letras que desejavam me ensinar, qualquer que fosse sua
intenção.
E não era desobediente para me ocupar de coisas melhores, mas por amor ao jogo;
buscava nos combates orgulhosas vitórias; deleitava-me com histórias frívolas, com as quais
incentivava sempre mais minha curiosidade. Igualmente curiosos, meus olhos se abriam sempre
mais para os jogos e espetáculos dos adultos, jogos que dão tao grande dignidade a quem os
oferece, que quase todos desejam as mesmas dignidades para seus filhos. Contudo, gostam de
os castigar se com tais espetáculos fogem dos estudos, por meio dos quais desejam que eles
venham um dia a oferecer espetáculos semelhantes. Senhor, olha misericordiosamente para
essas coisas, e livra-nos delas a nós que já te invocamos; mas livra também aos que ainda não te
invocam, a fim de que te invoquem, e sejam igualmente libertados.
CAPÍTULO XI
O batismo diferido
Ainda menino, ouvi falar da vida eterna, que nos está prometida pela humildade de Jesus,
nosso Senhor, que desceu até nossa soberba; e fui marcado com o sinal da cruz, sendo-me dado
saborear de seu sal logo que saí do ventre de minha mãe, que sempre esperou muito em ti.
Tu viste, Senhor, que numa ocasião, ainda menino, atacou-me repentinamente um dor de
estômago que me abrasava, e que me aproximou da morte. Tu viste também, meu Deus, pois já
me tinhas sob tua guarda, com que fervor de espírito e com que fé pedi à piedade de minha mãe,
e da mãe de todos nós, tua Igreja, o batismo de teu Cristo, meu Deus e Senhor. Perturbou-se
minha mãe carnal, pois que me criava com mais amor em seu casto coração em tua fé para a vida
eterna e, solícita, já havia cuidado de que me iniciasse e purificasse com os sacramentos da
salvação, confessando-te, ó meu Senhor Jesus, em remissão de meus pecados, quando, de
repente, comecei a melhorar. Em vista disso, diferiu-se minha purificação, considerando que seria
impossível, se eu vivesse, que não me tornasse a manchar; pois a culpa dos pecados cometidos
depois do batismo é muito maior e mais perigosa.
Nesta época eu já tinha fé verdadeira, juntamente com minha mãe e com todos da casa, à
exceção de meu pai, que, porém, não pôde vencer em mim a ascendência da piedade materna,
para que deixasse de acreditar em Cristo, tal como ele não acreditava; minha mãe, solícita,
cuidava de que tu, meu Deus, fosses mais pai para mim do que ele, e a ajudavas a triunfar do
marido, a quem servia melhor, porque nele te servia a ti e a tuas ordens.
Mas, meu Deus, suplico-te que me mostres, se te apraz, por que motivo se diferiu então
meu batismo; se foi ou não para meu bem que me soltaram as rédeas do pecado. Por que razão
ainda hoje se diz de uns e de outros, como ouvimos em muitos lugares: “Deixe que faça o que
quiser, porque ainda não está batizado” – embora não digamos da saúde do corpo: “Deixe que
receba ainda mais feridas, porque ainda não está curado?”
Quanto melhor teria sido para mim receber logo a saúde, e que meus cuidados e os dos
meus fossem empregados em conservar intacta debaixo da tua proteção a saúde da minha alma,
que me havias concedido! Melhor fora, certamente; porém, como minha mãe, sem dúvida, já
previa quantas e quão grandes ondas de tentações me ameaçariam depois da meninice, preferiu
expor-me a elas como terra grosseira que depois receberia forma, do que expor-me já como
imagem tua.
CAPÍTULO XII
Ódio ao estudo
Nesta minha infância, na qual eu tinha menos que temer por mim do que em minha
adolescência, eu não gostava dos estudos, e odiava que a eles me obrigassem. Contudo, era
coagido, e me faziam grande bem. Quem não procedia bem era eu, que não estudava a não ser
constrangido, pois ninguém faz bem o que faz contra a vontade, mesmo que seja bom o que faz.
Tampouco os que obrigavam a estudar agiam corretamente; antes, todo o bem que eu
recebia vinha de ti, meu Deus, porque eles não tinham outro fim ao me obrigarem a estudar senão
saciar o apetite de abundante miséria e de gloria ignominiosa. Mas tu, Senhor, que tens contados
os cabelos de nossa cabeça, usavas do erro de todos os que me coagiam a estudar para minha
utilidade; e usavas da minha falta de vontade de estudar para meu castigo, de que certamente eu
já era digno, sendo ainda tão pequeno, e tao grande pecador.
Assim, convertias em bem o mal que eles me faziam, e dos meus pecados, me davas justa
retribuição, porque é teu desígnio, e assim acontece, que toda alma desordenada seja castigo de
si mesma.
CAPÍTULO XIII
Gosto pelo latim
Porque odiava eu as letras gregas, que me ensinavam quando eu era criança? Não o sei,
e nem agora o posso explicar. Em compensação, as letras latinas me apaixonavam, não as
ensinadas pelos professores primários, mas a que é explicada pelos chamados gramáticos,
porque aquelas primeiras, com as quais se aprende a ler, a escrever e a contar, não me foram
menos pesadas e insuportáveis que as gregas. Mas donde podia proceder essa aversão, senão
do pecado e da vaidade da vida, porque eu era carne e vento que caminha e não volta?
Aquelas primeiras letras, pelas quais podia, como ainda faço, chegar e ler tudo o que há
escrito e a escrever tudo o que quero, eram melhores e mais úteis que aquelas outras nas quais
me obrigavam a decorar os erros de um tal Enéias, esquecido dos meus, e a chorar a morte de
Dido, que se suicidou por amor, enquanto isso, eu, miserabilíssimo, suportava a minha própria
morte com olhos enxutos, morrendo para ti, ó meu Deus, minha vida!
Na verdade, que pode haver de mais miserável do que um infeliz que não se compadece
de si mesmo e que, chorando a morte de Dido por amor de Enéias, não chora sua própria morte
por falta de amor a ti, ó Deus, luz de meu coração, pão interior de minha alma, virtude fecundante
de meu pensamento? Não te amava; prevaricava longe de ti, e ouvia de todas as partes: “Muito
bem! Muito bem!” – porque a amizade deste mundo é adultério contra ti; e se aclamam a alguém
dizendo: “Muito bem! Muito bem!” – é para que este não se envergonhe de ser assim. Eu não
chorava estas faltas, chorava a morte de Dido “que se suicidou com a espada”, eu procurava as
últimas de tuas criaturas, abandonando-te a ti, como terra que eu era, atraída pela terra. Se então
me proibissem a leitura de tais coisas, me afligiriam por não ler aquilo que me comovia até a dor.
Não obstante, semelhante loucura é considerada como coisa mais nobre e proveitosa que as
letras pelas quais aprendemos a ler e a escrever.
Mas agora, meu Deus, grite em minha alma tua verdade, e diga: Não é assim, não é
assim, antes, aquela primeira instrução é absolutamente superior; pois eu preferiria esquecer
todas as aventuras de Enéias, e outras histórias semelhantes, do que o saber ler e escrever. Sei
que nas escolas dos gramáticos pendem cortinas às portas; porém, servem menos para velar o
segredo que para encobrir o erro.
Não gritem contra mim aqueles mestres a quem já não temo, enquanto confesso a ti os
desejos de minha alma, e aborreço dos meus maus caminhos, a fim de amar os teus. Não gritem
contra mim os comerciantes da gramática, pois, se eu os interrogar sobre se é verdade que
Enéias veio uma vez a Cartago, como afirma o poeta, os néscios responderão que não sabem, e
os sábios negarão o fato. Porém, se lhes perguntar como se escreve o nome de Enéias, todos os
que estudaram me responderão a mesma coisa, de acordo com a convenção com que os homens
fixaram o valor das letras do alfabeto.
Do mesmo modo, se lhes perguntar o que seria mais prejudicial para a vida humana:
esquecer o ler e o escrever, ou todas as ficções dos poetas, quem não vê o que logo responderia
aquele que não estivesse de tudo esquecido de ti? Pequei, pois, em minha infância, ao preferir
vãos aos proveitosos, ou para dizer melhor, ao amar àqueles e ao odiar a estes; era para mim
uma cantiga odiosa aquele “um e um, dois; dois e dois, quatro; enquanto considerava espetáculo
encantador a história do cavalo de madeira cheio de guerreiros e o incêndio de Tróia, “e até a
sombra de Creuza”.
CAPÍTULO XIV
Aversão ao grego
Por que então aborrecia eu a literatura grega na qual se cantam tais coisas? Porque
também Homero é mui habilidoso em tecer essas historietas, dulcíssimo na sua frivolidade,
embora para mim, menino, fosse bem amargo. Creio que o mesmo ocorra com Virgilio para os
meninos gregos obrigados a estudá-lo, como a mim com relação a Homero. Era a dificuldade de
ter de aprender totalmente uma língua estranha que, como fel, aspergia de amargura todas as
doçuras das fábulas gregas.
Eu ainda não conhecia nenhuma palavra daquela língua, e já me obrigavam com
veemência, com crueldades e terríveis castigos, a aprendê-la. Na verdade, eu, ainda criança,
também não conhecia nenhuma palavra de latim; contudo, com um pouco de atenção, o aprendi
entre o carinho das amas, os gracejos dos que se riam e as alegrias dos que brincavam, sem
medo algum nem tormento. Eu o aprendi, sem a pressão dos castigos, impelido unicamente por
meu coração desejoso de dar à luz seus sentimentos, e o único caminho para isso era aprender
algumas palavras, não dos que as ensinavam, mas do que falavam, em cujos ouvidos ia eu
depositando quanto sentia.
Por aqui se evidencia claramente que, para instruir, tem mais eficácia e curiosidade livre do
que a necessidade inspirada pelo medo. Contudo, os excessos da curiosidade encontram nessa
violência um freio segundo tuas leis, ó Deus; que desde as palmatórias dos mestres até os
tormentos dos mártires sabem dosar suas salutares amarguras, que nos reconduzem a ti do seio
do pernicioso deleite que de ti nos apartara.

CAPÍTULO XV
Oração
Ouvi, Senhor, minha oração, para que não desfaleça minha alma sob a tua lei, nem me
canse em confessar tuas misericórdias, com as quais me arrancaste de meus perversos
caminhos; que tua doçura sobrepuje todas as doçuras que segui, e assim te ame fortissimamente,
e abrace tua mão com toda minha alma, e me livres de toda a tentação até o fim dos meus dias.
Pois é, Senhor, meu rei e meu Deus, e a ti consagro quanto falo, escrevo, leio e conto, pois
quando aprendia aquelas futilidades, tu eras o que me davas a verdadeira disciplina, e já me
perdoaste os pecados de deleite cometidos naquelas vaidades. Muitas palavras úteis aprendi
nelas, é verdade; porém, estas também se podem aprender em estudos sérios, e este é o
caminho seguro pelo qual deveriam encaminhar as crianças.
CAPÍTULO XVI
O mal da mitologia
Ai de ti, torrente dos hábitos humanos! Quem há que te resista? Quando te secarás? Até
quando irás arrastar os filhos de Eva a esse mar imenso e tenebroso, que apenas logram passar
os que embarcam sobre o lenho da cruz? Acaso não foi em ti que li a fábula de Júpiter que troveja
e adultera? É verdade que não podia fazer tais coisas ao mesmo tempo, mas assim se
representou para autorizar a imitação de um verdadeiro adultério com o encantamento de um
falso trovão. Contudo, qual é o professor de pênula capaz de ouvir com paciência a um homem
nascido do mesmo pó que clama e diz: “Homero imaginava essas ficções e atribuía aos deuses os
vícios humanos; porém, eu preferiria que atribuísse a nós as qualidades divinas”. Com mais
verdade se diria que Homero imaginou tudo isso, atribuindo qualidades divinas a homens
corrompidos, para que os vícios não fossem considerados como tais, e para que todo aquele que
os cometesse parecesse que imitava a deuses celestes, e não a homens corrompidos.
E contudo, ó torrente infernal, em ti se precipitam os filhos dos homens, com o dinheiro
gasto para aprender tais coisas. E consideram acontecimento importante representá-lo,
publicamente no Foro, à vista das leis que concedem aos mestres um prêmio, além de seus
salários particulares.
E ferindo os rochedos de tuas margens, gritas dizendo: “Aqui se aprendem as palavras;
aqui se adquire a eloqüência, tao necessária para persuadir e explicar os pensamentos; não
poderíamos pois aprender as palavras: chuva de ouro, regaço, templo celeste, logro e outras
mais, escritas em determinada passagem, se Terêncio não nos apresentasse um jovem perdido
que se propõe a imitar a luxúria de Júpiter? Contemplava ele uma pintura mural “na qual se
representava o mesmo Júpiter no momento em que, segundo dizem, descia como chuva de ouro
sobre o regaço de Dânae, para lograr assim à pobre mulher”.
E vede como se excitava à luxúria a vista de tão celestial mestre:
– Mas que deus fez isto? – diz.
– Nada menos que aquele que faz retumbar a abóbada do céu com enorme trovão!
– E eu, homenzinho, não haveria de fazer o mesmo?
– Fi-lo, sim, e com muito gosto.
De modo algum se aprendem com semelhante torpeza aquelas palavras; antes, essas
palavras levam mais atrevidamente a cometer a mesma devassidão. Não incrimino as palavras,
que são como vasos seletos e preciosos, mas condeno o vinho do erro que mestres ébrios nos
davam a beber nelas e, se não o bebêssemos, éramos açoitados, sem que pudéssemos apelar
para juiz mais sóbrio.
E, não obstante, meu Deus, cuja presença me protege desta lembrança, confesso que
aprendi estas coisas com gosto e que, miserável, nelas me comprazi, sendo por isso chamado
menino de grandes esperanças.
CAPÍTULO XVII
Êxitos escolares
Permite-me, Senhor, que diga também algo de meu talento, dádiva tua, e dos desatinos
em que o empregava. Propunha-se-me como desafio – coisa mui preocupante para minha alma,
tanto pelo louvor ou descrédito, como por medo dos açoites – que repetisse as palavras de Juno,
irada e ressentida por não podem “afastar da Itália ao rei dos troianos”, embora jamais tenha
sabido que tivessem sido pronunciadas por Juno. Mas obrigavam-nos a errar seguindo os passos
das ficções poéticas, e a repetir em prosa o que o poeta havia dito em verso. Era mais elogiado
aquele que, conforme a dignidade da pessoa representada, soubesse pintar com mais vivacidade
e semelhança, e revestir com palavras mais apropriadas seus afetos de ira ou de dor.
Mas qual o proveito disso – ó vida verdadeira, meu Deus – de que me servia ser aplaudido
por minha declamação mais que todos os meus coetâneos e condiscípulos? Não era tudo aquilo
fumo e vento? Acaso não havia outra coisa em que exercitar meu talento e minha língua? Teus
louvores, Senhor, teus louvores, consignados nas Escrituras, poderiam soerguer a frágil planta de
meu coração, e eu não teria sido arrebatado pela vaidade de vãs quimeras, presa imunda das
aves. Com efeito, há diversas maneiras de oferecer sacrifício aos anjos rebeldes.
CAPÍTULO XVIII
Leis gramaticais, lei de Deus
Mas, por que admirar-se que eu me deixasse arrastar pelas vaidades e me afastar de ti,
meu Deus, se me propunham como exemplos para imitar a uns homens que se, ao contar alguma
boa ação, deslizassem nalgum barbarismo ou solecismo cobriam-me de críticas e, pelo contrário,
que eram elogiados por narrar suas torpezas com palavras castiças e apropriadas, de modo
eloqüente e elegante, e que os inchavam de vaidade?
Tu vês, Senhor, estas coisas, e te calas compassivo, paciente, cheio de misericórdia e
verdade. Mas te calarás para sempre? Arranca, pois, agora deste espantoso abismo a alma que
te busca sedenta de teus deleites, e que te diz de coração: Busquei, Senhor, teu rosto; teu rosto,
Senhor, buscarei ainda. Longe está de teu rosto quem anda ocupado com afetos tenebrosos,
porque não é com os pés carnais, nem cobrindo distâncias que nos aproximamos ou nos
afastamos de ti. Porventura aquele teu filho menor procurou cavalos, ou carros, ou naves, ou voou
com asas invisíveis, ou viajou a pé para alcançar aquela região longínqua onde dissipou o que
lhes havia dado, ó Pai, meigo ao lhe entregar a substância, e mais carinhoso ainda ao recebê-lo
andrajoso? Assim, pois, viver nas paixões da luxúria, é o mesmo que viver em paixões
tenebrosas, é viver longe de teu rosto.
Olha, meu Senhor e meu Deus, é vê paciente, como costumas ver, de que modo diligente
os filhos dos homens observam as regras de ortografia recebidas dos primeiros mestres, e
desprezam as leis eternas de salvação perpétua recebidas de ti; de tal modo que, se alguns dos
que sabem ou ensinam as regras antigas dos sons pronunciasse a palavra homo, sem aspirar a
primeira letra, desagradaria mais aos homens do que se, contra teus preceitos, odiasse a outro
homem, sendo este homem.
Como se o homem pudesse ter inimigo mais pernicioso que o ódio com que se irrita contra
si mesmo, ou como se pudesse causar a outrem maior dano, perseguindo-o, do que causa a seu
próprio coração odiando! Com certeza, não nos é mais íntima a ciência das letras do que a
consciência, que manda não fazer a outrem o que não queremos que não nos façam.
Oh! Como és misericordioso, tu, que habitando silencioso nos céus, Deus grande e único,
espalhas com lei infatigável cegueiras vingadoras sobre as paixões ilícitas! Quando o homem,
aspirando à fama de eloqüente, ataca a seu inimigo com ódio feroz diante do juiz, rodeado de
grande multidão de homens, toma todo o cuidado para que, por um lapsus linguae, não se lhe
escape um inter ominibus, sem aspirar o h, sem cuidar que com o furor de seu ódio se tire um
homem de entre os homens.
CAPÍTULO XIX
Mau perdedor
À beira de tal lodaçal jazia eu, pobre criança, sendo esta a arena em que me exercitava,
temendo mais cometer um barbarismo de linguagem do que cuidando de não invejar, se o
cometia, aqueles que o tinham evitado.
Digo e confesso diante de ti, meu Deus, essas misérias, que me angariavam o louvor
daqueles cuja simpatia equivalia para mim a uma vida honesta, pois não via o abismo pois não via
o abismo de torpeza em que tudo isso me lançara, longe dos teus olhos. A teus olhos quem era
mais repelente do que eu? E eu até desagradava tais homens, enganando com infinidade de
mentiras a meus criados, mestres e pais por amor dos jogos, por gosto de ver espetáculos frívolos
e o desejo inquieto de os imitar.
Também cometia furtos na despensa e na mesa de meus pais, ora impelido pela gula, ora
para ter de dar aos meninos para brincar com eles, folguedos que os deleitavam tanto quanto a
mim, e que eles me faziam pagar. No jogo, frequentemente, conseguia vitórias fraudulentas,
vencido pelo desejo de me sobressair. Contudo, nada havia que eu quisesse mais evitar e que eu
repreendesse mais atrozmente se o descobrisse em outros, que o mesmo eu fazia aos demais.
Se acaso eu era o prejudicado, e o acusado ficava furioso, eu não cedia. Será esta a inocência
infantil? Não, Senhor, não o é, eu to confesso, meu Deus. Porque essas mesmas coisas que se
fazem com os criados e mestres por causa de nozes, bolas e passarinhos, se avultam na
maioridade com os magistrados e reis por causa de dinheiro, palácios e servos, do mesmo modo
que à palmatória sucedem-se maiores castigos.
Assim, quando tu, nosso rei, disseste: Delas é o reino do céus – quiseste sem dúvida
louvar na pequenez de sua estatura um símbolo de humildade.
CAPÍTULO XX
Ação de graças
Contudo, Senhor, graças te sejam dadas, excelso e ótimo criador e ordenador do universo,
nosso Deus, mesmo que te limitasses a me fazer apenas menino. Porque então, eu já existia,
vivia, sentia, cuidava da minha integridade, eco de tua profunda unidade, fonte de minha
existência.
Guardava também, com o secreto instinto, a integridade dos meus outros sentidos, e
deleitava-me com a verdade nos pequenos pensamentos que formava sobre coisas pequenas.
Não queria ser enganado, tinha boa memória, e me ia instruindo com a conversação. Alegrava-me
com a amizade, fugia à dor, ao desprezo, à ignorância. E não seria isto, em tal criatura, digno de
admiração e de louvor? Pois todas essas coisas são dons do meu Deus, que eu não dei a mim
mesmo. E todos são bons, e tudo isso constitui o meu eu.
O que me criou, portanto, é bom, e ele próprio é o meu bem; a ele louvo por todos estes
bens que integravam meu ser de criança. Eu pecava em buscar em mim próprio e nas demais
criaturas, e não nele, os deleites, grandezas e verdades; por isso caia logo em dores, confusões e
erros.
Graças a ti, minha doçura, minha esperança e meu Deus, graças a ti por teus dons; que
eles fiquem em ti conservados. Assim me guardarás também a mim, e aumentarão e
aperfeiçoarão os dons que me deste, e eu estarei contigo, porque também me deste a existência.
LIVRO SEGUNDO
CAPÍTULO I
A adolescência
Quero recordar minhas torpezas passadas e as degradações carnais de minha alma, não
porque as ame, mas por te amar, ó meu Deus. É por amor de teu amor que o faço, percorrendo
com a memória amargurada, aqueles meus perversos caminhos, para que tu me sejas doce,
doçura sem engano, ditosa e eterna doçura. Resgata-me da dispersão em que me dissipei
quando, afastando-me de tua unidade, me desvaneci em muitas coisas.
Tempo houve de minha adolescência em que ardi em desejos de me fartar dos prazeres
mais baixos, e ousei a bestialidade de vários e sombrios amores, e se murchou minha beleza, e
me transformei em podridão diante de teus olhos, para agradar a mim mesmo e desejar agradar
aos olhos dos homens.
CAPÍTULO II
As primeiras paixões
E que me deleitava, senão amar e ser amada? Mas eu não era moderado, indo de alma
para alma de acordo com os sinais luminosos da amizade, pois, da lodosa concupiscência de
minha carne e do fervilhar da puberdade levantava-se como que uma névoa que obscurecia e
ofuscava meu coração, a ponto de não discernir a serena amizade da tenebrosa libido. Uma e
outra, confusamente, me abrasavam; arrastavam minha fraca idade pelo declive íngreme de meus
apetites, afogando-me em um mar de torpezas. Tua ira se acumulava sobre mim, e eu não o
sabia. Ensurdeci com o ruído da cadeia de minha mortalidade, e cada vez mais me afastava de ti,
e tu o consentias; e me agitava, e me dissipava, e me derramava e fervia em minha devassidão, e
tu te calavas – ó alegria que tão tarde encontrei! – tu te calavas então, e eu ia cada vez mais para
longe de ti, sempre atrás de estéreis sementes de dores, com vil soberba e inquieto cansaço.
Oh! Se alguém refreasse aquela minha miséria, para que fizesse bom uso da fugaz beleza
das criaturas inferiores; limitasse suas delicias, a fim de que as vagas daquela minha idade
rompessem na praia do matrimonio, já que de outro modo não podia haver paz – contendo-se nos
limites da geração, como prescreve tua lei, Senhor, tu que crias o gérmen transmissor de nossa
vida mortal, e que com mão bondosa podes suavizar a agudeza dos espinhos, que mantiveste
fora do paraíso! Porque tua onipotência está perto de nós, mesmo quando vagueamos longe de ti.
Pelo menos eu deveria atender com mais diligencia à voz de tuas nuvens: Também eles
sofrerão as tribulações da carne; mas eu quisera poupar-vos; e bom é ao homem não tocar em
mulher; o que está sem mulher pensa nas coisas de Deus, de como o há de agradar; mas o que
está ligado pelo matrimonio pensa nas coisas do mundo, e em como há de agradar à mulher.
Estas são as palavras que eu deveria ter ouvido mais atentamente; e, eunuco pelo amor ao reino
de Deus, teria suspirado mais feliz por teus abraços.
Mas eu, miserável, tornei-me em torrente, seguindo o ímpeto de minha paixão, te
abandonei e transgredi a todos os teus preceitos, sem porém, escapar de teus castigos. E quem o
poderia dentre os mortais? Sempre estavas ao meu lado, irritando-se misericordiosamente
comigo, e aspergindo com amaríssimos desgostos todos os meus gozos ilícitos, para que eu
buscasse a alegria sem te ofender e, quando a achasse, de modo algum fosse fora de ti, Senhor.
Fora de ti, que impões a dor em mandamento, e feres para sarar, e nos tiras a vida para que não
morramos sem ti.
Mas onde estava eu? Oh! Quão longe, exilado das delicias de tua casa naqueles meus
dezesseis anos de idade carnal, quando esta empunhou seu cetro sobre mim, e eu me rendi
totalmente a ela, à fúria da concupiscência que a degradação humana legítima, porém, ilícita, de
acordo com as tuas leis.
Nem mesmo os meus cogitaram em me sustentar na queda, pelo casamento, ao ver-me
cair; cuidavam apenas que eu aprendesse a compor discursos magníficos e a persuadir com a
palavra.
CAPÍTULO III
Cegueira do pai, cuidados da mãe
Nesse mesmo ano tive de interromper meus estudos, quando voltei de Madaura, cidade
vizinha, onde fora estudar literatura e oratória, enquanto se faziam os preparativos necessários
para minha viagem mais longa a Cartago, levado mais pela ambição de meu pai que pelos seus
parcos bens, pois, era mui modesto cidadão de Tagaste.
Mas, a quem conto eu estes fatos? Certamente, não a ti, meu Deus, mas em tua presença
conto estas coisas aos da minha estirpe, ao gênero humano, ainda que estas páginas chegassem
às mãos de poucos. E para que então? Para que eu, e quem me ler, pensemos na profundeza do
abismo de onde temos de clamar por ti? E que há de mais próximo a teus ouvidos que o coração
contrito e a vida que procede da fé?
Quem então não cumulava a meu pai de louvores, pois excedendo até seus deveres
familiares, gastava com o filho o necessário para tão longa viagem por causa de seus estudos?
Porque muitos cidadãos, muito mais ricos do que ele, não mostravam para com os filhos igual
cuidado.
Contudo, este mesmo pai não se importava de saber se eu crescia para ti, ou que fosse
casto, contanto que fosse deserto; mas antes eu era deserto, por carecer de teu cultivo, ó Deus,
único, verdadeiro e bom senhor de teu campo, o meu coração.
Porém, no meu décimo-sexto ano foi necessária uma interrupção em meus estudos por
falta de recursos familiares e, livre da escola, passei a viver com meus pais. Avassalaram então
minha cabeça os espinhos de minhas paixões, sem que houvesse mãos que os arrancassem.
Pelo contrário, meu pai, certo dia, percebendo ao banho sinais de minha puberdade e vendo-me
revestido de inquieta adolescência, como se já se alegrasse pensando nos netos, foi contá-lo
alegre à minha mãe. Alegria esta gerada pela embriaguez com que este mundo esquece de ti, seu
criador, e em teu lugar ama tua criatura; embriaguez que nasce do vinho sutil de sua perversa e
mal inclinada vontade para as coisas baixas.
Mas, nessa época, já tinhas começado a levantar, no coração de minha mãe, teu templo e
os alicerces de tua santa morada; meu pai não era mais que catecúmeno, recente ainda. Por isso
minha mãe perturbou-se com santo temor. Embora eu ainda não fosse batizado, temia que eu
seguisse as sendas tortuosas por onde andam os que te voltam as costas, e não o rosto.
Ai de mim! Como me atrevo a dizer que te calavas quando me afastava de ti? Seria
verdade que então te calavas comigo? E de quem eram, senão tuas, aquelas palavras que pela
boca de minha mãe, tua serva fiel, sussurraste em meus ouvidos, embora nenhuma delas
penetrasse no meu coração, para que a cumprisse?
Lembro bem que um dia me admoestou em segredo, com grande solicitude, que me
abstivesse da luxúria e, sobretudo, que não cometesse adultério com a mulher de ninguém.
Porém, esses conselhos pareciam-me próprios de mulheres, e eu me envergonharia de segui-los.
Mas, na realidade, eram teus, embora eu não o soubesse, e por isso julgava que te calavas, e que
era ela quem me falava; e eu te desprezava em tua serva, eu, seu filho, filho de tua serva e servo
teu, a ti que não cessavas de me falar pela sua boca.
Mas eu não o sabia, e me precipitava com tanta cegueira, que me envergonhava entre os
companheiros de minha idade, de ser menos torpe do que eles. Os ouvia jactar-se de suas
maldades, e gloriar-se tanto mais quanto mais infames eram; assim eu gostava de fazer o mal,
não só pelo prazer, mas ainda por vaidade. O que há de mais digno de vitupério do que o vicio? E,
contudo, para não ser escarnecido, tornava-me mais viciado e, quando não houvesse cometido
pecado que me igualasse aos mais perdidos, fingia ter feito o que não cometera, para que não
parecesse mais abjeto quanto mais inocente, e tanto mais vil quanto mais casto.
Eis com que companheiros andava eu pelas graças de Babilônia, revolvendo-me na lama,
como em cinamomo e ungüentos preciosos. E, para que todo esse lodo me pegasse bem firme,
subjugava-me o inimigo invisível, e me seduzia, por ser eu presa fácil da sedução.
Nem então minha mãe carnal, que já fugira do meio da Babilônia, mas que em outras
coisas caminhava mais devagar, cuidou – como fizera ao aconselhar-me a castidade – de conter
com os laços do matrimonio aquilo de que seu marido lhe falara a meu respeito. Já percebera ela
que me era pestilencial, e que mais adiante me seria perigoso – já que essa paixão não podia ser
cortada pela raiz. Não pensou nisso, digo, por temer que o vínculo matrimonial frustrasse a
esperança que sobre mim acalentava; não a esperança da vida futura, que ela já tinha posto em ti,
mas a esperança das letras que ambos, meu pai e minha mãe, desejavam ardentemente; meu
pai, porque não pensava quase nada de ti, mas apenas ambições vãs a meu respeito; minha mãe,
porque considerava que tais tradicionais estudos das letras não só não me seriam de estorvo,
sendo de não pouca ajuda para chegar a ti. Assim julgo eu, agora, enquanto me é possível pela
lembrança, o caráter de meus pais.
Por isso, soltavam-me as rédeas para o jogo mais do que o permite uma moderada
severidade, deixando-me cair na dissolução de várias paixões; e de todas surgia uma obscuridade
que me toldava, ó meu Deus, a luz da tua verdade; e, por assim dizer, de meu corpo, brotava
minha iniqüidade.
CAPÍTULO IV
O furto das pêras
É certo, Senhor, que tua lei pune o furto, lei tão arraigada no coração dos homens que nem
a própria iniqüidade pode apagar. Que ladrão há que suporte com paciência que o roubem? Nem
o rico tolera isto a quem o faz forçado pela indigência. Também eu quis roubar, e roubei não
forçado pela necessidade, mas por penúria, fastio de justiça e abundância de maldade, pois
roubei o que tinha em abundância, e muito melhor. Nem me atraía ao furto o gozo de seu
resultado, mas atraía-me o furto em si, o pecado.
Nas imediações de nossa vinha, havia uma pereira carregada de frutos, que nem pelo
aspecto, nem pelo sabor tinham algo de tentador. Alta noite – pois até então ficaríamos jogando
nas eiras, de acordo com nosso mau costume – dirigimo-nos ao local, eu e alguns jovens
malvados, com o fim de sacudi-la e colher-lhe os frutos. E levamos grande quantidade deles, não
para saboreá-los, mas para jogá-los aos porcos, embora comêssemos alguns; nosso deleite era
fazer o que nos agradava justamente pelo fato de ser coisa proibida.
Aí está meu coração, Senhor, meu coração que olhaste com misericórdia quando se
encontrava na profundeza do abismo. Que este meu coração te diga agora que era o que ali
buscava, para fazer o mal gratuitamente, não tendo minha maldade outra razão que a própria
maldade. Era hedionda, e eu a amei; amei minha morte, amei meu pecado; não o objeto que me
fazia cair, mas minha própria queda. Ó torpe minha alma, que saltando para fora do santo apoio,
te lançavas na morte, não buscando na ignomínia senão a própria ignomínia?
CAPÍTULO V
A causa do pecado
Todos os corpos formosos, o ouro, a prata, e todos os demais têm, com efeito, seu aspecto
atraente. No contato carnal intervém grandemente a congruência das partes, e cada um dos
sentidos percebe nos corpos certa modalidade própria. Também a honra temporal e o poder de
mandar e dominar têm seu atrativo, de onde nasce o desejo de vingança.
Todavia, para obtermos estas coisas, não é necessário abandonarmos a ti, nem nos
desviar de tua lei. Também a vida que aqui vivemos tem seus encantos, por certa beleza que lhe
é própria, e pela harmonia que tem com as demais belezas terrenas. Cara é, finalmente, a
amizade dos homens pela união que une muitas almas com o doce laço do amor.
Por todos estes motivos, e outros semelhantes, pecamos quando, por propensão
imoderada para os bens ínfimos, são abandonados os melhores e mais altos, como tu, Senhor,
nosso Deus, tua verdade e tua lei.
É verdade que também esses bens ínfimos têm seus deleites, porém, não como os de
Deus, criador de todas as coisas, porque nele se deleita o justo, e nele acham suas delicias os
retos de coração.
Portanto, quando indagamos a causa de um crime, não descansamos até averiguar qual o
apetite dos bens chamados ínfimos, ou que temor de perdê-los foi capaz de provocá-lo. Sem
dúvida são belos e atraentes, embora, comparados com os bens superiores e beatíficos, sejam
abjetos e desprezíveis. Alguém comete um homicídio. Por que? Porque desejou a esposa do
morto, ou suas terras, ou porque quis roubar alguma coisa, ou então, ferido, ardeu em desejos de
vingança. Por acaso cometeria o crime sem motivo, apenas pelo gosto de matar? Quem pode
acreditar em semelhante coisa?
Mesmo de Catilina, homem sem entranhas e muito cruel, de quem se disse que era mau e
cruel sem razão, acrescenta o historiador um motivo: “Para que a ociosidade não embotasse suas
mãos e sentimento”.
Todavia, se indagares porque agia assim, dir-te-ei que mediante o exercício de crimes,
depois de tomada a cidade, conseguisse honras, poderes e riquezas, libertando-se do medo das
leis e das dificuldades da vida, causados pela pobreza de seu patrimônio e a consciência de seus
crimes. Logo, nem o próprio Catilina amava seus crimes, mas aquilo por cujo motivo os cometia.
CAPÍTULO VI
O crime gratuito
Que amei, então, em ti, ó meu furto, crime noturno dos meus dezesseis anos? Não eras
belo, já que eras furto. Mas, por acaso és algo para que eu fale contigo? Belas eram as pêras que
roubamos, por serem criaturas tuas, ó formosíssimo Criador de todas as coisas, bom Deus, Deus
sumo, meu bem e meu verdadeiro bem; belas eram aquelas pêras! Porém, não eram elas que
apeteciam minha alma depravada. Eu as tinha em abundância, e melhores. Colhi-as da árvore só
para roubar; tanto que, tão logo colhidas, joguei-as fora, saboreando nelas apenas a iniqüidade,
com que me regozijava. Se alguma delas entrou em minha boca, somente o crime é que lhe deu
sabor.
E agora pergunto, meu Deus: que é que me deleitava no furto? Pois não encontro
nenhuma beleza nele. Já não falo da beleza que reside na justiça e na prudência, nem sequer da
que resplandece na inteligência do homem, na memória, nos sentidos ou na vida vegetativa; nem
da que brilha nos magníficos astros em suas órbitas, ou na terra e no mar, cheios de criaturas,
que nascem para sucederem umas às outras; nem sequer da defeituosa e sombria formosura dos
vícios enganadores.
O orgulho imita a altura; mas só tu, Deus excelso, estás acima de todas as coisas. E a
ambição, que busca, senão honras e glorias, quanto tu és o único sobre todas as coisas e ser
honrado e glorificado eternamente? A crueldade dos tiranos quer ser temida; porém, quem há de
ser temido senão Deus, a cujo poder ninguém, porém, quem há de ser temido senão Deus, a cujo
poder ninguém, em tempo algum ou lugar, nem por nenhum meio pode subtrair-se e fugir? As
carícias da volúpia buscam ser correspondidas; porém, não há nada mais carinhoso que tua
caridade, nem que se ame de modo mais salutar que tua verdade, sobre todas as coisas formosa
e resplandecente. A curiosidade sugere amor à ciência, enquanto só tu conheces plenamente
todas as coisas. Até a própria ignorância e estultícia cobrem-se com o nome de simplicidade e
inocência; das quais não acham nada mais simples do que tu. E que pode haver mais inocente do
que tu, pois, até mesmo o castigo dos maus lhes vem de seus pecados? A indolência gosta do
descanso; porém, que repouso seguro pode haver fora do Senhor? O luxo gosta de ser chamado
de fartura; mas só tu és a plenitude e a abundância inesgotável de eterna suavidade. A
prodigalidade veste-se com a capa da liberalidade; porém, só tu, és verdadeiro e liberalíssimo
doador de todos os bens. A avareza quer possuir muitas coisas; porém, só tu as possui todas. A
inveja litiga acerca de excelências; porém, que há mais excelente do que tu? A ira busca a
vingança; e que vingança mais justa do que a tua? O temor aborrece as coisas repentinas e
insólitas, contrárias ao que se ama ou se deseja manter seguro; mas haverá para ti algo de novo e
repentino? Quem poderá separar de ti o que amas? E onde, senão em ti, se encontra inabalável
segurança? A tristeza definha com a perda das coisas com que a cobiça se deleita, e não quer
que se lhe tire nada, como nada pode ser tirado de ti.
Assim peca a alma, quando se aparta e busca fora de ti o que não pode achar puro e
ilibado senão quando se volta novamente para ti. Perversamente te imitam todos os que se
afastam de ti e se levantam contra ti. Porém, mesmo imitando-te, mostram que és o criador de
toda criatura e que, portanto, não existe lugar onde alguém se possa afastar de ti de modo
absoluto.
Que amei, então, naquele furto, e no que imitei, viciosa e imperfeitamente, a meu Senhor?
Acaso foi o gosto de agir pela fraude contra a tua lei, já que não o podia fazer por força,
simulando, cativo, uma falsa liberdade ao fazer impunemente o que estava proibido, imagem
tenebrosa de tua onipotência?
Eis aqui o servo que, fugindo do seu senhor, seguiu uma sombra. Ó podridão! Ó monstro
da vida e abismo da morte! Como pôde agradar-me o ilícito, e não por outro motivo, senão porque
era ilícito?
CAPÍTULO VII
Ação de graças
Como agradecerei ao Senhor por poder recordar todas estas coisas sem que minha alma
sinta medo algum? Amar-te-ei, Senhor, e dar-te-ei graças, e confessarei teu nome, pois me
perdoaste tantas e tão nefandas ações. Devo à tua graça e misericórdia teres-me dissolvido os
pecados como gelo, como também todo o mal que não pratiquei. De fato, de que pecados não
seria capaz, eu que amei gratuitamente o erro?
Confesso que todos já me foram perdoados; o mal cometido voluntariamente, e o que
deixei de fazer pela tua graça. Quem dentre os homens, conhecendo tua fraqueza, poderá atribuir
às próprias forças sua castidade e inocência para amar-te menos, como se tivesse menor
necessidade de tua misericórdia, com a qual perdoas os pecados aos que se convertem a ti?
Aquele, pois, que, chamado por ti, seguiu tua voz e evitou todas estas coisas que lê de
mim, e que eu recordo e confesso, não se ria de mim por haver sido curado pelo mesmo médico
que o preservou de cair enfermo, ou melhor, de que adoecesse tanto. Antes, esse deve amar-te
tanto e ainda mais do que eu, porque o mesmo que me curou de tantas e tão graves
enfermidades, esse mesmo o livrou de cair no pecado.
CAPÍTULO VIII
O prazer da cumplicidade
E que fruto colhi eu, miserável, daquelas ações que agora recordo com rubor? Sobretudo
daquele furto, em que amei o próprio furto, e nada mais? Nenhum, pois o furto, em si nada valia,
ficando eu mais miserável com ele. Todavia, é certo que eu sozinho não o teria praticado – a
julgar pela disposição de meu ânimo na ocasião; – não, de modo algum; eu sozinho não o faria.
Portanto, apreciei também na ocasião a companhia daqueles com quem o cometi. Logo, também
é certo que apreciei algo mais além do furto; embora não amasse de fato nada mais, pois também
essa cumplicidade era nada.
Mas, que é esta, na verdade? E quem mo poderá ensinar, senão o que ilumina meu
coração e rasga minhas sombras? De onde vem à minha alma a idéia destas indagações, desta
discussão e considerações? Se eu então amasse as pêras que roubei, e quisesse apenas seu
desfrute, podia tê-las roubado sozinho, se isso bastasse. Poderia fazer a iniqüidade pela qual
chegaria meu deleite sem necessidade de excitar o prurido da minha cobiça com a conivência de
almas cúmplices.
Porém, como não achava deleite algum nas pêras, colocava este no próprio pecado, que
consistia na companhia dos que pecavam comigo.
CAPÍTULO IX
O prazer do pecado
E que sentimento era aquele de minha alma? certamente, assaz torpe e eu um desgraçado
por alimentá-lo. Mas, que era na realidade? E quem há que conheça os pecados? Era como um
riso, como que a fazer-nos cócegas no coração, provocado por ver que enganávamos aos que
não suspeitavam de nós tais coisas, e porque sabíamos que haviam de detestá-las.
Porém, por que me deleitava o não perpetrar sozinho o roubo? Acaso alguém se ri
facilmente quando está só? Ninguém o faz, é verdade; porém, também é verdade que às vezes o
riso tenta e vence aos que estão sós, sem que ninguém os veja, quando se oferece aos sentidos
ou à alma algo extraordinariamente ridículo. Porque a verdade é que eu sozinho nunca teria feito
aquilo; não, eu sozinho jamais faria aquilo. Tenho viva, diante de mim, meu Deus, a lembrança
daquele estado de alma, e repito que eu sozinho não teria cometido aquele furto, do qual não me
deleitava o objeto, mas a razão do roubo, o que, sozinho, não me teria agradado de modo algum,
nem eu o teria feito.
Ó amizade inimiga! Sedução impenetrável da alma, vontade de fazer o mal por
passatempo e brinquedo, apetite do dano alheio sem proveito algum e sem desejo de vingança!
Só porque sentimos vergonha de não ser sem-vergonha quando ouvimos; “Vamos! Façamos!”.
CAPÍTULO X
Deus, o sumo bem
Quem desatará este nó, tão enredado e emaranhado? Como é asqueroso! Não quero
voltar para ele os olhos, não quero vê-lo. Só a ti quero, justiça e inocência, tão bela e graciosa aos
olhos puros, e com insaciável saciedade. Só em ti se acha o descanso supremo e a vida
imperturbável. Quem entra em ti, entra no gozo do seu Senhor, e não temerá, e estará
perfeitamente bem no sumo bem. Eu me afastei de ti e andei errante, meu Deus, mui longe de teu
esteio em minha adolescência, e cheguei a ser para mim mesmo uma região de esterilidade.
LIVRO TERCEIRO
CAPÍTULO I
O gosto do amor
Cheguei a Cartago, e por toda parte fervilhava a sertã de amores impuros. Ainda não
amava, mas já gostava de amar; secretamente sedento, aborrecia a mim próprio por não me
sentir mais indigente de amor. Gostando do amor buscava o que amar, e odiava a segurança e os
meus caminhos sem perigos, porque tinha dentro de mim fonte de alimento interior, de ti mesmo,
ó meu Deus. Eu não sentia essa fonte como tal; antes, estava sem apetite algum dos manjares
incorruptíveis, não porque estivesse saciado deles, mas porque, quanto mais vazio, tanto mais
enfastiado me sentia.
E por isso minha alma não estava bem e, ferida, voltava-se para fora de si, ávida de se
roçar miseravelmente às coisas sensíveis; se porém não tivessem alma, não seriam certamente
amadas.
Amar e ser amado era para mim a coisa mais doce, sobretudo se podia gozar do corpo da
criatura amada. Deste modo manchava com torpe concupiscência a fonte da amizade, e
obscurecia seu candor com os vapores infernais da luxúria. E apesar de tão torpe e impuro,
desejava com afã e cheio de vaidade, passar por afável e cortês.
Caí por fim no amor, em que desejava ser colhido. Porém, ó meu Deus, misericórdia
minha, quanto fel não misturaste àquela suavidade, e quão bom foste ao fazê-lo! Fui amado, e
cheguei secretamente aos laços do prazer, e me deixei alegremente enredar com trabalhosos
laços, para ser logo açoitado com as varas de ferro ardente do ciúme, das suspeitas, dos temores,
das iras e das contendas.
CAPÍTULO II
A paixão dos espetáculos
Arrebatavam-me os espetáculos teatrais, cheios das imagens de minhas misérias e de
alimento para o fogo de minha paixão. Mas, por que quer o homem condoer-se ao contemplar
coisas tristes e trágicas, que de modo algum gostaria de suportar? Contudo, o espectador deseja
sofrer com elas, e até essa mesma dor é seu deleite. Que é isso, senão rematada loucura? De
fato, tanto mais se comove alguém com elas quanto menos livre se está de tais afetos, embora
chamemos de misérias os sofrimentos próprios, e de compaixão a comiseração do mal alheio.
Porém, que compaixão pode haver em coisas fictícias e representadas? Nelas não se
incita o espectador a que socorra a alguém, senão que o mesmo é convidado apenas à angústia,
apreciando tanto mais o autor daquelas histórias quanto maior é o sentimento que elas nos
inspiram. De onde resulta que, se tais desgraças humanas – quer das histórias antigas, quer
sejam inventadas – são representadas de forma a não se excitarem sofrimento ao expectador,
este sai aborrecido e murmurando; se porém, pelo contrário, é levado à tristeza, fica atento e
chora satisfeito.
Quer isso dizer que amamos as lágrimas e a dor? Sem dúvida que todo homem busca o
gozo; mas como não agrada a ninguém ser miserável, e sendo grato a todos ser misericordioso, e
como a piedade é inseparável da dor, não seria esta a causa verdadeira para que apreciemos
essas emoções dolorosas?
Também isso provém da amizade. Mas para onde se dirige? Para onde vai? Por que se
atira à torrente da pez ardente, às vagas horrendas de negras leviandades em que a amizade se
transforma voluntariamente, afastada e privada de sua celestial serenidade que o homem
repudia?
Deve-se, pois, repelir a compaixão? De modo algum. Convém, pois, que alguma vez se
amem as dores. Mas evita nisso a impureza, ó minha alma, sob proteção de Deus, do Deus de
nossos pais, louvado e exaltado por todos os séculos; cuidado com a impureza. Porque nem
agora me fecho a tal compaixão. Mas naquele tempo comprazia-me no teatro com os amantes,
quando eles se gozavam em suas torpezas – embora estas não passassem de encenações. E
quando um deles se perdia, eu quase piedosamente me contristava, e sentia prazer numa e
noutra coisa.
Hoje, porém, tenho mais compaixão do homem que se alegra em seus vícios, que do que
sofre pela perda de um prazer funesto ou pela perda de uma mísera felicidade. Esta misericórdia
é certamente mais verdadeira, mas nela a dor não encontra nenhum prazer. E embora seja certo
que se aprove quem por caridade se compadece do miserável, contudo, quem é fraternalmente
compassivo preferiria que não houvesse razões para se compadecer. Porque assim como não é
possível que exista uma benevolência malévola, tampouco o é que haja miseráveis para deles se
compadecer.
Há, pois, dores que merecem compaixão, porém, nenhuma que mereça amor. Por isso tu,
Deus, que amas as almas muito mais elevadamente que nós, te compadeces delas de modo
muito mais puro, porque não sentes nenhuma dor. Mas quem será capaz de chegar a isso?
Mas eu, desventurado, amava então a dor, e buscava motivos para senti-la. Naquelas
desgraças alheias, falsas e mímicas, agradava-me tanto mais a ação do ator, e me mantinha tanto
mais atento quanto mais copiosas lágrimas me fazia derramar.
Mas, que admira que eu, infeliz ovelha transviada de teu rebanho, por não aceitar tua
proteção, estivesse atacado de ronha asquerosa? De aqui nasciam, sem dúvida, os desejos
daquelas emoções de dor que, todavia, não queria que fossem muito profundas em mim, porque
não desejava padecer coisas como as que via representadas. Comprazia-me que aquelas coisas,
ouvidas ou fingidas, me tocassem só superficialmente. Mas, como acontece aos que coçam a
ferida com as unhas, terminava por provocar em mim mesmo um tumor abrasador, podridão e pus
repelente.
Tal era minha vida. Mas, seria isto vida, meu Deus?
CAPÍTULO III
O estudo da retórica e os demolidores
Entretanto, tua misericórdia, fiel, de longe pairava sobre mim. Em quantas iniqüidades não
me corrompi, meu Deus, levado por sacrílega curiosidade que, separando-me de ti, conduzia-me
aos mais baixos, desleais e enganosos serviços aos demônios, a quem sacrificava minhas más
ações, sendo em todas flagelado com duro açoite por ti!
Também ousei apetecer ardentemente e procurar meios para conseguir os frutos da morte
na celebração de teus mistérios, dentro dos muros de tua igreja. Por isso me açoitaste com duras
penas, que nada eram comparadas com minhas culpas, ó Deus, misericórdia infinita, e meu
refúgio contra os terríveis malfeitores, com os quais vaguei de cabeça erguida, afastando-me cada
vez mais de ti, preferindo meus caminhos aos teus, amando a liberdade fugitiva!
Os estudos a que era entregue, que se denominavam honestos ou nobres, tinham por
objetivo as contendas do foro, nas quais deveria me distinguir com tanto maior louvor quanto mais
hábeis fossem as mentiras. Tal é a cegueira dos homens, que até de sua própria cegueira se
gloriam!
Eu já conseguira, naquele tempo, ser o primeiro da escola de retórica, e por isso me
vangloriava soberbamente, e me inflava de orgulho. Contudo, tu sabes, Senhor, que eu era muito
mais sossegado que os demais, e totalmente alheio às turbulências dos eversores – ou
demolidores – nome sinistro e diabólico que eles consideravam distintivo de urbanidade, entre os
quais vivia com imprudente pudor por não pertencer a seu grupo. É verdade que andava com
eles, e que me deleitava, às vezes, com sua amizade, porém, sempre aborreci o que faziam,
como as troças e a insolência com que surpreendiam e ridicularizavam a timidez dos novatos,
sem outra finalidade senão rir de suas trapalhadas, fazendo disso alimento para suas malévolas
alegrias. Nada há mais parecido a estas ações que as dos demônios, pelo que nenhum nome lhes
cai melhor que o de eversores ou demolidores, por serem eles transformados e pervertidos
totalmente pelos espíritos malignos, que assim os burlam e enganam, sem que o saibam,
justamente no que eles gostam de ludibriar ou enganar os demais.
CAPÍTULO IV
O Hortênsio de Cícero
Entre essa gente estudava eu, em tão tenra idade, os livros da eloqüência, na qual
desejava sobressair com o fim condenável e vão de satisfazer à vaidade humana. Mas, seguindo
o programa usado no ensino desses estudos, cheguei a um livro de Cícero, cuja linguagem, mais
do que seu conteúdo, quase todos admiram. Esse livro contém uma exortação à filosofia, e se
chama Hortênsio. Esse livro mudou meus sentimentos, e transferiu para ti, Senhor, minhas
súplicas, e fez com que mudassem meus votos e desejos. Subitamente, tornou-se vil a meus
olhos toda vã esperança, e com incrível ardor de meu coração suspirava pela sabedoria imortal, e
comecei a me reerguer para voltar a ti. Não era para limar a linguagem – aperfeiçoamento que,
parece, eu compraria com o dinheiro de minha mãe, naquela idade de meus dezenove anos,
fazendo dois que morrera meu pai – não era, repito, para limar o estilo que eu me dedicava à
leitura daquele livro, nem era seu estilo o que a ela me incitava, mas o que ele dizia.
Como ardia, meu Deus, como ardia meus desejos de voar para ti das coisas terrenas, sem
que eu soubesse o que obravas em mim! Porque em ti está a sabedoria, pela qual aquelas
páginas me apaixonavam. Não faltam os que nos iludam servindo-se da filosofia, colocando ou
encobrindo seus erros com nome tão grande, tão doce e honesto. Mas quase todos os que assim
fizeram em seu tempo e em épocas anteriores, são apontados e refutados nesse livro. Também
se encontra ali bem claro aquele salutar aviso de teu Espírito, dado por meio de teu servo bom e
piedoso (Paulo): Vede que ninguém vos engane com vãs filosofias e argúcias sedutoras, de
acordo com a tradição dos homens e os ensinamentos deste mundo, e não de acordo com Cristo,
porque é nele que habita corporalmente toda a plenitude da divindade.
Mas então – tu bem o sabes, luz de meu coração – eu ainda não conhecia o pensamento
de teu Apóstolo. Só me deleitava naquelas palavras de exortação, o fato de me excitarem
fortemente, inflamando-me a amar, a buscar, a conquistar, a reter e a abraçar não a esta ou
àquela seita, senão à própria Sabedoria, onde quer que estivesse. Só uma coisa me arrefecia tão
grande ardor: não ver ali o nome de Cristo. Porque este nome, Senhor, este nome de meu
Salvador, teu filho, por tua misericórdia eu o bebera piedosamente com o leite materno, e o
conservava, no mais profundo do meu coração, em alto apreço; e assim, tudo quanto fosse escrito
sem este nome, por mais verídico, elegante e erudito que fosse, não me arrebatava totalmente.
CAPÍTULO V
A desilusão das escrituras
Em vista disso, decidi dedicar-me ao estudo da Sagrada Escritura, para a conhecer. Vi ali
algo encoberto para os soberbos e obscuro para as crianças, mas humilde a princípio e sublime à
medida que se avança o velado de mistérios; e eu não estava disposto a poder entrar nela,
dobrando a cerviz à sua passagem. Contudo, ao fixar nela a atenção, não pensei o que agora
estou dizendo, mas simplesmente me pareceu indigna de ser comparada com a majestade dos
escritos de Cícero. Meu orgulho recusava sua simplicidade, e minha mente não lhe penetrava o
íntimo. Contudo, a agudeza desta visão haveria de crescer com os pequenos; mas eu de nenhum
modo queria ser criança e, enfatuado de soberba, considerava-me grande.
CAPÍTULO VI
A sedução do maniqueísmo
Deste modo vim cair com uns homens que deliravam orgulhosos, demasiado carnais e
loquazes; em sua boca havia laços diabólicos e engodo pegajoso feito com as silabas de teu
nome, do nosso Senhor, Jesus Cristo, e do nosso Paráclito e Consolador, o Espírito Santo. Estes
nomes nunca saíam de seus lábios, porém, só no som e ruído da boca, pois de resto, seu coração
estava vazio de toda verdade.
Diziam: “Verdade! Verdade!” – e, incessantemente, falavam-me da verdade, que nunca
existiu neles; antes, diziam muitas falsidades, não apenas de ti, que és verdade por excelência,
mas também dos elementos deste mundo, criação tua. Sobre isso, mesmo quando os filósofos
diziam a verdade, tive de ultrapassá-los nos raciocínios por amor de ti, ó pai sumamente bom,
beleza de todas as belezas!
Ó verdade, verdade! Quão intimamente suspiravam por ti as fibras da minha alma, quando
eles te faziam soar ao meu redor frequentemente e de muitos modos, embora apenas com as
palavras e em seus muitos e volumosos livros. Estes eram as bandejas nas quais, estando eu
faminto de ti, serviam-me em teu lugar o sol e a lua, formosas obras de tuas mãos, porém, obras
tuas, e não a ti, nem sequer das principais. De fato, tuas obras espirituais são superiores a estas
corporais, ainda que estas sejam brilhantes e celestes. Mas eu tinha sede e fome não daquelas
primeiras, mas de ti mesmo, ó verdade, na qual não há mudança nem obscuridade momentânea!
E eles serviam-me nessas bandejas esplendidas ficções, de acordo com as quais teria sido
melhor amar a este sol, verdadeiro pelo menos aos olhos, em lugar daquelas falsidades que pelos
olhos do corpo enganavam o entendimento.
Contudo, como as tomava por ti, alimentava-me delas, não certamente com avidez, porque
não tinham o teu gosto – pois não eras aqueles vãos fantasmas – nem me nutria com elas, antes
sentia-me cada vez mais debilitado. A comida que se toma em sonhos, não obstante ser muito
semelhante à do estado de vigília, não alimenta aos que dormem, porque estão dormindo. Aquilo,
porém, em nada era semelhantes a ti, como agora me certificou a verdade, pois que eram
fantasmas corpóreos ou falsos corpos; comparados com eles, são mais reais estes corpos –
celestes ou terrestres – que vemos com os olhos da carne assim como os vêem os animais e as
aves.
Vemos estas coisas, e são mais reais do que as conjecturas sobre outros corpos
grandiosos, que, por sua vez, que, por sua vez, quando as imaginamos, são mais reais do que
quando por meio delas conjeturamos outras maiores e infinitas, que de modo algum existem. Com
tais quimeras me alimentava eu, então, e por isso não me saciava.
Mas tu, meu amor, em quem desfaleço para me tornar forte, nem és estes corpos que
vemos, mesmo no céu; nem os outros que não vemos, porque és o Criador e os ocultaste, e não
os consideras como as obras primas de tua criação.
Oh! Quão longe estavas daquelas minhas quimeras, fantasmas de corpos que jamais
existiram em comparação, são mais reais as imagens dos corpos existentes; e, mais reais ainda
essas imagens, esses mesmos corpos, os quais, todavia, não são tu! Mas também não és a alma
que dá vida aos corpos – mas é a vida das almas, a vida das vidas, que vives, imutável, por ti
mesma; a vida de minha alma.
Mas onde estavas então para mim? e quão longe peregrinava eu, longe de ti, privado até
as bolotas com que eu alimentava os porcos! Quão melhores eram as fábulas dos gramáticos e
poetas que todos aqueles enganos! Porque os versos, a poesia e a fábula de Medeia soando pelo
ar são certamente mais úteis que os cinco elementos do mundo em seus mil disfarces, conforme
os cinco antros de trevas, que não existem, mas que matam a quem nele acredita. Porém, versos
e poesia eu os posso converter em iguaria para meu espírito e, quanto ao vôo de Medeia, se o
recitava bem, não lhe afirmava veracidade e, se me agradava ouvi-lo, não lhe dava crédito. Mas –
ai de mim! – eu acreditei naqueles erros dos maniqueístas.
Ai de mim, por que degraus fui descendo até a profundidade do abismo, exaurido e
devorado pela falta de verdade quando te buscava! E tudo isso, meu Deus – a quem me confesso
porque te compadeceste de mim quando ainda não te conhecia – tudo por buscar-te, não com a
inteligência – com a qual quiseste que eu fosse superior aos animais – mas com os sentidos da
carne. E tu estavas dentro de mim, mais profundo do que o que em mim existe de mais íntimo, e
mais elevado do que o que em mim existe de mais alto.
Assim encontrei aquela mulher insolente e sem prudência – enigma de Salomão – que,
sentada em uma cadeira à porta de sua casa, diz aos que passam: Comei à vontade dos pães
escondidos, e bebei da doçura da água roubada, a qual me seduziu por andar eu vagando fora de
mim, sob o império da vista carnal, ruminando em meu íntimo o que meus olhos haviam devorado.
CAPÍTULO VII
Alguns erros dos maniqueus
Não conhecia eu outra realidade – a verdadeira – e me sentia como que movido por um
aguilhão a aceitar a opinião daqueles insensatos impostores quando me perguntavam de onde
procedia o mal, se Deus estava limitado por forma corpórea, se tinha cabelos e unhas, e se
deviam ser considerados justos os que tinham várias mulheres simultaneamente, e os que
causavam a morte de outros ou sacrificavam animais.
Eu, ignorando essas coisas, perturbava-me com essas perguntas. Afastando-me da
verdade, parecia-me encaminhar para ela, porque não sabia que o mal é apenas privação do
bem, até chegar ao seu limite, o próprio nada. E como poderia ter eu tal conhecimento, se com os
olhos não conseguia ver mais do que corpos, e com a alma não ia além de fantasmas?
Tampouco sabia que Deus é espírito, que não tem membros dotados de comprimento ou
largura, nem quantidade material alguma, porque a quantidade ou matéria é sempre menor na
parte que no todo e, mesmo que fosse infinita, sempre seria menor em uma parte definida por um
espaço determinado do que em sua infinitude, não podendo estar toda inteira em todas as partes,
como o espírito, como Deus.
Ignorava totalmente o princípio de nossa existência, que há em nós, e pelo qual a Escritura
nos chama de imagem e semelhança de Deus.
Não conhecia tampouco a verdadeira justiça interior, que não julga pelo costume, mas pela
lei retíssima do Deus onipotente. Por ela se hão de formar os costumes dos países conforme os
mesmos países e tempos, e sendo a mesma em todas as partes e tempos, não varia de acordo
com as latitudes e as épocas; lei essa segundo a qual foram justos Abraão, Isaac, Jacó e Davi, e
todos os que são louvados pela boca de Deus. Os ignorantes, julgando as coisas de acordo com a
sabedoria humana, e medindo a conduta alheia pela própria, os julgam iníquos. É como se um
ignorante em armaduras, não sabendo o que é próprio de cada membro, quisesse cobrir a cabeça
com a couraça e os pés com o elmo, e se queixasse de que as peças não se lhe adaptem
convenientemente. Ou como se alguém se queixasse de que, em determinado dia considerado
feriado do meio-dia em diante, não lhe permitissem vender a mercadoria à tarde, como acontecera
pela manhã; ou porque vê que na mesma casa permite-se a um escravo qualquer tocar no que
não é permitido ao copeiro; ou porque não se permite fazer diante dos comensais o que se faz
atrás de uma estrebaria; ou, finalmente, se indignasse porque, sendo uma a casa e uma a família,
não se atribuíssem a todos as mesmas coisas.
Tais são os que se indignam quando ouvem dizer que em outros tempos se permitiam aos
justos coisas que não se lhe permitem agora, e que Deus mandou àqueles uma coisa e a estes
outra, conforme os tempos, servindo uns e outros à mesma norma de santidade. E, contudo, é
bem visível que no mesmo homem, no mesmo dia e na mesma hora e na mesma casa, o que
convém a um membro não convém a outro; e aquilo que há pouco era licito, já não o é mais; e
que o que se concede em uma parte, é justamente proibido e castigado em outra.
Diremos, por isso, que a justiça é vária e inconstante? O que acontece é que os tempos a
que ela preside não caminham no mesmo passo, porque são tempos. Mas os homens, cuja vida
terrestre é breve, por não saberem harmonizar as causas dos tempos idos, e das gentes que não
viram nem conheceram, com as que agora vêem e experimentam e, como também vêem
facilmente o que no mesmo corpo, na mesma hora e lugar convém a cada membro, a cada tempo,
a cada parte e a cada pessoa, escandalizam-se com as coisas daqueles tempos, enquanto
aceitam as de agora.
Ignorava eu então estas coisas e não as refletia e, embora de todos os lados me ferissem
os olhos, eu não as via. Quando declamava algum poema, não me era lícito por um pé em
qualquer outra parte do verso, senão em uma espécie de metro uns e em outra outros, e em um
mesmo verso não podia meter em todas as partes o mesmo pé; e a própria arte da prosódia,
apesar de mandar coisas tão distintas, não era diversa em cada parte, senão uma só e coerente.
Contudo, não via como a justiça, à qual serviram aqueles varões bons e santos, pudesse conter
simultaneamente, de modo mais belo e sublime, preceitos tão diversos, sem variar em sua
essência, apesar de não mandar ou distribuir aos diferentes tempos todas as coisas
simultaneamente, mas a cada um as que lhe são próprias. E, cego, censurava àqueles piedosos
patriarcas, que não só usavam do presente como Deus lhes mandava e inspirava, mas também
prediziam o futuro conforme Deus lhes revelava.
CAPÍTULO VIII
Moral e costume
Acaso será em alguma parte e momento injusto amar a Deus de todo o coração, com toda
a alma e com todo o entendimento, e amar ao próximo como a nós mesmos? Por isso, todos os
pecados contra a natureza, como o foram os do sodomitas, hão de ser detestados e castigados
sempre e em toda a parte, pois, mesmo que todos os cometessem, não seriam menos réus de
crime diante da lei divina, que não fez os homens para usar tão torpemente de si; de fato viola-se
a união que deve existir com Deus quando a natureza, da qual ele é autor, se mancha com a
depravação das paixões.
Com relação aos pecados que são contra os costumes humanos, também hão de ser
evitados de acordo com a diversidade dos costumes, a fim de que o pacto mútuo entre os povos e
nações, firmado pelo costume ou pela lei, não seja quebrado por nenhum capricho de cidadão ou
forasteiro, porque é indecorosa a parte que não se acomoda ao todo.
Todavia, quando Deus ordena algo contra tais costumes ou pactos, sejam quais forem,
deve ser obedecido, embora o que mande nunca tenha sido feito; e se não foi cumprido, deve ser
restaurado, e se não estava estabelecido, deve-se estabelecer. Se é lícito a um rei mandar na
cidade que governa coisas que ninguém antes dele e nem ele próprio havia mandado, e se não é
contra o bem da sociedade obedecê-lo, antes o seria o não obedecê-lo – por ser pacto básico de
toda sociedade humana obedecer a seus reis – quanto mais deveria ser Deus obedecido sem
titubeios em tudo que mandar, como rei do universo? Porque, assim como entre os poderes
humanos o maior poder se antepõe ao menor, para que este lhe preste obediência, assim Deus
antepõe-se a todos.
O mesmo se deve dizer dos crimes perpetrados com desejo de causar o mal, quer por
agressão, quer por injúria; e ambas as coisas, ou por desejo de vingança, como ocorre entre
inimigos, ou por alcançar algum bem sem trabalhar, como o ladrão que rouba ao viajante; ou para
evitar algum mal, como acontece com o que teme; ou por inveja, como quando um miserável quer
mal ao que é mais feliz, ou ao que conseguiu riquezas, temendo ser igualado ou que já lhe sejam
iguais; ou unicamente pelo prazer de ver o mal alheio, como acontece com o espectador dos
combates dos gladiadores, ou com o que se ri e zomba dos outros.
Tais são os princípios ou fontes de iniqüidade, que nascem da paixão de mandar, de ver
ou de sentir, quer de uma só dessas paixões, ou de duas, ou de todas juntas. Razão por que se
vive do mal, ó Deus altíssimo e dulcíssimo, contra o saltério de dez cordas, teu decálogo.
Mas, que pecado pode atingir a ti, que não és atingido pela corrupção? Ou que crimes
podem ser cometidos contra ti, a quem ninguém pode causar dano? O que vingas são os crimes
que os homens cometem contra si, porque, mesmo quando pecam contra ti, agem impiamente
contra suas próprias almas, e sua iniqüidade engana-se a si própria, quer corrompendo e
pervertendo sua natureza – feita e ordenada por ti – quer usando imoderadamente das coisas
permitidas, ou até desejando imoderadamente as não permitidas, pelo uso daquilo que é contra a
natureza.
Pecam também os que com o pensamento e a palavra se revoltam contra ti, dando coices
contra o aguilhão; ou quando, uma vez quebrados os limites da sociedade humana, alegram-se
audaciosamente com as facções ou desuniões, de acordo com as suas simpatias ou antipatias. E
tudo isso o homem faz quando és abandonado, fonte da vida, único e verdadeiro criador e senhor
do universo, e com orgulho egoísta ama-se uma parte do todo como se fosse o todo.
Essa a razão pela qual só se pode voltar para ti com piedade humilde, para assim nos
purificares nossos maus costumes; pela piedade te mostras propício com os pecados dos que te
confessam, e ouves os gemidos dos cativos, e nos livras dos grilhões que nós mesmo forjamos,
contanto que não ergamos contra ti os chifres de uma falsa liberdade, quer arrastados pela cobiça
de mais haveres, quer pelo temos de perder tudo, preferindo nosso próprio egoísmo a ti, Bem de
todos.
CAPÍTULO IX
Pecados e imperfeições
Mas, entre tantas maldades, crimes e iniqüidades, estão os pecados dos que progridem,
pecados que os homens de bom juízo vituperam, segundo a regra da perfeição, e louvam pela
esperança de frutos futuros, como o verde é promissor das colheitas.
Há outras ações semelhantes a ações maldosas ou a delitos, e que não são pecados,
porque nem te ofendem a ti, Senhor, nosso Deus, nem tampouco à sociedade humana; como por
exemplo quando procuramos coisas convenientes para o uso da vida e às circunstâncias, sem
que se saiba se essa busca é cobiça, ou quando castigamos a alguém como desejo de que se
corrija, fazendo uso do poder ordinário, e não se sabe se o fazemos por vontade de mortificar.
Por isso, muitas ações que parecem condenáveis aos homens, são aprovadas por teu
testemunho; e muitas, louvadas pelos homens, são condenadas por teu testemunho, porque
muitas vezes as aparências do ato diferem das intenções do seu autor, assim como circunstâncias
ocultas do tempo.
Mas quando ordenas, algo insólito e imprevisto, mesmo que o tenhas proibido uma vez,
mesmo que escondas por algum as razões do teu mandamento, mesmo que seja contra as
convenções de alguns homens da sociedade, quem pode duvidar de que se há de obedecer,
sendo que só é justa a sociedade humana que te obedece? Felizes dos que sabem o que tu
ordenaste, porque os que te servem fazem tudo o que mandas, ou porque assim o exige o tempo
presente, ou para preparar o futuro.
CAPÍTULO X
Ridicularias dos maniqueus
Desconhecendo eu essas verdades, ria-me de teus santos e profetas. Mas, que fazia eu
quando me ria deles, senão dar motivo para que te risses de mim? deixei-me cair
insensivelmente, aos poucos, em tais extravagâncias, a ponto de acreditar que o figo, quando
colhido, chora lágrimas de leite junto com a mãe figueira, e que se um “santo” da seita comesse o
tal figo, colhido não por seu delito, mas de outrem, misturando-o em suas entranhas, gemendo e
arrotando enquanto rezava, exalaria anjos e até mesmo partículas de Deus, partículas essas do
verdadeiro Deus que ficariam cativas para sempre naquele fruto se não fossem libertadas pelos
dentes e pelo estômago do “santo eleito”!
Também acreditei, pobre de mim, que se devia ter mais misericórdia com os frutos da terra
que com os homens para os quais foram criados. Pois, se algum faminto, que não fosse
maniqueísta me pedisse de comer, parecia-me que atendê-lo era como merecer, por aquele
bocado, a pena de morte.
CAPÍTULO XI
O sonho de Mônica
Mas estendeste tua mão do alto, e arrancaste minha alma deste abismo de trevas,
enquanto minha mãe, tua fiel serva, chorava-me diante de ti muito mais do que as outras mães
costumam chorar sobre o cadáver dos filhos, pois via a morte de minha alma com a fé e o espírito
que havia recebido de ti. E tu a escutaste, Senhor, tu a ouviste e não desprezaste suas lágrimas
que, brotando copiosas, regavam o solo debaixo de seus olhos por onde fazia sua oração; sim, tu
a escutaste, Senhor. Com efeito, donde podia vir aquele sonho, com que a consolaste, ao ponto
de me admitir em sua companhia e mesa, fato que havia me negado porque aborrecia e detestava
as blasfêmias do meu erro?
Nesse sonho viu-se de pé sobre uma régua de madeira; e um jovem resplandecente,
alegre e risonho que vinha ao seu encontro, triste e amarga. Este lhe perguntou a causa de sua
tristeza e lágrimas diárias, não por curiosidade, como sói acontecer, mas para instruí-la; e
respondendo-lhe ela que chorava a minha perdição, mandou-lhe, para sua tranqüilidade, que
prestasse atenção e visse por onde ela estava também estaria eu. Apenas olhou, viu-me junto de
si, de pé sobre a mesma régua.
De onde veio este sonho, senão dos ouvidos que tinhas atentos a seu coração, ó Deus
bom e onipotente, que cuidas de cada um de nós como se não tivesses outro para cuidar, zelando
de todos como de cada um!
E como explicar o que se segue? Contou-me minha mãe esta visão, e querendo-a eu
persuadir de que significava o contrário, e que não devia desesperar de ser algum dia o que eu
era, isto é, maniqueísta, ela, sem nenhuma hesitação, me respondeu: “Não; não me foi dito: onde
ele está ali estarás tu, mas onde tu estás ali estará ele também”.
Confesso, Senhor, e muitas vezes disse que, pelo que me recordo, me abalou mais esta
tua resposta pela solicitude de minha mãe, imperturbável diante de explicação falsa e ardilosa, e
por ter visto o que se devia ver – e que eu certamente não veria sem que ela o dissesse – que o
mesmo sonho com o qual anunciaste a esta piedosa mulher com tanta antecedência, a fim de
consolá-la em sua aflição presente, uma alegria que só havia de se realizar muito tempo depois.
Seguiram-se, efetivamente, quase nove anos, durante os quais continuei a me revolver
naquele abismo de lodo e trevas de erro, afundando-me tanto mais quanto mais esforços fazia
para me libertar. Entretanto, aquela piedosa viúva, casta e sóbria como as que tu amas, já um
pouco mais alegre com a esperança, porém, não menos solícita em suas lágrimas e gemidos, não
cessava de chorar por mim em tua presença em todas as horas de suas orações; e suas preces
eram aceitas a teus olhos, mas deixava-me ainda revolver-me e envolver-me naquela escuridão.
CAPÍTULO XII
Uma profecia
Nessa mesma ocasião deste à minha mãe outra resposta, de que ainda me lembro – pois
passo em silencio muitas circunstâncias, pela pressa que tenho de chegar àquelas que te devo
confessar com mais urgência, ou porque não as recordo – deste-lhe outra resposta por meio de
um teu bispo, educado em tua Igreja e exercitado em tuas Escrituras. Como ela pedisse que se
dignasse falar comigo, para refutar meus erros e desenganar-me de minhas más doutrinas e
ensinar-me as boas – pois assim fazia com quantos julgava idôneos – ele negou-se com muita
prudência, como pude verificar depois; respondeu-lhe que eu estava incapacitado para receber
qualquer ensinamento, por estar enfatuado com a novidade da heresia maniqueísta, e por haver
criado embaraço a muitos ignorantes com algumas questões fáceis, como ela mesma lhe relatara.
“Deixe-o – disse – e unicamente ore por ele ao Senhor! Ele mesmo, lendo os livros dos hereges,
descobrirá o erro e reconhecerá sua grande impiedade”. – Ao mesmo tempo contou-lhe que,
quando criança, sua mãe, seduzida pelo erro, entregara-o aos maniqueus, chegando não só a ler,
mas a copiar quase todas as suas obras; e que ele mesmo, sem necessidade de que ninguém o
contestasse ou convencesse, chegara a perceber a falácia daquela doutrina, abandonando-a
enfim.
Depois de assim falar, minha mãe não se aquietava, instando com maiores rogos e mais
copiosas lágrimas a que me visitasse, para discutir comigo sobre o tal assunto. O bispo, já com
certo enfado de sua insistência, lhe disse: “Vai-te em paz, mulher, e continua a viver assim, que
não é possível que pereça o filho de tantas lágrimas” – palavras que ela recebeu como vindas do
céu, segundo me recordava muitas vezes em seus colóquios comigo.
LIVRO QUATRO
CAPÍTULO I
Dos dezenove aos vinte e oito anos
Durante esse período de nove anos – dos dezenove até os vinte e oito anos – fui seduzido
e sedutor, enganado e enganador, conforme minhas muitas paixões; publicamente, com aquelas
doutrinas que se chamam liberais; ocultamente, com o falso nome de religião, mostrando-me aqui
soberbo, ali supersticioso, e em toda parte vaidoso. Ora perseguindo a aura da gloria popular até
os aplausos do teatro, os certames poéticos, os torneios de coroas de feno, as bagatelas de
espetáculos e a intemperança da luxúria; ora, desejando muito purificar-me dessas imundícies,
levando alimento aos chamados “eleitos” e “santos”, para que na oficina de seu estômago
fabricasse anjos e deuses que me libertassem. Tais coisas seguia eu e praticava com meus
amigos, iludidos comigo e por mim.
Riam-se de mim os arrogantes, e os que ainda não foram prostrados e salutarmente
esmagados por ti, meu Deus; mas eu, pelo contrário, hei de confessar diante de ti minhas
torpezas para teu louvor. Permite-me, te suplico, e concede-me que me lembre fielmente dos
desvios passados de meu erro, e que eu te sacrifique uma vítima de louvor.
De fato, sem ti, que sou eu para mim mesmo senão um guia que conduz ao abismo? Ou
que sou eu, quando tudo me corre bem, senão uma criança que suga o leite, e que se alimenta de
ti, alimento incorruptível? E que é o homem, seja ele quem for, se é homem?
Riam-se de nós os fortes e poderosos, que nós, débeis e pobres, confessaremos teu santo
nome.
CAPÍTULO II
Professor de retórica
Naqueles anos eu ensinava retórica e, movido pela cobiça, vendia a arte de vencer pela
loquacidade. Contudo, bem sabes, Senhor, que preferia ter bons discípulos, dos que se chamam
“bons”, aos quais ensinava sem rodeios a arte de enganar, não para que usassem dela contra a
vida de um inocente, mas para algum dia defender algum culpado. Mas, ó Deus, tu me viste de
longe vacilar sobre um caminho escorregadio, viste brilhar, entre espesso fumo, os fulgores da
boa fé que eu demonstrava ao ensinar àqueles amantes da vaidade, àqueles pesquisadores de
mentiras, eu, seu irmão e semelhante.
Por essa mesma época tive em minha companhia uma mulher, não reconhecida pelo
chamado matrimônio legítimo, mas procurada pelo inquieto ardor de minha paixão imprudente;
mas era só uma, e eu lhe era fiel. E assim experimentei pessoalmente a distância que há entre o
amor conjugal contraído com o fim de ter filhos, e o amor lascivo, no qual a prole também nasce,
mas contra o desejo dos pais, embora, uma vez nascida, os obrigue a amá-la.
Lembro-me também de que, querendo participar de um certame de poesia, um arúspide
mandou-me indagar que dádiva lhe daria para eu sair vencedor. Mas eu, que abominava aqueles
nefandos sortilégios, respondi-lhe que não consentiria que se matasse uma mosca para obter a
vitória, mesmo que o prêmio fosse uma coroa de ouro incorruptível; sabia eu que ele teria de
matar animais em seus sacrifícios, julgando com tais honras assegurar para mim os votos do
demônio.
Mas, confesso, Deus de meu coração, que se repudiei tal crime, não o fiz por amor da tua
pureza. Pois ainda não sabia te amar, eu, que sabia conceder apenas esplendores corpóreos.
Não é pois verdade que a alma que suspira por semelhantes fábulas não se aniquila longe de ti, e
se apóia na falsidade, e se apascenta de vento? Mas eis que, não querendo que se oferecessem
sacrifícios aos demônios, eu mesmo me sacrificava a eles com aquela superstição. Com efeito,
que significa apascentar ventos, senão apascentar os espíritos diabólicos, isto é, tornarmo-nos,
por nossos erros, objeto de seu riso e escárnio?
CAPÍTULO III
A atração da astrologia
Por isso, não cessava de consultar os impostores chamados matemáticos, já que estes
não usavam em suas adivinhações de quase nenhum sacrifício, nem dirigiam preces a nenhum
espírito o que, consequentemente, é condenado e repelido com razão pela piedade cristã e
verdadeira. Porque o bom é confessar-te, Senhor, e dizer-te: Tem misericórdia de mim, e cura
minha alma, porque pecou contra ti, e não abusar da tua indulgência para pecar mais livremente,
mas ter sempre presente a sentença do Senhor: Eis-te curado: não peques mais, para que te não
suceda algo pior – Estas palavras, cujo efeito salutar os astrólogos querem destruir, dizendo: “O
impulso de pecar vem dos céus; foi Vênus, Saturno ou Marte que fizeram isto” – e tudo para que o
homem, que é carne, e sangue, e soberba podridão, se sinta sem culpa, e atribua esta ao criador
e ordenador do céu e das estrelas. E quem é este, senão tu, nosso Deus, suavidade e fonte de
justiça, que dás a cada um de acordo com suas obras, e não desprezas ao coração contrito e
humilhado?
Havia então um varão muito sábio, peritíssimo na arte médica, na qual era celebre; sendo
procônsul, pôs com suas próprias mãos sobre minha cabeça insana a coroa da vitória do
concurso; foi como procônsul, e não como médico, porque daquela minha enfermidade só tu me
podias sarar, pois resistes aos soberbos e dás tua graça aos humildes.
Contudo, deixaste acaso de cuidar de mim também por meio daquele ancião? Ou talvez
desistisse de curar minha alma? Tendo-me familiarizado muito com ele, passei a ser assistente
assíduo e freqüente de suas conversas, que eram agradáveis e graves, não pela elegância da
linguagem, mas pela vivacidade das sentenças. Assim que ficou sabendo, por conversa, que eu
me dedicava à leitura dos livros dos astrólogos, admoestou-me benigna e paternalmente a que os
deixasse, e a que não gastasse inutilmente nessas quimeras meus cuidados e trabalho, que
melhor empregaria em coisas úteis. Acrescentou que também ele havia cultivado aquela arte, a
ponto de querer adotá-la, em sua juventude, como profissão para ganhar a vida, pois, se havia
entendido Hipócrates, podia também entender aqueles livros; por fim, deixara aqueles estudos
pelos da medicina, por causa da sua falsidade, não querendo, como homem sério, ganhar o pão
enganando os outros. “Mas tu, disse-me ele – que tens para manter entre os homens tuas aulas
de retórica, segues essas mentiras não por necessidade, mas por mera curiosidade; mais um
motivo para que acredites no que te digo, pois cuidei de aprendê-la tão perfeitamente que quis
viver apenas de seu exercício”.
Indaguei-lhe então por que muitas das coisas prognosticadas pela tal ciência se revelavam
verdadeiras, respondeu-me, como pôde, que a força do acaso está espalhada por toda a
natureza. “Se alguém – dizia ele – consultando as vezes as páginas de um poeta qualquer,
encontra um verso que, apesar do poeta pensar em coisas muito diversas quando o compôs,
adapta-se admiravelmente ao assunto que o preocupa; assim pois nada tem de estranho que a
alma humana, movida por instinto superior, inconsciente do que se passa no seu íntimo, diga, não
por arte, mas por sorte, algo que corresponda aos atos e gestos do consulente”.
E isto, Senhor, me ensinou ele, ou melhor, me ensinaste por teu intermédio, e delineaste
em minha memória o que eu mesmo mais tarde devia procurar. Mas então, nem ele, nem meu
caríssimo Nebrídio, jovem muito bom e casto, que zombava de toda aquela arte divinatória,
puderam me convencer a abandoná-la, porque ainda impressionava-me mais a autoridade
daqueles autores. Não tinha eu encontrado ainda o argumento evidente que procurava, que me
demonstrasse sem ambigüidade que os presságios acertados dos astrólogos são obra da sorte ou
casualidade, e não da arte de observar os astros.
CAPÍTULO IV
A morte do amigo
Por aqueles anos, quando comecei a ensinar em minha cidade natal, conheci um amigo, a
quem amei em demasia por ser meu companheiro de estudos, de minha idade, e por estarmos
ambos na flor da juventude. Juntos fomos criados quando crianças, juntos íamos à escola, juntos
havíamos brincado. Mas nessa época não era amigo tão íntimo como o foi depois, embora
também não o fosse tanto quanto o exige a verdadeira amizade, uma vez que esta só existe entre
os que unes por meio da caridade, derramada em nossos corações pelo Espírito Santo que nos
foi dado.
Contudo, aquela amizade, aquecida ao calor de estudos semelhantes era-me sumamente
grata. Consegui até afastá-lo da verdadeira fé, pouco profunda e arraigada em sua adolescência,
arrastando-o para as fábulas supersticiosas e prejudiciais, razão das lágrimas de minha mãe.
Esse homem já errava em espírito comigo, e minha alma não podia viver sem ele.
Mas eis que, seguindo de perto no encalço de teus servos fugitivos, ó Deus das vinganças,
que és a um tempo fonte de misericórdia, e nos converte a ti por estranhos caminhos, eis que tu o
arrebataste desta vida, quando eu apenas havia gozado um ano de sua amizade, mais doce para
mim que todas as doçuras da minha vida.
Quem poderá enumerar teus louvores, mesmo limitando-se ao que experimentou em si
mesmo? Que fizeste então, meu Deus! E quão impenetrável é o abismo de teus juízos! Lutando
meu amigo contra a febre, ficou por muito tempo sem sentidos, banhado no suor da morte; e,
como temessem por sua vida, batizaram-no sem que ele o soubesse, com o que não me importei,
convencido que estava de que seu espírito reteria melhor aquilo que eu lhe havia inculcado do
que o sinal que recebera sobre o corpo inconsciente.
A realidade, contudo, foi muito outra. Melhorando, e estando fora de perigo, logo que lhe
pude falar – e o fiz logo que ele o pôde, e como dependíamos mutuamente um do outro eu não
me afastava do seu lado – tentei rir-me em sua presença do batismo, julgando que também ele
zombaria comigo de um batismo recebido sem conhecimento nem sentidos, mas ele já sabia que
o havia recebido. Olhando-me então com horror, como a um inimigo, admoestou-me com
admirável e repentina franqueza, dizendo-me que se queria continuar a ser seu amigo deixasse
de tais palavras. Admirado e perturbado, reprimi toda minha emoção, esperando que
convalescesse primeiro, para, recobradas as forças, estar disposto a discutir comigo o que
quisesse. Mas tu, Senhor, livraste-o de minha louca amizade, guardando-o em ti para o meu
consolo, pois, poucos dias depois, na minha ausência, voltaram-lhe as febres e morreu.
Que dor fez anoitecer o meu coração! Tudo o que via era morte para mim. a pátria me era
um suplício, e a casa paterna tormento insuportável, e tudo o que o lembrava transformava-se
para mim em crudelíssimo martírio. Buscavam-no por toda parte meus olhos, e o mundo não mo
devolvia. Cheguei a odiar todas as coisas, porque nada o continha, e ninguém mais me podia
dizer como antes, quando chegava depois de alguma ausência: “Ali vem ele”. Transformara-me
mesmo num grande problema. Perguntava à minha alma porque andava triste, e se perturbava
tanto, e ela não sabia o que responder-me. E se eu lhe dizia: “Espera em Deus” – minha alma não
me obedecia, e com razão, porque para mim, era mais real e melhor o amigo querido que perdera,
que o fantasma em que mandava tivesse esperança. Só o pranto me era doce. Ocupava o lugar
de meu amigo nas delicias de meu coração.
CAPÍTULO V
O conforto das lágrimas
E agora, Senhor, que essas coisas já passaram, agora que o tempo sarou minha ferida,
poderei ouvir de ti, que és a própria verdade, aproximando o ouvido de meu coração de tua boca,
o motivo por que o pranto é doce aos desgraçados? Acaso, mesmo presente em toda parte,
repeliste para longe de ti nossa miséria, permanecendo imutável em ti, enquanto deixas que nos
envolvamos em nossas provações? E, contudo, se nossos lamentos não chegarem a teus
ouvidos, não haverá para nós esperança alguma.
Mas, por que motivo dos gemidos, do choro, dos suspiros e das queixas colhe-se como
fruto doce do amargor da vida? Esperamos que nos ouça? Virá daí a doçura? Isso acontece na
oração que leva em si o desejo de chegar a ti; porém, poder-se-á dizer o mesmo da dor da perda
ou do pranto que então me avassalavam?
Eu não esperava ressuscitar meu amigo com minhas lágrimas, mas limitava-me a me
condoer e a chorar minha miséria, pois eu havia perdido minha alegria.
Ou será que o pranto, que é amargo em si mesmo, se torna um deleite quando, pelo fastio,
aborrecemos os prazeres que antes nos eram gratos?
CAPÍTULO VI
Inconsolável
Mas para que falar dessas coisas, se agora não é tempo de investigar, mas de me
confessar a ti? Eu era miserável, como o é toda alma prisioneira do amor pelas coisas temporais;
se sente despedaçar quando as perde, sentindo então sua miséria, que a torna miserável antes
mesmo de as perder. Assim é como eu era então e, chorando muito amargamente, descansava
na amargura. E como era miserável! Contudo, mais que o amigo caríssimo, eu amava minha vida
miserável, porque embora desejasse mudá-la, não queria perdê-la como ao amigo, não sei se
gostaria de perdê-la por ele, como se conta de Orestes e Pílades – se não é ficção – que queriam
morrer um pelo outro, porque para eles viver separados era pior que a morte. Mas não sei que
novo sentimento nascera em mim, muito contrário a este: sentia pesado tédio de viver, e ao
mesmo tempo tinha medo de morrer. Creio que quanto mais amava o amigo tanto mais odiava e
temia a morte, como inimigo feroz que mo havia arrebatado; pensava que ela acabaria de repente
com todos os homens, como o fizera com ele. Este era meu estado de espírito, pelo que me
lembro.
Meu Deus, eis aqui meu coração, ei seu conteúdo! Olha para o meu passado, porque sei,
esperança minha, que me purificas da impureza desses afetos, atraindo para ti meus olhos, e
libertando meus pés dos laços que me aprisionavam. Maravilhava-me de que sobrevivessem os
outros mortais a seus amados se nunca houvessem de morrer; e mais me maravilhava ainda de
que, morto ele, eu continuasse a viver, porque eu era outro ele. Bem disse um poeta quando
chamou ao amigo “metade da sua alma”. E eu senti que minha alma e a sua não eram mais que
uma em dois corpos, e por isso causava-me horror a vida, porque não queria viver pela metade; e
ao mesmo tempo tinha muito medo de morrer, para que não morresse de todo aquele a quem eu
tanto amara.

CAPÍTULO VII
De Tagaste para Cartago
Ó loucura, que não sabe amar os homens humanamente! Ó homem insensato, que sofre
desmedidamente os reveses humanos! Assim era eu então, e assim agitava-me, suspirava,
chorava, perturbava-me, e não encontrava descanso nem conselho. Trazia a alma em farrapos e
ensangüentada, indócil ao meu governo, e eu não encontrava lugar onde a pudesse depor. Nem
os bosques amenos, nem os jogos e cantos, nem os lugares suavemente perfumados, nem os
banquetes suntuosos, nem os prazeres da alcova e do leito, nem, finalmente, os livros e os versos
podiam dar-lhe descanso. Tudo me causava horror, até a própria luz. Tudo o que não era o que
ele era, era-me insuportável e odioso, exceto gemer e chorar, pois, somente nisto achava algum
repouso. E se minha alma deixava de chorar, logo pesava sobre mim o grande fardo da desgraça.
A ti, Senhor, deveria ser elevada, para ter cura. Eu o sabia, mas não o queria nem podia.
Tanto mais que, ao pensar em ti, não tinha em mente algo sólido e firme, mas um fantasma, o
meu erro. Se nele tentava descansar minha alma, logo deslizava como quem pisa em falso, e caía
de novo sobre mim. Eu era para mim mesmo uma infeliz morada, na qual era ruim e da qual não
podia sair. E para onde iria meu coração, fugindo de si mesmo? Para onde fugir de mim mesmo?
Para onde não me seguiria?
Por isso fugi de minha pátria, porque meus olhos buscariam menos meu amigo onde não
estavam acostumados a vê-lo. E assim me fui de Tagaste para Cartago.
CAPÍTULO VIII
O consolo do tempo e da amizade
O tempo não corre debalde, nem passa inutilmente sobre nossos sentidos; antes, causa na
alma efeitos maravilhosos. Assim vinha e passava, dias após dias, e passando deixava em mim
novas esperanças e novas recordações; pouco a pouco restituía-me a meus prazeres de outrora,
a que ia cedendo minha dor. Substituíam-na não novas dores, mas sementes de novas dores.
Mas, por que me penetrara aquela dor tão profundamente, até o mais íntimo de meu ser, senão
porque derramei minha alma sobre a areia, amando a um mortal como se não o fora? O que mais
me confortava e alegrava eram sobretudo as consolações de outros amigos, com os quais
partilhava o amor para o que amava tem teu lugar, isto é, uma fábula enorme, uma longa mentira,
cujo contato impuro corrompia nossa mente, arrastada pelo prurido de ouvir aquilo que a
agradava; fábula esta que não morria para mim, ainda que morresse algum de meus amigos.
Outros prazeres havia neles que cativavam mais fortemente minha alma, como conversar,
rir, agradar-nos mutuamente com amabilidade, ler juntos livros bem escritos, gracejar uns com os
outros e divertir-nos juntos; às vezes discutir, mas sem ódio, como quando discordamos de nós
mesmos para, com tais discórdias muito raras, temperar as muitas conformidades; ensinar ou
aprender reciprocamente muitas coisas, suspirar impacientes pelos ausentes e receber alegres os
recém-chegados. Estes sinais, e outros semelhantes, que procedem de corações que se amam, e
que se manifestam no rosto, na fala, nos olhos, e em mil outros gestos graciosos, inflamavam
nossas almas, como em uma centelha, fazendo de muitas uma só.
CAPÍTULO IX
O amigo de Deus
. É isto o que se ama nos amigos; e de tal modo se ama, que a consciência humana se julga
culpada se não ama ao que a ama, ou se não retribui amor com amor procurando na pessoa do
amigo apenas o sinal exterior de sua benevolência. Daqui o pranto do luto quando morre um
amigo, as trevas de dores, e as lágrimas que inundam o coração quando a doçura se transforma
em angústia, e a morte dos que morrem na morte dos que vivem.
Bem-aventurado o que te ama, Senhor, e ama ao amigo em ti, e ao inimigo por amor a ti;
só não perde o amigo quem tem a todos por amigos naquele que nunca se perde. E quem é este,
senão nosso Deus, o Deus que fez o céu e a terra, e os enche, porque, enchendo-os, os criou?
Ninguém, Senhor, te perde senão o que te abandona. Mas, quem te deixa, para onde vai, ou para
onde foge, senão de ti benévolo para ti irado? Onde não achará tua lei para seu castigo? Porque
tua lei é a verdade, e a verdade és tu mesmo.
CAPÍTULO X
As mentiras da beleza
Ó Deus das virtudes! Converte-nos e mostra-nos tua face, e seremos salvos! Porque, para
onde quer que se volte a alma humana, onde quer que se estabeleça fora de ti, sempre
encontrará dor, mesmo que sejam as belezas que estão fora de ti e fora de si mesma; e todavia,
estas nada seriam se não existissem em ti. Elas nascem e morrem; e, nascendo, começam a
existir, e crescem para alcançar a perfeição e, uma vez perfeitas, começam a envelhecer e
morrem. Embora nem tudo envelheça, tudo perece. Logo, quando os seres nascem e se esforçam
para existir, quanto mais depressa crescem para existir, tanto mais se apressam para deixar de
existir. Esta é a sua condição. Eis tudo o que lhes deste, porque são partes de coisas que não
existem simultaneamente mas, morrendo e sucedendo-se umas às outras, formam o conjunto de
que são partes.
Assim forma-se também nosso discurso, por meio dos sinais sonoros; este nunca se
realizaria se uma palavra não se extinguisse, depois de pronunciadas suas sílabas, para dar lugar
à seguinte.
Que minha alma te louve por tudo isto, ó Deus, criador de todas as coisas; mas não se
pegue a elas com o visco do amor dos sentidos, pois também elas caminham para o não-ser, e
dilaceram a alma com desejos pestilenciais, e ela quer existir e gosta de descansar nas coisas
que ama. Mas nelas não acha onde, porque as coisas não são estáveis. Elas são fugazes, e
quem poderá segui-las com os sentidos da carne? Ou quem as pode alcançar, mesmo estando
presentes? Lento é o sentido da carne, por ser da carne, mas essa é a sua condição. É suficiente
para o que foi criado, mas não o é para reter o curso das coisas, do princípio que lhes foi fixado,
até o fim que lhes foi designado, porque em teu Verbo, que as criou, ouvem estas palavras:
“Daqui até ali”.
CAPÍTULO XI
A verdade de Deus
Não seja vã, ó minha alma, nem ensurdeças o ouvido do coração com o tumulto de tua
vaidade. Ouve também : o próprio Verbo clama que voltes, porque só acharás repouso
imperturbável lá onde o amor não é abandonado, se ele não nos abandona antes. Eis que as
coisas passam para ceder lugar as outras, e para que assim se forme este universo inferior, de
todas as suas partes. “Mas, por acaso, afasto-me de um lugar para outro? – diz o Verbo de Deus
– Fixa nele tua morada, confia a ele tudo o que dele recebeste, alma minha, já cansada de tantos
enganos. Confia à Verdade quanto da Verdade recebeste, e nada perderás; antes, tua podridão
reflorescerá e serão curadas todas as tuas fraquezas, e serão retomadas e renovadas,
estreitamente unidas a ti, tuas partes inconscientes; e já não te arrastarão para a ladeira por onde
descem, mas permanecerão contigo para sempre onde está Deus, eterno e imutável.
Por que, perversa, segues o apelo de tua carne? Seja esta, convertida a te seguir. Tudo o
que por ela sentes é parte, mas ignoras o todo de que é parte, ainda que te dê prazer. Mas, se os
sentidos de tua carne fossem idôneos para compreender o todo, e se, para teu castigo, não
tivessem sido justamente limitados a compreender apenas partes do universo, certamente
desejarias que passasse tudo o que presentemente existe, para melhor desfrutar do conjunto.
O que falamos também ouves com os ouvidos da carne, e com certeza não queres que as
sílabas se detenham, mas que voem, para que outras lhes sucedam, e assim ouvires o conjunto.
O mesmo acontece com todas as coisas que compõem um todo, quando essas partes
constituintes não existem simultaneamente; há mais encanto no todo do que nas partes
percebidas separadamente. Mas melhor do que todas elas, é o que as fez, que é nosso Deus, que
não passa, porque nada vem depois dele.
CAPÍTULO XII
O amor em Deus
Se te agradam os corpos, louva a Deus neles, e dirige teu amor para teu artífice, para não
o desagradar nas mesmas coisas que te agradam.
Se te agradam as almas, ama-as em Deus, porque, embora mutáveis, se fixas nele, terão
estabilidade; de outro modo, passariam e pereceriam. Ama-as, pois, nele, e arrasta contigo até ele
quantas almas puderes, dizendo-lhes: “Amemo-lo”. Porque ele criou estas coisas, e não está
longe; ele não as fez para depois ir embora, mas dele procedem e nele estão. E ele está onde
aprecia a verdade: no mais íntimo do coração; mas o coração errante se afastou dele.
Voltai, pecadores, ao coração, e ligai-vos àquele que é vosso criador. Firmai-vos nele, e
estareis firmes; descansai nele, e estareis descansados. Para onde ides por esses ásperos
caminhos? Para onde ides? O bem que amais, dele procede, mas só é bom e suave quando se
dirige a ele; porém, será justamente amargo se, abandonando a Deus, amardes injustamente o
que dele procede. Por que continuai por caminhos difíceis e trabalhosos? O descanso não está
onde o buscais. Buscais a vida feliz na região das trevas: não está lá. Como achar a vida bemaventurada
onde nem sequer há vida?
Ele, nossa vida real veio até nós; sofreu nossa morte, e a suplantou com a abundância de
sua vida; com voz de trovão clamou para que voltássemos a ele, para o lugar escondido de onde
veio até nós, passando primeiro pelo seio de uma virgem, onde se desposou com ele a natureza
humana, carne mortal, para não ficar sempre mortal.
Dali, como o esposo que sai do tálamo, deu saltos como um gigante, para correr seu
caminho. E não se deteve; correu clamando com suas palavras, com suas obras, com sua própria
morte, com sua vida, com sua descida aos ínferos e com sua ascensão, clamando para que
voltássemos a ele. Se ele se afastou de nossa vista, foi para que entremos em nosso coração, e
ali o encontremos; se partiu, ainda está conosco. Não quis ficar por muito tempo entre nós, mas
não nos abandonou. Retirou-se de onde nunca se afastou, pois o mundo foi criado por ele, e no
mundo estava, e ao mundo veio para salvar os pecadores. E a ele se confessa minha alma, a ele
que a cura e contra quem pecou.
Filhos dos homens, até quando sereis duros de coração? Será possível que, depois de ter
a vida descido até vós, não queirais subir e viver? Mas para onde subis, quando vos ergueis e
abris vossa boca no céu? Descei para subir, para subir até Deus, já que caístes levantando-vos
contra Deus.
Dize-lhes isto, minha alma, para que chorem neste vale de lágrimas, e assim os arrebates
contigo para Deus, pois, ao dizer estas palavras ardendo em chamas de caridade, é o espírito
divino que te inspira.
CAPÍTULO XIII
O problema do belo
Então eu ignorava tais coisas – e por isso amava belezas terrenas. Caminhava para o
abismo, dizendo a meus amigos: “Será que amamos algo que não é belo? E que é o belo? E que
é a beleza? Que é que nos atrai e apega às coisas que amamos? Pois, com certeza, se nelas não
houvesse certa graça e formosura, não nos atrairiam.
E eu observava e via que num mesmo corpo uma coisa era o todo, harmonioso e belo, e
outra o que lhe era conveniente, sal aptidão de se ajustar de maneira perfeita a alguma coisa
como, por exemplo, a parte do corpo em relação ao conjunto, o calçado em relação ao pé, e
outras similares. Esta consideração brotou em minha alma do íntimo de meu coração, e escrevi
alguns livros sobre o belo e o conveniente, creio que dois ou três – tu o sabes, Senhor – pois já
me esqueci, e não os tenho mais porque se me extraviaram não sei como.
CAPÍTULO XIV
Razões de uma dedicatória
Mas, meu Senhor e meu Deus, qual o motivo de dedicar esses livros a Hiério, orador de
Roma? Não o conhecia, apreciando-o apenas pela fama de sua doutrina, que era grande, e por
alguns ditos seus, que ouvira, e que me agradaram. Mas dele gostava principalmente porque ele
agradava aos outros, que lhe tributavam grandes elogios, admirados de que um sírio, educado na
eloqüência grega, chegasse a orador admirável na latina, e grande conhecedor de todos os
assuntos, ligados à filosofia. Assim, ouve-se louvar a um homem, e, embora ausente, começa-se
a amá-lo. Entrará o amor no coração do que ouve pela boca do que louva? É certo que não, mas
o amor de um se inflama com amor do outro. Por isso se ama ao que é louvado; mas só quando
se está persuadido de que o louvor vem de coração sincero, ou quando o louvor é inspirado pelo
amor.
Assim pois amava eu então aos homens, pelo juízo dos homens, e não pelo teu, meu
Deus, em quem ninguém se engana. Contudo, por que não o louvava como se louva a uma auriga
famoso ou a um caçador afamado pelas aclamações do povo, mas de modo mais distinto e mais
ponderado, tal como eu gostaria de ser louvado?
Certamente, eu não gostaria de ser louvado e amado como os comediantes, embora eu
também os ame e louve; antes, preferiria mil vezes, permanecer desconhecido a ser louvado
dessa maneira, e mesmo ser odiado a ser amado assim. De que modo convivem em uma alma
gostos tão vários e diversos? Como é que amo em outro o que rejeitaria e afastaria para longe de
mim, sendo ambos homens? Aprecia-se um bom cavalo, sem que se queira ser um cavalo, se
isso fosse possível. Mas de um histrião não se pode dizer o mesmo, pois tem a mesma natureza
que nós. Logo, amo em um homem o que teria horror de ser, embora também eu seja homem?
Grande abismo é o homem, cujos cabelos tu, Senhor, tens contados; e não se perde um sem que
tu o saibas; e, contudo, mais fáceis de contar são seus cabelos que suas paixões e os
movimentos de seu coração.
Mas aquele orador era do número dos que eu amava a ponto de desejar ser como ele;
mas eu andava errante por meu orgulho e era arrastado por toda espécie de vento, embora em
segredo fosse governado por ti. E como sei, e como te confesso com tanta certeza que o amava
mais por amor dos que o louvavam do que pelos méritos que lhe valiam esses louvores?
Se em vez de o louvarem aquelas mesmas pessoas o criticassem, e se me contassem
dele as mesmas coisas, mas com censura e desprezo, certamente não me entusiasmaria por ele;
não obstante, os fatos não seriam diferentes e nem o homem outro, mas unicamente os
sentimentos dos narradores.
Eis onde jaz enferma a alma que ainda não se apoiou na firmeza da verdade. É levada e
trazida, atirada e rechaçada, segundo os sopros das línguas que ventam dos peitos dos que
opinam! E de tal modo a luz lhe é toldada, que não distingue a verdade, apesar de estar ela à
nossa vista.
Para mim era importante que aquele homem conhecesse minhas palavras e meus
trabalhos. Se ele os aprovasse, me entusiasmaria ainda mais por ele; mas se os reprovasse, meu
coração fútil e vazio de tua firmeza, se lastimaria. Contudo, meu prazer era pensar e refletir no
problema do belo e do conveniente, assunto do livro que lhe dedicara, admirando-o na minha
imaginação, mesmo que ninguém mais o louvasse.
CAPÍTULO XV
Os primeiros livros
Mas não atinava com a chave de tuas artes em tão grandes obras, ó Deus onipotente,
único criador de maravilhas. Vagava minha alma pelas formas corpóreas, e definia o belo como o
que agrada por si mesmo, e o conveniente como o que agrada por sua acomodação a outra coisa,
e apoiava essa distinção com exemplos tomados dos corpos.
Daqui passei à natureza da alma, mas o falso conceito que tinha das coisas espirituais não
me permitia perceber a verdade. A própria força da verdade saltava-me aos olhos, mas logo eu
afastava da realidade incorpórea meu espírito inquiridor, voltando-me para as figuras, as cores e
as grandezas materiais. E como não podia ver nada semelhantes na alma, julgava que tampouco
seria possível ver minha alma.
Mas, como eu amava a paz da virtude, e aborrecia a discórdia do vício, notava naquela
certa unidade e neste certa desunião; parecia-me que residisse nessa unidade a alma racional, a
essência da verdade e do sumo bem. Na desunião, via eu não sei que substância de vida
irracional e a natureza do sumo mal, que não era apenas substância, mas também verdadeira
vida. Todavia não procedia de ti, meu Deus, de quem procedem todas as coisas. E chamava
àquela unidade mônada, como alma sem sexo, e a esta multiplicidade díada, como a ira nos
crimes, a concupiscência nas paixões, sem saber o que dizia. Ignorava então, ainda não havia
aprendido que o mal não é substância alguma, nem que nosso espírito não é o bem soberano e
imutável.
Assim como se cometem crimes quando o movimento do espírito é vicioso e se atira
insolente e turbulento, e se cometem infâmias quando o afeto da alma, fonte dos prazeres carnais,
é imoderado, assim os erros e falsas opiniões contaminam a vida se a alma racional está viciada,
como estava a minha então. Ignorava que ela deveria ser ilustrada por outra luz para participar da
verdade, por não ser da mesma essência da verdade, porque tu, Senhor, alumiarás minha
lâmpada; tu, meu Deus, iluminarás minhas trevas, e todos participamos de tua plenitude, porque
és a luz verdadeira que ilumina a todo homem que vem a este mundo, e porque em ti não há
mudança nem a momentânea obscuridade.
Eu me esforçava para me aproximar de ti, mas tu me repelias para que experimentasse a
morte, pois resistes aos soberbos. E que maior soberba haveria que afirmar, com inaudita loucura,
que eu era da mesma natureza que tu? Porque, sendo eu mutável, e reconhecendo-me tal – pois,
se queria ser sábio, era para fazer-me de menos para mais perfeito – preferia, contudo, julgar
mutável a ti do que não ser o que tu és. Eis aqui por que era repelido, e por que resistias à minha
soberba cheia de vento.
Eu não imaginava mais que formas corpóreas; carne, acusava a carne; espírito errante,
não conseguia voltar para ti, nem em mim, nem nos corpos; não eram sugeridas por tua verdade,
mas imaginadas por minha vaidade, de acordo com os corpos. E dizia aos pequeninos teus fiéis
concidadãos, dos quais eu, ignaro, ainda exilado, dizia-lhes eu, tagarela inepto: “Por que a alma,
criatura de Deus, se engana?” Mas não queria que dissessem: “E por que Deus se engana?” E
defendia antes que tua substância imutável era obrigada a errar, para não confessar que a minha,
mutável, se desencaminhara espontaneamente, ou que era castigada pelo erro.
Teria eu vinte e seis ou vinte e sete anos quando escrevi essas coisas, revolvendo dentro
de mim apenas imagens corporais, cujo ruído aturdia os ouvidos do meu coração. Buscava eu
aplicá-los – ó doce verdade – à tua melodia interior, quando meditava sobre o belo e o
conveniente. Meu desejo era estar diante de ti, e ouvir tua voz, e alegrar-me intensamente com a
voz do esposo, mas não o podia, porque o alarido do meu erro me arrebatava para fora e, sob o
peso de minha soberba, caía no abismo. Pois ainda não davas gozo e alegria a meus ouvidos,
nem exultavam meus ossos, porque ainda não haviam sido humilhados.
CAPÍTULO XVI
As dez categorias de Aristóteles
E que lucro me trazia, tendo eu vinte anos de idade, mais ou menos, e chegando-me às
mãos a obra de Aristóteles, intitulada As Dez Categorias – que meu mestre, o retórico de Cartago,
e outros, considerados doutos, citavam com grande ênfase e ponderação, fazendo-me suspirar
por ela como por algo grandioso e divino – de que me servia ler essa obra e compreendê-la
sozinho? Falando com outros, que afirmavam ter conseguido entendê-la só por meio de mestres
eruditíssimos, que lha haviam explicado não apenas com palavras, mas também com figuras
pintadas na areia, nada me souberam dizer que eu já não tivesse entendido em minha leitura
particular.
Parecia-me que essa obra falava com muita clareza das substâncias, como o homem, e
das coisas que nelas se encerram, como a forma do homem; a estatura, quantos pés mede; o
parentesco, de quem é irmão; onde se encontra, quando nasceu; se está de pé, sentado, calçado
ou armado; se faz alguma coisa ou se padece de alguma coisa, e, enfim, uma infinidade de
relações que se contêm nestes nove gêneros, dos quais citei alguns exemplos, ou no próprio
gênero da substância, que são também inumeráveis os que encerra.
De que me aproveitava tudo isso, se até me prejudicava? Julgando que naqueles dez
predicamentos se achavam compreendidas, de modo absoluto, todas as coisas, esforçava-me por
compreender também a ti, meu Deus, Ser maravilhosamente simples e imutável, como se fosses
subordinado à tua grandeza e formosura, como se estas estivessem em ti como em seu sujeito,
como se fosses um corpo; tua grandeza e beleza são porém uma mesma coisa contigo, ao
contrário dos corpos, que não são grandes ou belos por serem corpos, pois, embora fosses
menores e menos belos, nem por isso deixariam de ser corpos.
Era pois falso o que pensava de ti, e não verdade; ilusões de minha miséria, e não
representação sólida de tua beleza. Havias ordenado, Senhor, e assim se cumpria em mim tua
vontade, que a terra me produzisse abrolhos e espinhos, e que eu só conseguisse meu pão à
custa de trabalho.
De que me aproveitava também ler e compreender por mim mesmo todos os livros que
pude ter nas mãos sobre as artes chamadas liberais, se eu era então escravo de minhas más
inclinações? Comprazia-me em sua leitura, sem atinar de onde vinha quanto de verdadeiro e certo
achava neles; eu estava de costas para a luz, e o rosto, para os objetos iluminados, e por isso
meus olhos, que os viam iluminados, não recebiam luz.
Tu sabes, Senhor, meu Deus, como sem ajuda de mestre, aprendi tudo o que li, quanto às
leis da retórica, da dialética, da geometria, da música e da matemática, porque também a
vivacidade da inteligência e a agudeza da intuição são dons teus. Mas não te oferecia por eles
sacrifício algum, e por isso causavam-me mais dano do que proveito. Insisti em me apoderar da
melhor parte da minha herança, e não guardei em ti minha força, mas afastei-me de ti para uma
região longínqua, a fim de dissipá-la entre as meretrizes de minhas paixões.
De que me serviam dons tão preciosos, se não usava bem deles? Só compreendi que
aquelas artes eram tão difíceis de entender, mesmo para os estudiosos e sábios, quando me
esforçava para expô-las: entre eles, o mais destacado era o que me compreendia menos
vagarosamente.
Mas qual o fruto disso, se eu te concebia, Senhor meu Deus, ó Verdade, como um corpo
luminoso e infinito, e eu como uma parcela desse corpo? Que rematada perversidade! Assim era
eu; não me envergonho agora, meu Deus, de confessar tuas misericórdias para comigo, e de te
invocar, já que não me envergonhei então de proferir ante os homens tais blasfêmias e de ladrar
contra ti. De que me aproveitava, repito, a inteligência ágil para entender aquelas ciências, e para
explicar com clareza tantos livros complicados, sem que ninguém mos houvesse explicado, se
errava monstruosamente na piedade com sacrílega torpeza? E que prejuízo sofriam teus
pequeninos em serem de menor inteligência, se não se afastavam de ti, para que, seguros no
ninho da tua Igreja, se cobrissem de penas, e lhes alimentassem as asas da caridade com o sadio
alimento da fé?
Ó Deus e Senhor nosso! Esperemos, ao abrigo de tuas asas; protege-nos, leva-nos! Tu
levarás os pequeninos, e até escarnecidos tu os levarás, nossa firmeza só é firmeza quando está
em ti; mas quando depende de nós, então é debilidade. Nosso bem vive sempre em ti, e somos
perversos porque nos afastamos de ti. Voltemos já, Senhor, para não nos aniquilarmos, porque
em ti vive nosso bem, sem deficiência alguma; sem medo de não o encontrar quando voltarmos
para nossa origem e, embora ausentes, nem por isso desaba nossa casa, tua eternidade.
LIVRO QUINTO
CAPÍTULO I
Oração
Recebe, Senhor, o sacrifício de minhas Confissões por meio da minha língua, que tu
formaste e impeliste a confessar teu nome. Cura todos os meus ossos, e que eles proclamem:
Senhor, quem haverá semelhante ai ti? Na verdade, quem se dirige a ti, nada te informa do que
ocorre em si, porque não há coração fechado que se possa subtrair a teu olhar, nem dureza de
homem que possa repelir tua mão. Ao contrário, a abrandas quando queres, ou para compadecerte,
ou para castigar; não há quem se esconda de teu calor. Mas, que minha alma te louve para
que te ame, a confesse tuas misericórdias para que te louve. Toda a criação não cala teus
contínuos louvores, nem os espíritos todos, com sua boca voltada para ti, nem os animais e
coisas corporais, pela boca dos que os contemplam. Assim, apoiando-se em tua criação, nossa
alma se levanta de sua franqueza, e chega a ti, seu admirável criador, onde encontrará
rejuvenescimento e verdadeira fortaleza.
CAPÍTULO II
Os que fogem de Deus
Afastem-se e fujam de ti os irrequietos e os pecadores. Tu os vês e distingues suas
sombras. E eis que, apesar deles, todas as continuam belas; somente eles são feios. E que
damos te poderiam causar? Ou em que poderia desonrar teu império, justo e íntegro desde os
céus até as coisas mais ínfimas? E para onde fugiram, ao fugir de tua presença? E em que lugar
não os encontrarás? Fugiram, sim, para não ver-te a ti, que os estás vendo, mas deparam contigo,
que não abandonas nada do que criaste; tropeçaram contigo, injustos, e justamente são
castigados; subtraindo-se á tua brandura, ofenderam tua santidade, e caíram sob teus rigores.
Evidentemente eles ignoram que estás em toda parte, que nenhum lugar te limita, e que só tu
estás presente mesmo nos que se afastam de ti.
Que se convertam, pois, e te busquem, porque não abandonas tua criatura, como elas
abandonaram a seu Criador. Que se convertam, e logo estarás em seus corações, nos corações
dos que te confessam, dos que se lançam em ti, dos que choram em teu regaço depois de
percorrerem penosos caminhos. E tu, bondoso, enxugarás suas lágrimas; e chorarão ainda mais,
mas serão felizes por chorar, porque és tu, Senhor, e nenhum homem de carne e sangue, tu,
Senhor, que os criaste, que os consolas e robusteces.
E onde estava eu quando te buscava? Certamente, estavas diante de mim, mas eu me
havia afastado de mim mesmo, e não me encontrava, e muito menos de ti!
CAPÍTULO III
Fausto e o maniqueísmo
Falarei, na presença de meu deus, do ano vigésimo-nono de minha vida. Já havia chegado
a Cartago um dos bispos maniqueus, chamado Fausto, grande laço do demônio, no qual caíam
muitos pelo encanto sedutor de sua eloqüência. Apesar de ser exaltada por mim, eu a sabia
contudo discernir das verdades que desejava conhecer. Não era o prato do estilo que eu
considerava, mas o alimento doutrinal que nele me era servido por aquele famoso Fausto, tao
reputado entre os seus.
Antecedera-o a fama de homem erudito em toda espécie de ciência, e particularmente
instruído nas artes liberais. E como eu tinha lido muitas teorias dos filosofo, e as guardava na
memória, quis comparar algumas destas com as grandes fábulas do maniqueísmo. Pareciam-me
mais prováveis as doutrinas daqueles que chegaram a conhecer a ordem do mundo, embora não
tivessem encontrado a seu Criador. Porque tu és grande, Senhor, e pondes os olhos nas coisas
humildes, e as elevadas as conheces de longe, e não te aproximas senão dos contritos de
coração. Nem és encontrado pelos soberbos, ainda que sua curiosa perícia seja capaz de contar
as estrelas do céu e as areias do mar; seja capaz de medir as regiões do céu e de investigar o
curso dos astros.
Com a inteligência e o engenho que lhes deste investigam os segredos do mundo, e
descobriram muitos deles; predisseram com muitos anos de antecedência os eclipses do sol e da
lua, no dia e hora em que hão de suceder, sem que nunca lhes falhasse o cálculo, acontecendo
sempre tal e como haviam anunciado. Deixaram ainda por escrito as leis por eles descobertas, as
quais ainda hoje se lêem, e de acordo com elas se prediz em que ano, e em que mês do ano, e
em que dia do mês, e em que hora do dia, e em que parte de sua luz se hão de eclipsar o sol e a
lua; e tudo acontece como está predito.
Admiram-se disto os ignorantes, e pasmam. Os sábios gloriam-se disso, e se desvanecem,
e com ímpia soberba afastam-se e se eclipsam de tua luz. E, prevendo com exatidão o eclipse
vindouro do sol, não vêem o seu, que já está presente. Não procuram religiosamente saber de
onde lhes vem o talento com que investigam essas coisas e, achando que tu as criaste, não se
entregam a ti, para que conserves o que lhes deste, nem se te oferecem em sacrifício, como se
tivessem feito a si mesmos; nem dão morte às suas soberbas, que alçam vôo como aves do céu;
nem às suas insaciáveis curiosidades que, como peixes do mar, passeiam pelas secretas sendas
do abismo; nem às suas luxúrias, que os igualam aos animais do campo, a fim de que tu, ó Deus,
fogo devorador, destruas estas suas preocupações de morte, e os torne a criar para uma vida
imortal.
Mas não conheceram o caminho, o teu Verbo, por quem fizeste as coisas que numeram, e
a eles próprios que as numeram, e os sentidos com que percebem as coisas que numeram, e a
mente graças à qual as numeram. Tua sabedoria escapa aos números. Teu Filho Unigênito se fez
para nós sabedoria, justiça e santificação, e foi contado entre nós, e pagou tributo a César. Não
conheceram este caminho, por onde desceriam de seu orgulho até ele, e por ele subiriam até ele;
não conheceram, digo, este caminho, e se julgaram mais elevados e resplandecentes que
estrelas, e assim vieram a rolar por terra, e seu coração insensato se obscureceu.
Dizem muitas coisas verdadeiras acerca das criaturas; mas, como não procuram
piedosamente a Verdade, isto é, o autor da Criação, não o encontram; e, se o encontram
reconhecendo-o por Deus, não o honram como a Deus, nem lhe dão graças. Antes, se
desvanecem em seus pensamentos, e se dizem sábios, atribuindo a si próprios o que é teu.
Atribuem a ti, com perversa cegueira, suas mentiras, a ti, que és a própria Verdade; alteram a
glória de um Deus incorruptível, concebendo-a à semelhança e imagem do homem corruptível,
das aves, dos quadrúpedes, das serpentes. E convertem tua verdade em mentira, e adoram e
servem antes à criatura do que ao Criador.
Eu porém guardava muitas de suas opiniões verdadeiras acerca das criaturas, cuja
explicação encontrava nos números, na ordem dos tempos e no testemunho visível dos astros;
comparava-as com os ensinamentos de Manés, que escreveu sobre essas matérias numerosas e
delirantes loucuras, sem achar nenhuma explicação para os solstícios e equinócios, os eclipses
do sol e da lua, e para outras coisas, enfim, das quais tomara conhecimento pelos livros da
sabedoria profana.
Contudo, exigia-me que acreditasse nessas doutrinas, embora não concordassem
absolutamente com meus cálculos e com o que meus olhos testemunhavam.
CAPÍTULO IV
Ciência e ignorância
Senhor, Deus da verdade, acaso te agradará quem conhecer essas coisas? Infeliz do
homem que, conhecendo-a todas, te ignora ti; mas feliz de quem te conhece, embora as ignore!
Quanto ao que conhece a ti e a elas, este não é mais bem-aventurado por causa de seu saber,
mas só é feliz por ti, se, conhecendo-te, te glorifica como Deus, e te dá graças, e não se
desvanece em seus pensamentos.
É melhor aquele que reconhece estar na posse de uma árvore e te dá graças por sua
utilidade, embora ignore quantos côvados tem de altura e de largura, que o que a mede, e conta
todos os seus ramos, mas não a possui, nem conhece, nem ama a seu Criador. Assim o homem
fiel, a quem pertencem todas as riquezas do mundo, e que, nada possuindo, possui tudo, por
estar unido a ti, a quem servem todas as coisas – embora desconheça até o curso das estrelas da
Ursa – e seria insensatez duvidar – é certamente melhor do que o que mede os céus, conta as
estrelas e pesa os elementos, mas despreza a ti, que dispuseste todas as coisas em número,
peso e medida.

CAPÍTULO V
Loucuras de Manés
Mas, quem pediu a esse Manés que escrevesse sobre coisas cujo conhecimento não é
necessário à piedade? Tu disseste ao homem: Vê que a piedade é a sabedoria. Manés podia
muito bem ignorar essa piedade ainda que fosse muito instruído nas ciências profanas. Mas,
como não as conhecia, e se atrevia desavergonhadamente a ensiná-las, de nenhum modo
conhecia a piedade. Pois certamente é vaidade alardear conhecimentos humanos, mesmo
verdadeiros, e é piedade confessar-te a ti. Manés, afastando-se dessa regra, falou tanto sobre
essas coisas que foi convencido de sua ignorância pelos que as conhecem bem. Donde se viu-se
claramente o crédito que merecia em matérias mais obscuras. Ele não queria ser pouco estimado;
empenhou-se em convencer aos demais que tinha em si, pessoalmente, e na plenitude de seu
poder, o Espírito Santo, que consola e enriquece teus fiéis. Surpreendido em erro ao falar do céu,
das estrelas, e do curso do sol e da lua, embora tais coisas não pertençam à religião, claramente
deixou ver ser sacrílego seu atrevimento ao ensinar coisas que ignorava e também falsas, e isso
com tão insano orgulho a ponto de atribuí-las à pretensa divindade de sua pessoa.
Quando pois ouço que este ou aquele irmão em Cristo ignora esses problemas, e
confunde uma coisa com outra, suporto com paciência seu modo de opinar. Nada vejo que possa
ser-lhe prejudicial enquanto não fizer idéia indigna de ti, Senhor, criador do universo, mesmo que
ignore até o lugar e a natureza das coisas materiais. O mal seria acreditar que esses problemas
pertencem à essência da piedade, e tenazmente atrever-se a afirmar o que ignora. Mas ainda
essa fraqueza é suportada nos primórdios da fé pela mãe caridade, até que o homem novo cresça
e se transforme em varão perfeito, e não possa ser abalado por qualquer vento de doutrina.
Quanto a Manés, que se atreveu a se fazer de doutor, de mestre, de guia e cabeça
daqueles a quem convertera, de tal forma que os que o seguiam acreditassem seguir não um
homem qualquer, mas teu Espírito Santo, quem não julgaria que tão rematada loucura, uma vez
demonstrada sua falácia, deveria ser detestada e afastada para bem longe?
Contudo, eu ainda não estava certo se o que havia lido em outros livros, sobre as
mudanças dos dias e das noites, uns mais longos, outros mais curtos, e sobre o suceder-se dos
dias e das noites, e dos eclipses do sol e da lua, e outros fenômenos semelhantes, poderiam ser
explicados conforme sua doutrina. Caso isso fosse possível, eu ainda ficaria em dúvida quanto ao
modo por que se realizariam esses fenômenos; eu anteporia a autoridade de Manés à minha fé,
pois o tinha então em conta de santo.
CAPÍTULO VI
A eloqüência de Fausto
Durante os quase nove anos em que meu espírito errante deu ouvidos aos maniqueus,
esperei ansiosamente a vinda de Fausto. Os demais adeptos, com os quais me encontrava
casualmente, embaraçados com as objeções que eu lhes fazia, remetiam-me a ele que, à sua
chegada, com uma simples entrevista resolveria facilmente todas aquelas dificuldades, e ainda
outras maiores que me ocorressem, de maneira claríssima.
Logo que chegou, pude notar que se tratava de um homem simpático, de fala cativante, e
que expunha os temas comuns dos maniqueus, mas com muito mais agrado que eles. Mas, que
interessava à minha sede este elegante copeiro de copos preciosos? Eu já tinha os ouvidos fartos
daquelas teorias, e nem me pareciam melhores por serem expostas em melhor estilo, nem mais
verdadeiras pela elegância de suas formas; nem eu considerava Fausto mais sábio por ter o rosto
de mais graça e sua linguagem mais finura. Aqueles que mo haviam recomendado não eram bons
juizes: tinham Fausto como homem sábio e prudente somente porque lhes agradava sua facúndia.
Diferentes de outra espécie de homens que conheci, que tinham como suspeita a verdade, e não
se lhe renderiam se lhes fosse apresentada com linguagem elegante e verbosa.
Mas eu, meu Deus, nessa época já tinha aprendido de ti, por caminhos ocultos e
admiráveis – e creio que eras tu que me ensinavas, porque era verdade, e ninguém pode ser
mestre da verdade senão tu, seja qual for a instância e modo dela brilhar – já havia aprendido de ti
que não se deve ter por verdadeiro um pensamento porque expresso eloquentemente nem falso
porque é dito com rudeza; e que, pelo contrário, um pensamento não é verdadeiro por ser
enunciado com simplicidade, nem falso porque sua expressão é elegante; a sabedoria e a
ignorância são como alimentos, proveitosos ou nocivos, e as palavras, elegantes ou rudes, como
pratos preciosos ou toscos, nos quais se podem servir a ambos.
A ânsia com a qual por tanto tempo esperara por Fausto, deleitava-se enfim com o ardor e
a vivacidade de suas disputas, com os termos apropriados e a facilidade com que lhe vinham à
boca para adornar seu pensamento. Deleitava-me, certamente, e eu o louvava e exaltava com os
outros, e muito mais ainda do que eles.
Contudo, na reunião dos ouvintes, me aborrecia não poder apresentar-lhe minhas dúvidas,
e dividir com ele os cuidados de meus problemas, conferindo com ele minhas dificuldades em
forma de perguntas e respostas. Quando, enfim, o pude fazer, acompanhado de meus amigos,
comecei a falar-lhe em ocasião e lugar oportunos para tais discussões, apresentando-lhe algumas
objeções das que mais me preocupavam. Vi então que se tratava de homem completamente
ignorante das artes liberais, com exceção da gramática, que conhecia de modo superficial.
Contudo como havia lido alguns discursos de Cícero, e pouquíssimos livros de Sêneca, alguns
poemas e livros da seita, escritos em bom latim e com arte, e como se exercitava todos os dias
em falar, adquirira grande facilidade de expressão, que ele tornava mais agradável e sedutora
com o bom emprego de seu talento e certa graça natural.
Não é assim como estou contando, meu Senhor e meu Deus, juiz de minha consciência?
Diante de ti estão meu coração e minha memória, e que já então guiavas no segredo oculto de tua
providência, pondo diante de meus olhos meu erros vergonhosos, para que os visse e odiasse.
CAPÍTULO VII
Desilusão
Por isso, logo que reconheci sua ignorância naquelas ciências em que o julgava grande
conhecedor, comecei a desesperar de que me pudesse esclarecer e resolver as dificuldades que
me preocupavam. É bem verdade que ele podia ignorar tais coisas e possuir a verdadeira
piedade, contanto que não fosse maniqueísta. Seus livros estão cheios de fábulas intermináveis
acerca do céu e dos astros, do sol e da lua, que eu já não esperava, mas que pudesse explicar
tão argutamente como eu o desejava, comparando-as com os cálculos matemáticos que eu lera
em outras partes, para ver se deveria preferir o que diziam os livros de Manés, ou se, pelo menos,
estes apresentavam demonstrações de igual valor.
Mas, quando apresentei minhas dificuldades à sua consideração e crítica, com grande
modéstia, não se atreveu a tomar sobre si tal encargo, pois certamente sabia que ignorava o
assunto e não se envergonhava de confessá-lo. Não pertencia à classe de charlatães que me vi
obrigado muitas vezes a suportar, que pretendiam ensinar-me tais coisas, mas não me diziam
nada. Este, pelo menos, tinha coração, senão dirigido a ti, pelo menos não era incauto consigo
mesmo. Não ignorava totalmente sua ignorância, razão pela qual não quis meter-se
temerariamente em questões de onde não pudesse sair, ou de mui difícil retirada. Por isso mesmo
cresceu aos meus olhos, por ser a modéstia de uma alma que se conhece muito mais bela que o
saber que eu desejava; e em todas as questões mais difíceis e sutis o encontrei sempre com igual
ânimo.
Esfriado pois meu entusiasmo pelos livros de Manés, e muito mais desconfiado dos outros
doutores maniqueus, depois que este, tão renomado, se me havia mostrado tão ignorante em
muitas das questões que me inquietavam, continuei a tratar com ele, mas por causa de sua
paixão pelas letras, que eu ensinava então aos jovens de Cartago. Lia com ele os livros que
desejava conhecer por ter ouvido falar deles, ou os que eu considerava apropriados à sua
inteligência.
Quanto ao mais, todo o empenho que eu havia posto em progredir na seita desapareceu
por completo tão logo conheci este homem, mas não a ponto de me separar definitivamente dela.
De fato, não achando na ocasião caminho melhor que aquele por onde cegamente me lançara,
resolvi continuar provisoriamente na mesma, até que tivesse a fortuna de encontrar algo melhor e
preferível. Foi assim que aquele Fausto, que havia sido para muitos laço de morte, começava
involuntária e inconscientemente a desfazer o laço que me enredara. É que tuas mãos, meu Deus,
no segredo de tua providência, não abandonavam minha alma; e minha mãe, dia e noite, não
deixava de te oferecer em sacrifício por mim o sangue de seu coração, na forma de suas lágrimas.
E tu, Senhor, agiste comigo de modo admirável, pois isso foi obra tua, meu Deus. Porque o
Senhor é quem dirige os passos do homem e quem inspira seu caminho. E quem poderá dar-nos
a salvação, senão tua mão, que restaura o que fez?
CAPÍTULO VIII
Viagem a Roma
Também foi obra tua o fato de me convencerem a ir a Roma, para ali lecionar o que
ensinava em Cartago. Mas não deixarei de confessar-te o motivo que me moveu, porque também
nisso tudo se reconhece a profundidade de teu desígnio, e merece ser meditada e exaltada tua
misericórdia sempre presente. O motivo que me levou a Roma não foram maiores lucros e maior
dignidade, como me prometiam os amigos que tal me aconselhavam – se bem que essas razões
ainda fossem importantes para mim nesse tempo – mas o principal e quase único motivo de
minha determinação era saber que os jovens de Roma eram mais sossegados nas classes, em
virtude da rigorosa disciplina a que estavam sujeitos. Não lhes era lícito entrar desordenada e
impudentemente nas aulas dos professores dos quais não eram alunos, nem sequer eram
admitidos sem licença; bem o contrário do que acontecia em Cartago, onde a liberdade dos
estudantes é tão vergonhosa e destemperada que invadem cínica e furiosamente as aulas,
perturbando a ordem estabelecida pelos mestres em seu próprio interesse. Além disso, com
incrível insolência cometem uma quantidade de grosserias, que deveriam ser castigadas pelas
leis, se a tradição não os protegesse. Tal costume aliás, apenas manifesta a infelicidade no caso
desses jovens, que já praticam como lícito o que jamais será permitido por tua lei eterna. Julgam
agir impunemente, quando a própria cegueira é seu maior castigo, padecendo eles males
incomparavelmente maiores do que os que causam aos outros.
Com isso vi-me obrigado, quando professor, a suportar nos outros costumes que não quis
adotar como meus quando estudante; e por isso desejava ir para uma cidade na qual, segundo
me asseguravam, não aconteciam tais coisas. E tu, Senhor, minha esperança e meu quinhão na
terra dos vivos, a fim de que eu mudasse de residência para a saúde de minha alma, me punhas
espinhos em Cartago, para arrancar-me dali, e deleites em Roma para atrair-me para lá. Atraíasme
por meio de homens que amavam uma vida morta, dos quais uns agiam aqui como loucos, e
outros me aliciavam alhures com bens ilusórios. E, para corrigir meus passos, usavas ocultamente
da sua e da minha perversidade. Porque os que perturbavam minha paz estavam cegos por uma
raiva vergonhosa, e os que me convidavam para mudar sabiam a terra; e eu, que detestava em
Cartago uma verdadeira miséria, buscava em Roma uma falsa felicidade.
Mas o verdadeiro motivo de eu sair de Cartago e ir para Roma só tu, ó Deus, o sabias,
sem manifestá-lo a mim nem à minha mãe, que chorou amargamente minha partida, seguindo-me
até o mar. Mas tive de enganá-la, porque me agarrava com força, instando-me a desistir de meu
propósito ou a levá-la comigo. Fingi pois que tinha que me despedir de um amigo que eu não
queria abandonar, até que, soprando o vento, ele pudesse navegar. Assim enganei a minha mãe,
e a uma tal mãe! Fugi, e tu também me perdoaste este pecado misericordiosamente, salvando-me
a mim, cheio de execráveis imundícies, das águas do mar para que chegasse ás águas de tua
graça. Purificado com elas, secariam os rios dos olhos de minha mãe, com que todos os dias
regava a terra diante de ti, por minha causa.
Contudo, como se recusasse a voltar sem mim, apenas pude persuadi-la a permanecer
aquela noite em uma capela próxima a nosso navio, consagrada à memória de São Cipriano. Mas
naquela mesma noite parti às escondidas, deixando-a orar e a chorar. E que te pedia ela, meu
Deus, com tantas lágrimas, senão que me impedisses de navegar? Mas tu, de visão infinitamente
mais ampla, entendendo o intuito de seu desejo, não atendeste ao que ela então te pedia, para
fazer em mim aquilo que sempre te pedia.
Soprou o vento, enfunou nossas velas, e logo desvaneceu de nosso olhar a praia, onde de
manhã cedo minha mãe, louca de dor, enchia de queixas e de prantos teus ouvidos insensíveis.
Deixaste-me correr atrás de minhas paixões para dar fim ás minhas concupiscências, castigando
com o justo flagelo da dor a saudade demasiado carnal de minha mãe. Ela, como todas as mães,
e ainda mais que a maioria delas, desejava manter-me junto de si, desconhecendo as grandes
alegrias que lhe preparavas com minha ausência. Não o sabia, e por isso chorava e se lamentava,
denunciando com esses lamentos a herança que recebera de Eva, buscando em lágrimas ao que
com gemidos havia dado à luz.
Por fim, depois de ter-me chamado de mentiroso e de mau filho, pôs-se de novo a rezar
por mim e voltou para sua vida habitual, enquanto eu me dirigia a Roma.
CAPÍTULO IX
Enfermo
Em Roma fui colhido pelo flagelo de uma doença corporal, que esteve a ponto de me
mandar para a sepultura, carregado de todos os pecados cometidos contra ti, contra mim e contra
o próximo; pecados numerosos e pecados, que se somavam à cadeia do pecado original, pelo
qual todos morremos em Adão. Ainda não me tinhas perdoado nenhum deles em Cristo, nem ele
havia apagado com sua cruz as inimizades que contraíra contigo com meus pecados. E como
poderia ele desfazê-los por uma cruz de onde eu não via pender mais que um fantasma? Porque
tão falsa me parecia a morte de sua carne como verdadeira a morte de minha alma, e tão
verdadeira a morte de sua carne como falsa a vida de minha alma, que disto se não persuadia.
Entretanto, agravando-se as febres, eu estava a ponto de partir e de perecer. Para onde iria eu, se
então tivesse que morrer, senão para o fogo e tormentos merecidos por minhas ações, de acordo
com a justa ordem por ti estabelecida? Minha mãe tudo ignorava, mas, ausente, orava por mim, e
tu, presente em todas as partes onde ela estava, lhe dava ouvidos; exercias tua misericórdia para
comigo onde eu estava, restituindo-me a saúde do corpo, ainda que meu coração sacrílego
continuasse doente. Nem mesmo estando em tão grande perigo desejei teu batismo. Quando
menino eu era melhor, porque então o solicitei à piedade de minha mãe, como já recordei e
confessei. Mas, para minha vergonha, eu havia crescido e, em minha loucura, zombava dos
remédios de tua medicina, que não me deixou morrer duplamente em tal estado.
Se o coração de minha mãe fosse transpassado por essa ferida, nunca haveria de sarar.
Minha eloqüência não é suficiente para descrever o grande amor que me dedicava, e a que ponto
seus cuidados para me gerar em espírito eram piores que os que suportava quando me concebeu
pela carne.
Por isso, não vejo como poderia sarar se minha morte em tal estado tivesse ferido as
entranhas de seu amor. E onde estariam tantas orações, continuamente repetidas? Estariam em
ti, somente em ti. Seria possível que tu, Deus de misericórdia, desprezasses o coração contrito e
humilhado de uma viúva casta e sóbria, que frequentemente dava esmolas e servia obsequiosa a
teus santos? Que em nenhum dia deixava de levar sua oferenda a teu altar? Que ia duas vezes
por dia – de manhã e à tarde – à tua igreja, sem faltar jamais, e não para entreter-se em vãs
conversas e cochichos de velhas, mas para te ouvir as palavras e para que a ouvisses em suas
orações? Poderias desprezar as lágrimas de uma mãe que não te pedia nem ouro, nem prata,
nem bem algum terreno e frágil, mas a salvação da alma de seu filho? Poderias, ó Deus, a quem
ela devia tudo o que era, poderias desprezá-la e negar-lhe teu auxílio? De nenhum modo, Senhor;
pelo contrário, tu a assistias, e a escutavas, mas pelo caminho determinado por tua providência.
Como poderias enganá-la naquelas visões e respostas, de algumas das quais já falamos,
e de outras que passo em silêncio, que ela guardava em seu coração fiel, e que te apresentava
em suas orações contínuas como compromissos assinados por tua mão, e que irias cumprir.
Porque, por tua misericórdia infinita, gostas de te fazer devedor daqueles a quem perdoas todas
as dívidas.
CAPÍTULO X
Agostinho e os erros dos maniqueus
Restabeleceste-me, pois, daquela doença, e então salvaste o filho de tua serva quanto ao
corpo a fim de poder, salvá-lo melhor e mais firmemente. Em Roma juntei-me ainda com os que
se diziam “santos”, falsos e enganadores. E não só convivia com os ouvintes, entre os quais se
contava o dono da casa em que eu adoecera e convalescera – mas também com os que se
chamam “eleitos”.
Ainda então me parecia que não éramos nós que pecávamos, mas não sei que estranha
natureza que pecava em nós; por isso minha soberba se deleitava em me ter como isento de
culpa, e portanto de todo desobrigado a confessar meu pecado, quando agia mal, para que
pudesses curar minha alma que te ofendia. Antes, gostava de me desculpar, acusando a não sei
que ser estranho que estava em mim, mas que não era eu. Na verdade, eu era tudo aquilo,
embora minha impiedade me tivesse dividido contra mim mesmo. E o mais incurável de meu
pecado era justamente o não me considerar pecador, preferindo, minha execrável iniqüidade, que
fosses vencido em mim, para minha perdição, ó Deus onipotente, a que vencesses minha alma
para minha salvação. Ainda não tinhas posto guarda diante da minha boca, nem porta de proteção
ao redor de meus lábios, a fim de que meu coração não se inclinasse para as más palavras, nem
buscasse desculpas para seus pecados, como os homens prevaricadores. Eis a razão pela qual
eu ainda mantinha relações de amizade com os eleitos dos maniqueus. Mas, desesperado de
poder progredir para a verdade dentro daquela falsa doutrina, contentava-me a segui-la até
encontrar algo melhor, professando-a já com mais liberdade e frouxidão.
Nesse tempo, veio-me à mente a idéia de que os filósofos chamados acadêmicos haviam
sido mais prudentes que os outros, por sustentarem que se deve duvidar de tudo, e que nenhuma
verdade pode ser compreendida pelo homem. Julguei então que era esse o seu pensamento,
como geralmente se crê, não tendo ainda compreendido suas verdadeiras intenções.
Quanto a meu hospede, não me furtei de admoestar sua excessiva credulidade com que
aceitava as fábulas de que estavam cheios os livros dos maniqueus. Todavia, tinha mais amizade
com tais homens do que com os estranhos à sua heresia. É verdade que já não a defendia com a
antiga animosidade; mas sua familiaridade – em Roma havia muitos deles ocultos – tornava-me
bastante negligente para procurar outra coisa. Desesperava eu principalmente de poder achar a
verdade em tua Igreja, ó Senhor dos céus e da terra, Criador de todas as coisas visíveis e
invisíveis, verdade da qual eles me afastavam. Parecia-me mui torpe acreditar que tinhas figura de
carne humana, e que estavas limitado pelos contornos de um corpo como o nosso. E quando
queria pensar em meu Deus, não o sabia imaginar senão com massa corpórea – pois não me
parecia que pudesse existir algo diferente – esta era a causa principal e quase única de meu erro
inevitável.
Daqui se gerou também minha crença de que o mal tivesse substância, também corpórea,
massa negra e disforme, ora espessa – a que chamavam terra – ora tênue e sutil, como o ar, a
qual julgava ser um espírito maligno que investia sobre a terra. E visto que minha piedade, por
pouca que fosse me obrigava a pensar que um Deus bom não podia criar nenhuma natureza má,
eu imaginava duas substâncias antagônicas, ambas infinitas, a do mal um pouco menor, a do bem
um pouco maior; e deste princípio pestilencial originavam-se as demais blasfêmias. Com efeito,
quando meu espírito se esforçava por voltar à fé católica, era rechaçado porque minha idéia de fé
católica não era correta. E me parecia ser mais piedoso, ó Deus, a quem louvam em mim tuas
misericórdias, julgar-te infinito por todas as partes, com exceção de um aspecto, a substância do
mal, onde era forçoso reconhecer teus limites, do que julgar-te limitado por todas as partes pelas
formas do corpo humano.
Também tinha como melhor admitir que não havias criado nenhum mal – o qual aparecia à
minha ignorância não só como substância, mas como substância corpórea, por eu não poder
conceber o espírito senão como corpo sutil difundido pelos espaços – do que crer que a natureza
do mal, tal como a imaginava, procedesse de ti.
Também supunha que nosso Salvador, teu Filho Unigênito, houvesse surgido, para nos
salvar, dessa substância luzidíssima de teu corpo. A seu respeito, nada aceitava senão o que me
sugeria minha louca imaginação. E por isso julgava que tal natureza não podia nascer da Virgem
Maria sem se ajuntar com a carne, mas não via como poderia juntar-se à carne sem se corromper;
por isso tinha medo de acreditar em sua encarnação, para não me ver obrigado a julgá-lo
corrompido pela carne.
Sem dúvida agora teus fiéis irão sorrir, branda e amorosamente, se lerem estas minhas
confissões; mas eu, realmente, era assim.
CAPÍTULO XI
Desculpas dos maniqueus
Além de tudo, eu já não estava convencido que se pudessem defender os pontos que os
maniqueus criticavam em tuas Escrituras. Todavia, desejava por vezes discutir com sinceridade
cada um desses pontos com algum varão, grande conhecedor de seus livros, para lhe indagar a
opinião. Quando ainda em Cartago, já me despertara o interesse o discurso de um tal Elpídio, que
falava e discutia publicamente contra os maniqueus, alegando citações da Sagrada Escritura que
não me era fácil refutar.
Por sua vez, as respostas dos maniqueus me pareciam fracas; e mesmo assim não as
expunham em público, mas somente entre nós, e muito em segredo, alegando que as Escrituras
do Novo Testamento haviam sido falsificadas por não sei quem, com o intuito de mesclar a lei dos
judeus com a fé cristã; por isso eles próprios não podiam mostrar nenhum exemplar sem ser
apócrifo.
Mas o que principalmente me mantinha cativo, e como que sufocado, eram as tais
“substâncias”, que pareciam oprimir-me, e debaixo de cujo peso, arquejante, me era impossível
respirar a atmosfera pura e simples de tua verdade.
CAPÍTULO XII
Os estudantes de Roma
Com toda diligência comecei a pôr em prática a tarefa que me levara a Roma, ensinar a
arte retórica, e comecei por reunir alguns estudantes em casa, para me tornar conhecido deles, e,
por seu intermédio, dos demais.
Mas logo vim a saber, com surpresa, que os estudantes de Roma praticavam outras
artimanhas, que eu não havia experimentado na África. Se bem era verdade, como me haviam
assegurado, que em Roma não ocorriam as mesmas violências dos jovens corrompidos de
Cartago, também me afirmavam que aqui os estudantes, aos grupelhos, deixavam de repente de
assistir às aulas, passando para outro professor, com o fim de não pagar o devido salário, faltando
assim aos compromissos e desprezando a justiça por amor ao dinheiro.
Também a estes odiava meu coração, porém, não com rancor perfeito, porque na
realidade, mas os aborrecia pelo prejuízo que me podiam causar do que pela simples injustiça de
seu comportamento. Sem dúvida são infames os que assim agem, e se maculam longe de ti,
amando passatempos efêmero e a recompensa de lodo, que imundece as mãos ao ser colhida,
agarrando-se a um mundo fugaz, e desprezando a ti, que permaneces eternamente, a ti que
chamas e perdoas à alma humana adúltera quando se volta para ti. Ainda agora aborrece-me
gente tão depravada e sem modos, embora agora deseje que se corrijam, para que prefiram ao
dinheiro a ciência que aprendem, e à essa ciência prefiram a ti, Deus, verdade e abundância de
verdadeiro bem e paz castíssima. Mas naquele tempo – confesso – preferia que não fossem maus
para meu interesse do que bons por teu amor.

CAPÍTULO XIII
Viagem a Milão, Santo Ambrósio
Por isso, quando da cidade de Milão escreveram ao prefeito de Roma pedindo para lá um
professor de retórica, com viagem paga pelo Estado, eu mesmo solicitei esse emprego por
intermédio dos mesmos amigos, ébrios com as vaidades dos maniqueus, dos quais ia-me separar.
Tanto eles como eu, porém, o ignorávamos. Símaco, então prefeito da cidade, propôs-me o tema
de um discurso, e sendo eu aprovado, mandou-me para Milão.
Chegado a Milão, visitei o bispo Ambrosio, famoso na terra por suas qualidades, piedoso
servo teu, cuja eloqüência distribuía zelosamente entre teu povo a flor de teu trigo, a alegria do
azeite e a sóbria embriaguez de teu vinho. A ele era eu conduzido por ti sem o saber, a fim de que
ele me conduzisse a ti conscientemente.
Esse homem de Deus recebeu-me paternalmente, e se interessou muito por minha
viagem, como bispo. Comecei a amá-lo; a princípio, não como mestre da verdade, que eu
desesperava de achar em tua Igreja, mas pela sua amabilidade para comigo. Ouvia-o
atentamente quando pregava ao povo, não com espírito adequado, mas como se quisesse sondar
sua eloqüência, para ver se correspondia à sua fama, ou se era maior ou menor que a que se
dizia; ficava suspenso das suas palavras, mas indiferente ao conteúdo, coisa que eu até
desprezava. Deleitava-me com a suavidade dos sermões, os quais, embora mais eruditos que os
de Fausto, eram contudo, menos alegres e envolventes no estilo. Quanto à substância de tais
sermões não havia comparação, pois Fausto se perdia por entre as fábulas dos maniqueus, e
Ambrosio ensinava claramente a mais sã doutrina da salvação. Mas a salvação anda longe dos
pecadores, tal como eu era então. Todavia, insensivelmente e sem o saber, ia-me aproximando
dela.
CAPÍTULO XIV
Catecúmeno
Não cuidava eu de aprender o que dizia, interessado apenas em como o dizia – era este
gosto frívolo o único que ainda permanecia em mim, perdidas já as esperanças de que se abrisse
para o homem o caminho para ti. Todavia, infiltravam-se em meu espírito, juntamente com as
palavras que me agradavam, as coisas que desprezava. Já não me era possível discernir umas
das outras, e assim, ao abrir meu coração à sua eloqüência, nele entrava ao mesmo tempo e aos
poucos, a verdade.
Parece-me, de bom início, que seus ensinamentos podiam ser defendidos e que as
afirmações de fé católica – que eu julgava impotente contra os ataques dos maniqueus – não
eram absolutamente temerárias, principalmente depois de me serem explicados uma, duas ou
mais vezes, as passagens obscuras do Velho Testamento que, interpretadas no sentido literal, me
davam a morte. Assim, interpretados no sentido espiritual muitos dos textos daqueles livros,
comecei a repreender aquele meu desespero, que me levava a crer na impossibilidade de resistir
aos que aborreciam e zombavam da lei e dos profetas.
Contudo, não me julgava na obrigação de segui o caminho dos católicos, só porque
também esta fé podia ter defensores doutos, capazes de refutar objeções com eloqüência e
lógica. Nem por isso me parecia que devia condenar a fé que antes abraçara, pois as armas de
defesa eram iguais. Assim, de um lado a fé católica não me parecia vencida, contudo ainda não
me parecia vencedora.
Apliquei então todas as forças de meu espírito para ver se podia de algum modo, com
argumentos decisivos, convencer de falsidade os maniqueus. A verdade é que se eu então tivesse
podido conceber uma substância espiritual, imediatamente todas as invenções daqueles se
esvaeceriam e seriam arrancadas de minha alma. Mas não podia.
Contudo, refletindo e comparando sempre mais o que os filósofos haviam teorizado acerca
do mundo material e de toda a natureza sensível, cada vez mais me capacitava de que eram
muito mais prováveis as doutrinas destes que as dos maniqueus. Por isso, duvidando de tudo e
flutuando por entre as doutrinas, à maneira dos acadêmicos, como os julga a opinião geral, resolvi
abandonar os maniqueus, julgando que enquanto tivesse em dúvida não devia permanecer em
uma seita à qual eu já antepunha alguns filósofos. Recusava-me, contudo, terminantemente, a
confiar-lhes a cura das enfermidades de minha alma, por ser-lhes desconhecido o nome salutar
de Cristo.
Por isso tudo, resolvi tornar-me catecúmeno na Igreja Católica, que me havia sido
recomendada por meus pais, até que alguma claridade certa viesse dirigir meus passos.
LIVRO SEXTO
CAPÍTULO I

Esperanças
Ó minha esperança desde a minha juventude! Onde estavas, ou a que lugar te havias
retirado? Acaso não foste tu quem me criou, diferenciando-me dos animais, fazendo-me mais
sábio que as aves do céu? Mas eu caminhava por trevas e resvaladouros, e te buscava fora de
mim, e não encontrava o Deus de meu coração; caí nas profundezas do mar. Eu perdera a
confiança e desesperava de encontrar a verdade.
Minha mãe já viera a meu encontro, forte em sua piedade, seguindo-me por mar e por
terra, confiando em ti em todos os perigos. Até na travessia do mar proceloso ela encorajava os
marinheiros – os que costumam animar os navegadores inexperientes quando se perturbam –
garantia-lhes que chegariam a salvo ao fim da viagem, porque assim lho tínheis prometido em
visão.
Encontrou-me em grave perigo, já sem esperança de buscar a verdade. Contudo, quando
lhe disse que já não era maniqueísta, sem ser ainda católico, não pulou de alegria, como quem
ouve algo inesperado, pois já estava segura sobre aquele ponto de minha miséria, que a fazia
chorar por mim como por um morto que haveria de ressuscitar. Oferecia-me continuamente a ti
em pensamento, como sobre um esquife, para que dissesses ao filho da viúva: Jovem, eu te digo:
levanta-te, e seu filho revivesse, e voltasse a falar, e o entregasses à sua mãe.
Nem se abalou seu coração com alegria exagerada ao ouvir quanto já se havia cumprido
daquilo que com tantas lágrimas te suplicava todos os dias. Viu-me, senão na posse da verdade,
já afastado do erro. E como estava certa de que me concederias o que faltava – pois lhe havias
prometido a graça total – respondeu-me, com muita calma e com o coração cheio de confiança,
que esperava em Cristo que, antes de sair desta vida, me havia de ver católico fiel.
Foi o que me disse. Mas diante de ti, ó fonte das misericórdias, redobrava as súplicas e
lágrimas, para que apressasses teu auxílio e aclarasses minhas trevas. Ia com maior solicitude à
igreja para ficar suspensa dos lábios de Ambrosio, como da fonte de água viva que jorra para a
vida eterna. Minha mãe amava este varão como a um anjo de Deus, pois sabia que fora ele quem
me fizera mergulhar naquela dúvida, pela qual antevia, segura, que eu haveria de passar da
enfermidade pela saúde, depois de um perigo mais grave, que os médicos chamam de crítico.
CAPÍTULO II
Obediência de Mônica
Assim, um dia, como costumava na África, levou papas, pão e vinho puro à sepultura dos
mártires, mas o porteiro não quis permitir suas ofertas. Quando soube que essa proibição vinha do
bispo, resignou-se tão piedosamente e obedientemente, que eu mesmo me admirei de quão
facilmente passasse a condenar o hábito, e não a criticar a proibição de Ambrósio.
É que seu espírito não era dominado pela embriaguez, nem o amor do vinho a incitava ao
ódio da verdade, como acontece a muitos homens e mulheres, que ao ouvir o cântico da
sobriedade, sentem a mesma repulsa que os ébrios diante de um copo d’água. Mas ela, ao trazer
as cestas com as oferendas usuais para serem provadas e repartidas, não bebia mais que um
pequeno copo de vinho, temperado segundo seu paladar bastante sóbrio e condizente com sua
dignidade. E se eram muitos os sepulcros que devia honrar desse modo, levava sempre o mesmo
copo, usando-o para todos, de modo que o vinho não só estava muito aguado, mas até quente.
Dividia-o em pequenos tragos com as pessoas presente, porque buscava a piedade, e não o
prazer.
Tão logo porém soube que o ilustre pregador e mestre a verdade proibira tal costume –
mesmo para os que o praticavam sobriamente, para não dar aos ébrios azo de se embriagarem, e
porque essa espécie de parentales (festas pagãs que se celebravam de 13 a 21 de fevereiro
consagradas especialmente aos deuses lares) era muito semelhante à superstição dos pagãos –
ela se absteve de muito boa vontade. No lugar da cesta cheia de frutos da terra, aprendeu a levar
ao túmulo dos mártires um coração cheio de puros desejos, dando o que podia aos pobres.
Celebrava assim a comunhão com o corpo do Senhor, cuja paixão serviu de modelo aos mártires
em seu sacrifício e coroação.
Mas, parece-me, meu Senhor e meu Deus – e assim o crê meu coração em tua presença –
que minha mãe não teria abdicado tão facilmente desse costume – que todavia era necessário
cortar – se outro a quem não amasse tanto como a Ambrosio o tivesse proibido. De fato, ela o
estimava muito por ter-me salvado, e ele a tinha em grande estima pela religiosidade e solicitude
com que freqüentava a igreja, na prática das boas obras. Por isso, muitas vezes quando me
encontrava com ele, irrompia em louvores à minha mãe, e me felicitava por ser seu filho. Ignorava
o filho que ela tinha em mim, filho que duvidava de tudo, e julgava impossível achar o caminho da
vida.
CAPÍTULO III
Primeiras conquistas
Na oração, eu ainda não implorava o teu socorro, mas meu espírito achava-se ocupado em
investigar e inquieto por discutir. Considerava ao próprio Ambrósio como homem feliz aos olhos
do mundo, vendo-o tão honrado pelas mais altas autoridades. Somente seu celibato me parecia
difícil. Mas eu não podia aquilatar, por nunca as ter experimentado, as esperanças que o
animavam, nem a luta que tinha de travar contra as tentações de sua alta posição; nem conhecia
os consolos na adversidade, nem os saborosos deleites do interior do seu coração quando
ruminava teu alimento. Ele, por sua vez, desconhecia minha inquietação e o abismo em que
estava para cair, porque não lhe podia perguntar, como desejava, o que queria. Uma multidão de
homens de negócios, a quem ele acudia nas dificuldades, impediam-me de o ouvir ou de lhe falar.
No bem pouco tempo que lhe deixavam livre, dedicava-se a reparar as forças do corpo
com o alimento necessário, ou as do espírito, com a leitura. Quando lia, seus olhos percorriam as
páginas e seu espírito penetrava-lhes o sentido, mas sua voz e sua língua repousavam.
Muitas vezes, estando eu presente – pois ninguém estava proibido de entrar, nem era
costume anunciar quem se apresentava – vi-o ler em silêncio, e nunca de outra maneira. E ali
ficava eu por muito tempo calado – pois, quem se atreveria molestar um homem tão atento? – e
por fim me afastava. Conjeturava eu que nos curtos momentos que encontrava para repousar o
espírito, livre do tumulto dos negócios alheios, não queria que o ocupassem com outra coisa. Lia
em silêncio (era comum naqueles tempos ler em voz alta, tanto pela dificuldade dos textos como
pela escassez dos livros, muitas vezes lidos em comum), talvez para evitar que algum ouvinte,
suspenso e atento à leitura, encontrando alguma passagem obscura, pedisse explicações, ou o
obrigasse a dissertar sobre questões difíceis. Gastaria o tempo em tais coisas, e impedido de ler
todos os livros que desejava, embora fosse mais provável que lesse em silêncio para poupar a
voz, que facilmente lhe enrouquecia.
Em todo caso, qualquer que fosse sua intenção, só poderia ser boa em um homem como
ele.
O certo é que não se apresentava nenhum ensejo para interrogar a teu santo-oráculo que
habitava em seu coração sobre o que desejava, exceto quando lhe ouvia uma breve resposta, e
minhas inquietudes pediam muito tempo e vagar para consultá-lo, o que nunca encontrava. Ouviao,
é certo, explicar perfeitamente ao povo a palavra da verdade todos os domingos, persuadindome
sempre mais de que podiam ser desatados todos os nós das calúnias sagazes que aqueles
que me enganavam teciam contra os livros sagrados.
Logo verifiquei que vossos filhos espirituais, a quem regeneraste no sei da santo mãe, a
Igreja, não interpretavam aquelas palavras: “Fizeste o homem à sua imagem” – de modo a
acreditar que estavas encerrado na forma do corpo humano. E embora eu então não soubesse,
nem sequer suspeitasse de longe o que fosse substância espiritual – alegrei-me com isso,
envergonhando-me por ter ladrado durante tantos anos, não contra a fé católica, mas contra
invenções de minha inteligência carnal. Tinha sido ímpio e temerário por criticar uma doutrina que
eu deveria ter antes procurado conhecer. Mas tu – que estás ao mesmo tempo tão alto e tão perto
de nós, tão escondido e tão presente, tu que não tens membros maiores nem menores, que estás
inteiro em toda parte sem estar todo em nenhum lugar, certamente não tens nossa forma
corpórea. Contudo, fizeste o homem à tua imagem, e eis que ele, da cabeça aos pés, é limitado
pelo espaço.
CAPÍTULO IV
O espírito da letra
Não compreendendo como poderia se espelhar esta tua imagem ao homem, eu deveria
bater à porta, perguntando-te de que modo deveria entender essa crença, em lugar de me opor
insolentemente, como se ela fosse o que eu imaginava. E assim, tanto mais fortemente me roia o
coração o desejo de ter alguma certeza, quanto mais me envergonhava de ter sido o joguete dos
que me haviam prometido a certeza, e por ter defendido com pueril empenho e animosidade
tantas coisas duvidosas como sendo verdadeiras.
Depois vi a razão por que eram falsas. Mas já estava então certo de que elas eram
duvidosas, embora as tivesse julgado irrefutáveis por algum tempo, quando, com minhas cegas
discussões, combatia tua Igreja Católica. Embora então não a reconhecesse como mestra da
verdade, pelo menos sabia que não ensinava aquilo de que eu a acusava.
Daí minha confusão, e a conversão que se operava em meu pensamento, ó meu Deus,
vendo que tua Igreja única, corpo de teu Filho único, na qual, ainda menino me ensinaram o nome
de Cisto, não gostava de bagatelas infantis. Regozijava-me que em sua doutrina sadia nada havia
que te representasse, a ti, Criador de todas as coisas, circunscrito numa forma e num espaço que,
embora amplo, seria contudo limitado.
Também me alegrava de que as Antigas Escrituras da lei e os profetas já não me fossem
propostas na interpretação anterior, em que me pareciam absurdas, quando eu acusava teus
santos de pensamentos que nunca haviam tido. Alegrava-me ouvir a Ambrósio dizer muitas vezes
em seus sermões ao povo, recomendando com muito zelo a verdade: a letra mata e o espírito
vivifica. E, levantando o véu místico, revelava-me o significado espiritual de passagens que,
segundo a letra, pareciam ensinar um erro. Nada dizia que me chocasse, embora eu ainda
ignorasse se ele dizia a verdade.
Abstinha-se meu coração de aderir a qualquer doutrina, temendo cair em um precipício;
mas esta suspensão matava-me muito mais, porque queria estar tão certo das coisas que não via
como o estava de que sete e três são dez. Eu não estava tão louco para pensar que a inteligência
alcançaria tal evidência. Mas, assim como entendia isso, queria entender igualmente as outras
verdades, quer fossem materiais, que não tinha presentes a meus sentidos, quer espirituais, nas
quais não sabia pensar senão de modo material.
É verdade que poderia sarar pela crença, e assim, purificado pela fé o olhar de meu
espírito, pudesse dirigir-se de algum modo à tua verdade, sempre imutável e indefectível. Mas,
como sói acontecer a quem caiu nas mãos de um médico ruim, e que depois receia as mãos de
um bom, assim me sucedia quanto à saúde de minha alma que, não podendo sarar senão pela fé,
recusava-se a sarar por temor de crer, novamente, em falsidades. Minha alma resistia às tuas
mãos, ó meu Deus, que preparaste o remédio da fé, e o derramaste sobre as enfermidades da
terra, dando-lhe tanta autoridade e eficácia.
CAPÍTULO V
Os mistérios da Bíblia
Desde esse tempo, recaía minha preferência na doutrina católica, porque ajuizava que
nela houvesse mais modéstia, e não mentira, ao impor a crença no que não era demonstrado –
quer porque, mesmo havendo provas, estas não fossem acessíveis a todos, quer porque não
existissem. Diferente do que ocorria entre os maniqueus, que desprezavam a fé, e prometiam,
com temerária arrogância, a ciência, para depois nos obrigarem a acreditar em uma infinidade de
fábulas completamente absurdas, impossíveis de demonstrar.
Depois, com suavidade e misericórdia, começaste, Senhor, a cuidar e à preparar aos
poucos o meu coração, e foi aceitando tudo o que eu acreditava sem o ter visto, e a cuja
realização não presenciara. Tantos fatos da história dos povos, tantas notícias sobre lugares e
cidades que não vira, tudo o que aceitava acreditando em amigos, em médicos e em outras
pessoas que, se não as acreditássemos, não poderíamos dar um passo na vida. E, sobretudo,
que fé inabalável eu tinha em ser filho de meus pais, coisa que não poderia saber sem prestar fé
no que ouvia. Então me convenceste de que os dignos de censura não são os que acreditam em
teus livros, cuja autoridade estabeleceste entre quase todos os povos, mas o que não crêem
neles. E eu não devia dar ouvidos ao que talvez me dissessem: “Como sabes que esses livros
foram dados aos homens pelo Espírito de Deus, único e verdadeiro?” Ora, era precisamente isto o
que eu devia crer, porque nenhuma objeção caluniosa ou agressiva, das que eu havia lido nos
escritos contraditórios dos filósofos, nunca conseguiram arrancar-me a certeza de tua existência,
embora ignorasse o que eras, e a certeza de que o governo das coisas humanas está em tuas
mãos.
Eu acreditava nisso, ora mais fortemente, ora mais frouxamente; mas em tua existência e
que cuidava do gênero humano, sempre acreditei, embora ignorasse a natureza, ou qual o
caminho que nos conduz ou reconduz a ti. Por isso, persuadido de nossa impotência para achar a
verdade só por meio da razão, e que para isso nos é necessária a autoridade das Sagradas
Escrituras, comecei a crer que nunca terias conferido tão soberana autoridade a essas Escrituras
em todo o mundo, se não quiséssemos que crêssemos e te buscássemos por elas.
Sobre os mistérios em que costumava tropeçar, e que ouvira explicar muitas vezes de
modo aceitável, eu os atribuía à sua profundidade, parecendo-me a autoridade das Escrituras
tanto mais venerável e digna da fé sacrossanta, quando de leitura fácil para todos. E ela reserva
porém, a uma percepção mais aguda a majestade de seu mistério. Pela clareza da linguagem e
sua simplicidade do estilo, ela se abre a todos e, no entanto, estimula a reflexão dos que não são
levianos de coração. Recebe a todos em seu vasto seio, mas não deixa ir a ti, por caminhos
estreitos, senão um pequeno número; muito mais, porém, do que seriam se ela não tivesse essa
elevada autoridade, e não atraísse as turbas do regaço de sua santa humildade.
Pensava eu nessas coisas, e me assistias; suspirava, e me ouvias, vacilava, e me
governavas; seguia pela via larga do mundo, e não me abandonavas.
CAPÍTULO VI
Alegria de bêbado
Eu aspirava às honras, às riquezas e ao matrimonio, e tu te rias de mim. E nesses desejos
sofria grandes amarguras; e tu me eras tanto mais propício quanto menos consentias que me
fosse doçura o que não eras tu. Vê, Senhor, meu coração, tu que quiseste que recordasse estes
fatos e os confessasse. Esta alma, a quem livraste do visco tenaz da morte, une-se agora a ti.
Como era infeliz! E tu fustigavas o mais dolorido da ferida, para que deixasse tudo, e se
convertesse a ti, que estás acima de tudo. Sem ti nada existiria. Ferias minha alma para que
voltasse para ti, e fosse curada.
Que miserável era eu então! E como agiste para que eu sentisse minha desgraça? Era o
dia em que me preparava para declamar os louvores do imperador; neles ia mentir muito e,
mentindo granjearia a aprovação dos que sabiam das mentiras. Preocupado, meu coração se
consumia com a febre de pensamentos impuros quando, ao passar por uma rua de Milão, vi um
mendigo já bêbado, creio eu, mas bem humorado e divertido. Suspirei então, e falei aos amigos
que me acompanhavam sobre as muitas dores que nos provocavam nossas loucuras. Com todos
os esforços, quais eram os que então me afligiam, apenas arrastava a carga de minha infelicidade
cada vez mais pesada, aguilhoado por meus apetites, para conseguir somente uma alegria
tranqüila, na qual já nos havia precedido aquele mendigo; alegria que nunca talvez
alcançássemos. O que ele havia conseguido com umas poucas moedas de esmola, era
exatamente o que eu aspirava com tão árduos caminhos e rodeios: a alegria de uma felicidade
temporal.
A alegria do mendigo não era certamente verdadeira, mas a que eu buscava com minhas
ambições era ainda mais falsa. Ele, pelo menos, estava alegre, e eu, angustiado; ele seguro, e eu
inquieto. Se alguém me perguntasse se preferia estar alegre ou triste eu responderia: alegre; mas
se me perguntassem novamente se queria ser como aquele mendigo ou ser como eu era, sem
dúvida escolheria a mim mesmo, embora cheio de cuidados e de temores. Mas isto eu faria por
maldade ou com razão? Eu não devia preferir-me ao mendigo por ser mais culto, pois a ciência
para mim não era fonte de felicidade, mas apenas um meio de agradar aos homens, e não instruí-
los. Por isso, Senhor, quebravas meus ossos com a vara de tua disciplina.
Longe de minha alma os que dizem: “Importa levar em conta a causa da alegria; o
mendigo se alegrava com a embriaguez, e tu com a glória”. Que glória, Senhor? Com a que não
está em ti. Porque como aquela não era verdadeira alegria, assim aquela glória não era a
verdadeira, antes perturbava mais ainda meu coração. O ébrio, naquela mesma noite, curaria sua
embriaguez, enquanto eu já dormia com a minha, e me levantara com ela, e tornaria a dormir e a
levantar com ela, e tu sabes quantos dias!
Importa, é certo, conhecer os motivos da alegria de cada um, eu o sei, e a alegria da
esperança fiel dista infinitamente daquela vaidade. Mas então, havia entre nós outra diferença,
pois certamente ele era o mais feliz, não só porque transbordava de alegria, enquanto eu me
consumia de cuidados, mas também porque ele comprara o vinho desejando a felicidade dos
benfeitores, enquanto eu procurava com mentiras uma vã ostentação.
Muitas coisas disse então sobre isso a meus amigos, e muitas vezes eu costumava
examinar minha vida, e achava-me infeliz. Isso me afligia e redobrava minha dor; se me sorria
alguma ventura, não acudia para apanhá-la, porque escapava-me das mãos antes mesmo que a
pudesse alcançar.
CAPÍTULO VII
Alípio
Os que convivíamos em boa amizade lamentávamos estas coisas, mas de modo especial
e muito intimamente eu falava com Alípio e Nebrídio. Alípio, como eu, era do município de
Tagaste, nascido de uma das melhores famílias da cidade. Era mais jovem do que eu, pois havia
sido meu discípulo quando comecei a ensinar em nossa cidade, de depois em Cartago. Ele me
queria muito, por eu lhe parecer bom e douto, e eu o apreciava por sua grande inclinação à
virtude, que já se manifestava em tenra idade.
Contudo, o abismo dos costumes cartagineses, onde ferve o gosto dos espetáculos
frívolos, engolfara-o na loucura dos jogos circenses. Alípio revolvia-se miseravelmente nesse
abismo na época em que eu ensinava retórica na escola pública, mas ele não me tinha como
mestre por causa de uma desavença que surgira entre mim e seu pai. Eu sabia que Alípio amava
morbidamente o circo, e isso muito me angustiava, por me parecer que se iam se perder, se já
não estivessem, magníficas esperanças. Mas não achava meios de alertá-lo e repreendê-lo, nem
pela amizade, nem pelo magistério, pois julgava que tinha sobre mim a mesma opinião que seu
pai. Mas não era assim. Pondo de parte a vontade paterna sobre isso, começou a me
cumprimentar, comparecia à minha aula, ouvia-me um pouco, e logo se retirava.
Eu já me esquecera de alertá-lo para não desperdiçar seu talento tão precioso com aquele
cego e apaixonado gosto por jogos fúteis. Mas tu, Senhor, que governas o que criaste, não te
esqueceste de que Alípio deveria ser ministro de teus sacramentos entre teus filhos; e para que
fosse atribuída claramente a ti a sua emenda, a realizaste por meu intermédio, mas sem que eu o
soubesse.
Um dia, estando sentado ao lugar de costume, diante de meus discípulos, veio Alípio,
saudou-me, sentou-se, atento ao assunto de que eu tratava. Por acaso trazia eu nas mãos uma
lição; para melhor expô-la, e tornar mais clara e agradável sua explicação, pareceu-me oportuno
fazer uma comparação com os jogos circenses, com mordaz sarcasmo aos escravos dessa
loucura. Mas tu sabes, Senhor, que então não pensei em curar Alípio dessa peste. Todavia tomou
para si minhas palavras, acreditando que eu só dissera por sua causa. Qualquer outro tomaria
isso com desgosto; mas ele, jovem virtuoso, tomou-o como causa para censurar a si próprio, e
para me estimar ainda mais.
Já havias dito outrora, e escrito em teus livros: “Corrige o sábio, e ele te amará”. Eu não o
repreenderia, mas tu, servindo-te de todos, quer eles o saibam ou quer não, de acordo com a
justa ordem que conheces, fizeste de meu coração e de minha língua carvões abrasadores, para
cauterizar e curar aquela alma tão promissora, mas pervertida.
Senhor, cale teus louvores quem não percebe tuas misericórdias, que eu te confesso do
mais íntimo de meu ser. Depois de ouvidas minhas palavras, Alípio saiu daquele fosso profundo,
onde gostosamente se enterrara, cegando-se com o torpe prazer, e sacudiu sua alma com
corajosa temperança, afastando de si todas as imundícies dos jogos circenses, para onde nunca
mais voltou.
Depois venceu a resistência paterna para me escolher como mestre, e seu pai cedeu e
consentiu. Voltando a ser meu discípulo, foi envolvido comigo na superstição dos maniqueus,
apreciando neles aquela ostentação de continência, que ele julgava legítima e sincera. Na
verdade, porém, era um desvario sedutor, um laço onde caíam almas preciosas, ainda incapazes
de avaliar a sublimidade da virtude e, por isso mesmo, vítimas fáceis da aparência que mascara
uma virtude hipócrita e fingida.
CAPÍTULO VIII
A atração do anfiteatro
Não querendo por nada deixar a carreira mundana, tão decantada por seus pais, partira
antes de mim para Roma, a fim de estudar Direito; lá se deixou arrebatar de modo incrível, e com
incrível avidez, pelos espetáculos de gladiadores.
A princípio, detestava e aborrecia espetáculos semelhantes. Certa vez, encontrando-se
com alguns amigos e condiscípulos que voltavam de um jantar, apesar de resistir, foi arrastado
por eles com amigável violência para o anfiteatro, onde naquele dia se celebravam jogos funestos
e cruéis.
Dizia-lhes Alípio: “Mesmo que arrasteis para lá meu corpo, e o retenhais ali, podereis por
acaso obrigar minha alma e meus olhos a contemplar tais espetáculos? Estarei ali como ausente,
e assim triunfarei deles e de vós”. Mas eles, não fazendo caso de tais palavras, levaram-no, talvez
para verificar se poderia ou não cumprir a palavra.
Quando chegaram, ocuparam os lugares que puderam, pois todo o anfiteatro já fervia nas
paixões mais selvagens. Alípio, fechando a porta dos olhos, proibiu que sua alma se envolvesse
em tal crueldade. E oxalá também tivesse tapado os ouvidos! Porque, em um lance da luta, foi tão
grande o clamor da multidão que, vencido pela curiosidade, e julgando-se preparado para
desprezar e vencer a cena, fosse o que fosse, abriu os olhos. Foi logo ferido na alma mais
profundamente do que a ferida física do gladiador a quem desejou contemplar e caiu. Sua queda
foi mais miserável que a do gladiador, causa de tantos gritos. Estes, entrando-lhe pelos ouvidos,
abriram-lhe os olhos, para ferir e abater sua alma, mais temerária do que forte, e tanto mais fraca
por apoiar-se em si mesma, em lugar de se apoiar em ti. Logo que viu sangue, bebeu junto a
crueldade, e não se afastou do espetáculo; pelo contrário, prestou mais atenção. Assim, sem o
saber, absorvia o furor popular e se deleitava naquela luta criminosa, inebriado de sangrento
prazer.
Já não era o mesmo que ali viera, era agora mais um da turba à qual se misturara, digno
companheiro daqueles que para ali o arrastaram.
Que mais direi? Contemplou o espetáculo, gritou, apaixonou-se, e foi contaminado de
louco ardor, que o estimulava a voltar, não só com os que o haviam levado, mas à sua frente, e
arrastando a outros. Mas tu te dignaste, Senhor, livrá-lo deste estado com mão forte e
misericordiosa, ensinando-o a não confiar em si, mas em ti, embora isto acontecesse muito tempo
depois.
CAPÍTULO IX
Alípio, ladrão a contragosto
Contudo, essa aventura gravara-se em sua memória como remédio para o futuro. o
mesmo ocorreu com outro fato, quando ainda era estudante em Cartago, e seguia meus cursos.
Era meio-dia. Alípio estava repassando uma declamação, segundo o costume dos estudantes,
quando foi preso como ladrão pelos guardas do foro. Sem dúvida o permitiste, meu Deus, apenas
para que esse jovem, tão grande no futuro, começasse já a aprender que, ao julgar outrem,
ninguém deve condenar ninguém levianamente, e com temerária credulidade.
Alípio, pois, passeava diante do tribunal, sozinho, com as tábuas e o estilete, quando um
jovem estudante, o verdadeiro ladrão, levando escondido um machado, sem que Alípio o
percebesse, entrou pelas grades que rodeiam a rua dos banqueiros, e se pôs a cortar o seu
chumbo.
Ao ruído dos golpes, os banqueiros que estavam embaixo alvoroçaram-se, e chamaram
gente para prender o ladrão, fosse quem fosse. Mas este, ouvindo o vozerio, fugiu depressa,
abandonando o machado para não ser preso com ele. Ora, Alípio, que não o vira entrar, viu-o sair
e fugir precipitadamente. Curioso, porém, para saber a causa, entrou no lugar. Encontrou o
machado e se pôs, admirado, a examiná-lo. Bem nessa hora chegaram os guardas dos
banqueiros, e o surpreendem sozinho, empunhando o machado, a cujos golpes, alarmados,
haviam acudido. Prendem-no, levam-no, e gloriam-se, diante dos inquilinos do foro por ter
apanhado o ladrão em flagrante, e já o iam entregar aos rigores da justiça.
Mas a lição devia ficar por aqui, Senhor, porque imediatamente saíste em socorro de sua
inocência, da qual eras única testemunha. Quando o conduziam à prisão ou ao suplício, veio-lhes
ao encontro um arquiteto, encarregado superior da direção dos edifícios públicos. Os guardas
alegraram-se com esse encontro, pois sempre que faltava alguma coisa no foro o magistrado
suspeitava deles. Agora ele saberia quem era o verdadeiro ladrão. Mas este senhor tinha visto
várias vezes Alípio na casa de um senador, a quem visitava com freqüência. Reconheceu-o,
tomou-o pela mão, separou-o da turba, e perguntou-lhe a causa de tamanha desgraça.
Informado do que se passara, o arquiteto mandou à turba alvoroçada e enfurecida contra
Alípio que o seguisse. Quando chegaram à casa do jovem autor do roubo, achava-se à porta um
menino escravo, novo demais para recear comprometer seu amo, e que poderia revelar tudo,
porque o seguira até o foro. Alípio, ao reconhecê-lo, apontou-o ao arquiteto; este, mostrando-lhe o
machado, lhe disse: “Sabe de quem é este machado?” Ao que o menino respondeu sem demora:
“Nosso”. Depois de interrogado, confessou o resto.
Deste modo, o processo foi transferido para aquela casa, para confusão da turba, que já
imaginara tripudiar de Alípio. O futuro dispensador de tua palavra, e juiz de tantas causas de tua
Igreja, saiu dessa aventura com mais experiência e sabedoria.
CAPÍTULO X
Os três amigos
Encontrei Alípio em Roma, onde se uniu a mim com vínculo de amizade tão estreito, que
foi comigo para Milão, tanto para evitar nosso afastamento como para exercer o Direito, embora
mais para agradar aos pais do que por vontade própria. Já por três vezes fora assessor, sempre
com admirável lisura, e ficando ele mais admirado ainda de que juizes preferissem o dinheiro à
inocência.
Ficou provada a integridade do seu caráter, não só contra os atrativos da cobiça, mas
também contra o aguilhão do medo. Em Roma, era assessor do tesoureiro das finanças da Itália.
Havia nesse tempo um senador poderosíssimo, a quem estavam sujeitos muitos clientes, uns por
benefícios, outros por terror. Segundo o costume dos poderosos, este senador tentou fazer não
sei que coisa era proibida pelas leis, e Alípio se lhe opôs. À tentativa de corrompê-lo, Alípio
reconheceu com o riso. Zombou das ameaças que aquele lhe dirigiu, causando admiração geral
pela rara qualidade de sua alma, que não desejava a amizade e nem temia a inimizade de homem
tão poderoso, conhecido por seus inúmeros meios de prestar favores ou de prejudicar. Até o
próprio juiz, de que Alípio era assessor, embora se opusesse também, não o fazia abertamente,
responsabilizando a Alípio que, dizia ele, não lhe permitia fazer o que desejava, porque, se
acedesse – e era verdade – demitir-se-ia imediatamente.
Alípio quase se deixara seduzir pelo amor às letras, mandando copiar códigos segundo a
tarifa paga aos trabalhos para o Estado; porém, consultando a justiça, inclinou-se pelo melhor,
preferindo a integridade, que lhe proibia esta ação, ao poder que lha permitia.
Isso é fato pequeno, mas o que é fiel no pouco também o é no muito, e de modo nenhum
podem ser vãs aquelas palavras saídas da boca de tua Verdade. Se não fordes fiéis nas riquezas
injustas, quem vos confiará as verdadeiras? E se nas alheias não fordes fiéis, quem vos dará o
que é vosso?
Assim era então este amigo, tão intimamente unido a mim, e que comigo buscava o tipo de
vida que deveríamos seguir.
Também Nebrídio deixou sua pátria, vizinha de Cartago, e a própria Cartago, onde gozava
de boa fama. Abandonou as magníficas propriedades do pai, a casa e até a própria mãe, que não
o quis seguir; veio para Milão apenas para viver comigo, na busca apaixonada da verdade e da
sabedoria.
Assim como eu, ele suspirava, partilhando minha perplexidade, mostrando-se investigador
ardoroso da vida feliz e indagador acérrimo das questões mais difíceis.
Eram três bocas famintas que comunicavam mutuamente a própria fome, esperando que
lhes desses comida no tempo oportuno. Na amargura, que graças à tua misericórdia sempre
seguia nossas ações mundanas, se desejávamos entender a causa dos sofrimentos,
encontrávamos trevas. Afastávamos gemendo e dizendo: Até quando durará este sofrimento? E
isto repetíamos com freqüência, mas não abandonávamos nosso modo de vida, porque não
víamos nenhuma certeza a que nos pudéssemos abraçar, se o abandonássemos.
CAPÍTULO XI
Entre Deus e o mundo
Era com admiração que me recordava diligentemente do longo tempo decorrido desde
meus dezenove anos, quando comecei a arder no desejo da sabedoria, propondo-me, quando a
achasse, abandonar todas as vãs esperanças e enganosas loucuras das paixões.
Chegado porém aos trinta anos, ainda continuava preso ao mesmo lodaçal, ávido de gozar
dos bens presentes, que me fugiam e me dissipavam. Entretanto, dizia: “Amanhã hei de encontrá-
la; a verdade aparecerá clara, e a abraçarei. Fausto virá, e dará todas as explicações. Ó grandes
varões da Academia: é verdade que não podemos compreender nenhuma coisa com certeza para
a conduto de nossa vida?
“Mas não! Procuremos com mais diligencia, sem desesperarmos. Já não me parecem
absurdas nas Escrituras as coisas que antes me pareciam tais: posso compreendê-las de modo
diferente, mais razoável. Fixarei, pois, os pés naquele degrau em que me colocaram meus pais
quando criança, até que encontres a verdade em sua evidência.
“Mas onde e quando buscá-la? Ambrósio não tem tempo livre para me ouvir, e a mim falta
tempo para ler. E além do mais, onde encontrar os livros? E onde ou quando poderei comprá-los?
A quem hei de pedi-los?
“Repartamos o tempo, reservemos algumas horas para a salvação da alma. nasceu uma
grande esperança: a fé católica não ensina o que eu pensava, e eu a criticava levianamente. Seus
doutores têm como crime limitar Deus à figura humana; e eu ainda hesito em bater para que nos
sejam reveladas as outras verdades! As horas da manhã eu dedico aos alunos; mas que faço das
outras? Por que não as consagro a essa busca?
“Mas quando então, visitar os amigos poderosos, de cujos favores necessito? Quando
preparar as lições que os alunos me pagam? Quando reparar as forças do espírito, descansando
em algo aprazível?
“Perca-se tudo! Deixemos essas coisas vãs e fúteis. Entreguemo-nos por completo à
busca da verdade. A vida é miserável, e a hora da morte, incerta. Se esta me surpreender de
repente, em que estado sairei do mundo? E onde aprenderei o que deixei de aprender aqui? Não
serei antes castigado por essa negligência? Mas, e se a própria morte cortar e for o fim a todo
cuidado e sentimento? Também seria conveniente investigar este ponto. Mas afastemos tais
pensamentos! Não é por acaso nem é em vão que se difunde por todo o mundo a fé cristã, com
grande prestígio. Deus jamais teria criado tantas e tais coisas por nós, se com a morte do corpo
terminasse também a vida da alma. porque hesitar, pois, em abandonar as esperanças do mundo
para me consagrar à busca de Deus e da bem aventurança?
Mas espere um pouco! Os bens mundanos também têm seus deleites, que não são
pequenos. Não devo deixá-los sem pensar; seria feio ter de voltar a eles. Eis-me prestes a
conseguir um cargo de honra. Que mais posso desejar? Tenho uma multidão de amigos
poderosos. Sem me apressar muito poderia obter, no mínimo, uma presidência. Poderia então
casar-me com uma mulher de alguma fortuna, para que meus gastos não fossem muito pesados.
Aqui estariam os limites de meus desejos. Muitos homens grandes e dignos de imitação, apesar
de casados, dedicaram-se ao estudo da sabedoria.
Enquanto assim pensava, e os ventos cambiantes impeliam meu coração de um lado para
outro, o tempo passava, e eu retardava minha conversão ao Senhor. Adiava de dia para dia o
viver em ti, morrendo todavia todos os dias em mim mesmo. Amando a vida feliz, temia busca-la
em sua morada; procurava-a fugindo dela! Pensava que seria mui desgraçado se me visse
privado das carícias da mulher. Não pensava ainda no remédio de tua misericórdia, que cura esta
enfermidade, porque nunca o havia experimentado. Julgava que a continência fosse obra de
nossa própria força, que eu pensava não ter. Eu era bastante néscio para ignorar que ninguém,
como está escrito, é casto sem que tu lhes dê a força. Essa força certamente ma darias se eu
ferisse teus ouvidos com os gemidos de minha alma, e com fé firme lançasse em ti meus
cuidados.
CAPÍTULO XII
Casar ou não?
Opunha-se Alípio a que me casasse, repetindo-me que, se o fizesse, não poderíamos
dedicar-nos juntos, com segura tranqüilidade, ao amor da sabedoria, como há muito desejávamos.
Alípio, nessa matéria, era castíssimo de causar admiração, porque, ao entrar na juventude,
experimentara o prazer carnal, mas não se prendera a ele. Antes, arrependeu-se muito, e o
desprezou, vivendo depois em perfeita continência.
Eu argumentava com os exemplos dos que, embora casados, haviam-se dedicado ao
estudo da sabedoria, servindo a Deus, e guardando fidelidade e amor aos amigos. Contudo, eu
estava longe dessa grandeza de alma. Prisioneiro da morbidade da carne, arrastava com prazer
mortal minha cadeia, temendo que ela se rompesse e, rejeitando as palavras que bem me
aconselhavam, como o ferido repele a mão que lhe desfaz as ataduras.
Além do mais, a serpente falava por minha boca a Alípio, e pela língua lhe tecia doces
laços em seu caminho, para que seus pés honestos e livres se enredassem.
Ele admirava-se de que eu, a quem tanto estimava, estivesse tão preso ao visco do prazer
a ponto de afirmar, sempre que tratávamos desse assunto, que me era impossível levar vida
casta. Para esgrimir contra sua admiração, dizia-lhe que havia grande diferença entre sua rápida e
furtiva experiência do prazer, de que mal se lembrava e que, por isso, podia desprezar facilmente,
e as delícias de uma ligação verdadeira, à qual, se juntasse o honesto nome de matrimonio, já
não causaria admiração se eu não pudesse desprezar aquela vida. Com isso, Alípio também
começou a desejar o matrimonio, não certamente vencido pelo apetite do prazer, mas pela
curiosidade. Desejava saber, dizia ele, o que era aquele bem sem o qual minha vida – que ele
tanto apreciava – não me parecia vida, mas tormento. De fato, livre dessa prisão, sua alma
pasmava de tal servidão, e do espanto passava ao desejo de experimentá-la. Depois talvez caísse
naquela mesma servidão que o espantava, pois queria fazer um pacto com a morte, e o que ama
o perigo, nele cairá.
Certamente que nem ele, nem eu tínhamos grande interesse no que há de bonito e
honesto no matrimonio, como a direção da família e a educação dos filhos. Mas o que me
mantinha preso e com fortes tormentos era o hábito de saciar minha insaciável concupiscência; e
a ele, era a admiração que o arrastava para o mesmo cativeiro. Assim éramos, Senhor, até que tu,
ó Altíssimo, que não desamparas nosso lodo, compassivo, por caminhos maravilhosos e ocultos,
viestes em socorro destes infelizes.
CAPÍTULO XIII
O pedido de casamento
Instavam solicitamente comigo para que me casasse. Já havia feito o pedido, já havia
recebido uma promessa, ajudado sobretudo por minha mãe, que nutria a esperança que eu, uma
vez casado, seria regenerado nas águas salutares do batismo. Minha mãe alegrava-se por me ver
cada dia mais apto para recebê-lo, vendo que na minha fé se realizavam seus votos e tuas
promessas.
Contudo, nada revelaste à minha mãe que, a meu pedido e por seu desejo, te suplicava
com forte clamor de coração, todos os dias que lhe desse alguma visão sobre meu futuro
matrimonio. Via, sim, algumas coisas vãs e fantásticas, que o espírito humano engendra quando
preocupado. Ela me relatava, sem a confiança que costumava dar às visões que lhe enviavas,
mas com desprezo. Dizia que distinguia, por um vago discernimento que não podia explicar com
palavras, a diferença que havia entre tuas revelações e os sonhos de sua alma.
Contudo, insistia no matrimonio, e pediu-se a mão de uma jovem, à que ainda faltavam
dois anos para ser núbil (em todo o Império Romano era a idade de 12 anos), mas, como ela
agradava, era preciso esperar.
CAPÍTULO XIV
Um projeto desfeito
Éramos muitos os amigos, que aborrecíamos as mazelas da agitação da vida humana. Em
nossas conversas, havíamos debatido e quase resolvido nos retirar da multidão para viver
sossegadamente. Nosso projeto organizava a vida de tal sorte que tudo o que tivéssemos seria
comunitário, formando de todos os patrimônios um patrimônio único. Graças à nossa amizade
sincera não haveria mais a fortuna deste ou daquele, mas uma só fortuna comum.
Seriamos cerca de dez homens os que desejávamos formar essa sociedade. Alguns de
nós, muito ricos, como Romaniano, meu conterrâneo, cujos sérios cuidados de negócios o tinham
trazido à corte imperial. Era muito amigo meu desde menino, e um dos que mais instavam nesse
projeto, tendo sua opinião um grande peso pois sua riqueza era bem superior que a dos outros.
Fora combinado que todos os anos, dois de nós, como magistrados, administrariam todo o
necessário, ficando os outros em paz. Mas quando se começou a discutir se as mulheres
consentiriam nesse acordo – alguns dentre nós eram casados, e outros pensavam em casar –
todo o plano, tão bem construído, se desvaneceu entre nossas mãos, fez-se em pedaços e teve
de ser abandonado.
Novamente aos suspiros e gemidos, voltamos a caminhar pelos largos e batidos caminhos
do século, porque em nosso coração havia mil pensamentos, mas teu conselho permanece
eternamente. Na tua sabedoria te rias de nossos projetos, e preparavas o cumprimento dos teus,
a fim de dar-nos alimento no tempo oportuno, abrindo tuas mãos e enchendo-nos de bênçãos.
CAPÍTULO XV
A separação da amante
Entretanto, multiplicavam-se meus pecados. Quando arrancaram do meu lado, por ser
impedimento ao meu matrimonio, aquela com quem partilhava o leito, meu coração, ao qual ela
estava unida, ficou ferido e sangrando. Ela, por sua vez, voltando para a África, fez-te voto,
Senhor, de jamais conhecer outro homem, deixando comigo o filho natural que dela tivera.
Mas eu, desgraçado, fui incapaz de imitar aquela mulher. Estava impaciente pelo prazo de
dois anos que deveria transcorrer até receber por esposa aquela que pedira em casamento – e
porque eu não era amante do matrimonio, mas escravo da sensualidade – procurei pois outra
mulher, não como esposa, mas para alimentar e manter íntegra ou agravada a doença da minha
alma, sob a tutela do meu hábito, até que contraísse matrimonio. Mas nem por isso sarava a
chaga causada pela separação da primeira mulher; mas, depois de ardor e sofrimento
agudíssimos, começava a se corromper doendo tanto mais desesperadamente quanto mais fria se
tornava.
CAPÍTULO XVI
A aproximação de Deus
Louvor e glória a ti, ó fonte das misericórdias! Eu me tornava cada vez mais miserável, e tu
te aproximavas cada vez mais de mim. já estava junto de mim tua destra, para me arrancar do
lodo dos meus vícios, e em purificar, e eu não o sabia. Mas nada havia que me fizesse sair do
profundo abismo dos prazeres carnais, a não ser o medo da morte e de teu juízo futuro, que
jamais saiu do meu peito, através das várias doutrinas que segui.
Discutia com meus amigos Alípio e Nebrídio, sobre o bem e o mal finais; facilmente meu
juízo teria dado a palma a Epicuro, se eu não acreditasse na imortalidade da alma e do
julgamento de nossos atos, coisas em que Epicuro nunca acreditou. E eu perguntava: “Se
fossemos imortais, e vivêssemos em perpétuo gozo sensorial, sem temor algum de perde-lo, não
seriamos felizes? Que mais poderíamos desejar?” Ignorava eu que isto era fruto duma grande
miséria. Não podia, tão imerso no vício e cego como estava, imaginar a luz da virtude e uma
beleza invisível aos olhos da carne, e somente visível das profundezas da alma. Na minha
miséria, não indagava de que fonte provinha esse grande gosto em conversar com os amigos, por
maior que fosse a abundância dos prazeres carnais, segundo a idéia que eu tinha então? Eu
amava a meus amigos desinteressadamente, e também sentia que eles me amavam com o
mesmo desinteresse.
Ó caminhos tortuosos! Ai da alma temerária que, afastando-se de ti, esperava achar algo
melhor! Dá voltas e mais voltas, para todos os lados, mas tudo lhe é duro, porque só tu és seu
descanso. Mas eis que estás presente, e nos livras de nossos miseráveis erros, e nos pões em
teu caminho, e nos consolas dizendo: “Correi, que eu vos levarei e conduzirei ao termo, e aí serei
vosso sustento!
LIVRO SÉTIMO
CAPÍTULO I
A idéia de Deus
Já havia morrido minha adolescência má e nefanda; entrava na juventude, e quanto mais
crescia em idade, mais vergonhosa se tornava minha vaidade, a ponto de não poder imaginar
uma substância além da que se pode perceber com os olhos.
Desde que comecei receber as lições da sabedoria, não mais te imaginava, meu Deus, sob
a forma de um corpo humano – sempre fugi dessa idéia, e me alegrava encontrar essa doutrina
na fé de nossa mãe espiritual, a Igreja Católica; – mas não me ocorria outro modo de te imaginar.
E sendo eu homem – e que homem – esforçava-me para imaginar a ti, o sumo, o único e
verdadeiro Deus. Com toda minha alma eu te julgava incorruptível, inviolável e imutável. Mesmo
não sabendo de onde nem como me vinha esta certeza, eu via com clareza e tinha como certo
que o incorruptível é melhor do que o corruptível. Sem hesitar, colocava o que não pode ser
vencido acima do que o pode ser, e o que não sofre mudança parecia-me melhor do que é
suscetível a mudanças.
Meu coração clamava violentamente contra todos os meus fantasmas. Esforçava-me por
afugentar, com um só golpe, o redemoinho de imagens imundas que voluteavam ao meu redor.
Mas, apenas disperso, em um piscar de olhos, tornava a se formar os atropelos sobre minha vista,
obscurecendo-a. Apesar de não te atribuir uma figura humana, contudo, necessitava te conceber
como algo corporal, situado no espaço, quer imanente ao mundo, quer difundido por fora do
mundo, através do infinito; tal era o ser incorruptível, inviolável e imutável que eu colocava acima
do que é corruptível, sujeito à deterioração e ás mudanças. O que não ocupava espaço me
parecia um nada absoluto, perfeito, e não um simples vazio, como quando se tira um corpo de um
lugar, permanecendo o lugar vazio de todo o corpo, terrestre, úmido, aéreo ou celeste, mas,
enfim, um lugar vazio, como que um nada espaçoso.
Assim, pois, com o coração pesado, sem consciência clara de mim mesmo, considerava
como um perfeito nada tudo o que não tivesse extensão por determinado espaço, ou não se
difundisse ou pudesse assumir um desses estados. As formas percorridas por meus olhos eram
os moldes das imagens pelas quais andava meu espírito; não via que a mesma faculdade com
que formava essas imagens não era da mesma natureza que elas, não obstante não pudesse
formá-las se ela não fosse por sua vez algo grande.
E também a ti, vida de minha vida, imaginava-te como um Ser imenso, penetrando por
todas as partes, através dos espaços infinitos, toda a massa do mundo, alastrando-se sem limites
na imensidão, de sorte que a terra, o céu e todas as coisas te continham, e tudo isso tinha em ti
seu limite, sem que te limitasses em parte alguma. E assim como a massa do ar – deste ar que
está sobre a terra – não impede a passagem da luz do sol, não o impede de a atravessar, de a
penetrar sem romper ou cortar, antes enchendo-a totalmente, assim eu pensava que não somente
a substância do céu, do ar e do mar, mas também a da terra se deixava atravessar e penetrar por
ti em todas as suas partes, grandes e pequenas, que receberiam tua presença, que, com secreta
inspiração, governa interior e exteriormente tudo o que criaste.
Assim conjeturava eu, por não poder imaginar-te de outra forma; mas minha conjectura era
falsa. Porque, se assim fosse, uma porção maior da terra conteria parte maior de ti; e uma porção
menor da terra conteria parte menor. E de tal modo estariam as coisas impregnadas de ti, que o
corpo de um elefante conteria tanto mais de teu ser que o corpo do passarinho, pois aquele é
maior do que este, e ocupa mais espaço. Assim, fragmentado entre as partes do universo,
estarias presente nas grandes partes do universo por grandes partes de ti, e nas pequenas por
pequenas, o que não acontece. Mas ainda não tinhas iluminado minhas trevas.
CAPÍTULO II
Objeção contra o maniqueísmo
Bastava-me, Senhor, para calar aqueles enganados enganadores e muitos charlatães –
pois o que se ouvia de sua boca não era a tua palavra – bastava-me, certamente, o argumento
que há muito tempo, estando ainda em Cartago, costumava propor-lhes Nebrídio, impressionando
a todos os que então o ouvimos.
“Que poderia fazer contra ti – dizia aquela não sei que raça de trevas, que os maniqueus
costumam opor-te como massa hostil – se não quisesses lutar contra ela?”
Se respondessem que te podia ser nociva em algo, então serias violável e corruptível. Se
dissessem que não te podia prejudicar nada, não haveria razão para luta. Luta essa em que uma
parte de ti mesmo, um de teus membros, produto de tua própria substância, se misturava às
forças adversas, a naturezas não criadas por ti. Assim se corromperia, degradando-se a ponto de
mudar sua felicidade em miséria e de necessitar de auxílio para se libertar e purificar. E essa parte
de ti seria a alma que teu Verbo devia salvar da escravidão, ele que é livre de impurezas, ele que
é imaculado da corrupção, ele que é intacto sem ser corruptível, sendo feito de uma só e mesma
substância.
E assim, se declaram incorruptível tudo o que és, isto é, a substância que te forma, todas
essas proposições são erros execráveis; e se eles te consideram corruptível, essa mesma
afirmação também é falsa, e abominável logo à primeira vista.
Bastava-me, pois, este argumento contra aqueles que eu queria expulsar de vez de meu
peito angustiado. De fato, sentindo e dizendo tais coisas de ti, não tinham outra saída senão um
horrível sacrilégio de coração e de língua.
CAPÍTULO III
Deus e o mal
Mas eu, mesmo quando afirmava e cria firmemente que és incorruptível, inalterável,
absolutamente imutável, Senhor meu, Deus verdadeiro que não só criaste nossas almas e nossos
corpos, e não somente nossas almas e corpos, mas todas as criaturas e todas as coisas. Todavia,
faltava-me ainda uma explicação, a solução do problema da causa do mal. Qualquer que ela
fosse, estava certo de que deveria buscá-la onde não me visse obrigado, por sua causa, a julgar
mutável a um Deus imutável, porque isso seria transformar-me no mal que procurava.
Por isso, buscava-a com segurança, certo de que era falsidade o que diziam os
maniqueus; deles fugia com toda a alma, porque via suas indagações sobre a origem do mal
cheias de malícia, preferindo crer que tua substância era passível de sofrer o mal do que a deles
ser susceptível de o cometer.
Esforçava-me por compreender a tese que ouvira professar, de que o livre-arbítrio da
vontade é a causa de praticarmos o mal, e de teu reto juízo é a causa do mal que padecemos.
Mas era incapaz de entendê-lo com clareza. E esforçando-me por afastar desse abismo os olhos
do meu espírito, nele me precipitava de novo, e tentando reiteradamente fugir dele, sempre
voltava a recair.
O fato de eu ter a consciência de possuir uma vontade, como tinha consciência de minha
vida, era o que me erguia para a tua luz. Assim, quando queria ou não queria alguma coisa,
estava certíssimo de que era eu, e não outro, o que queria ou não queria, e então me convencia
de que ali estava a causa do meu pecado. Quanto ao que fazia contra a vontade, notava que isso
mais era padecer do mal do que praticá-lo; julgava que isso não era culpa, mas castigo, que me
instava a confessar justamente ferido por ti, considerando tua justiça.
Mas de novo refletia: “Quem me criou? Não foi o bom Deus, que não só é bom, mas a
própria bondade? De onde, então, me vem essa vontade de querer o mal e de não querer o bem?
Seria talvez para que eu sofra as penas merecidas? Quem depositou em mim, e semeou minha
alma esta semente de amargura, sendo eu totalmente obra de meu dulcíssimo Deus? Se foi o
demônio que me criou, de onde procede ele? E se este, de anjo bom se fez demônio, por decisão
de sua vontade perversa, de onde lhe veio essa vontade má que o transformou em diabo, tendo
ele sido criado anjo por um Criador boníssimo?”
Tais pensamentos de novo me deprimiam e sufocavam, mas não me arrastavam até
aquele abismo de erro, onde ninguém te confessa, e onde se antepõe a tese que tu és sujeito ao
mal a considerar o homem capaz de o cometer.
CAPÍTULO IV
A substância de Deus
Empenhava-me então por descobrir as outras verdades, como havia descoberto que o
incorruptível é melhor que o corruptível, e por isso confessava que tu, qualquer que fosse tua
natureza, devias ser incorruptível. Porque ninguém pôde nem poderá jamais conceber algo melhor
do que tu, que és o sumo bem por excelência. Por isso, sendo certíssimo e inegável que o
incorruptível é superior ao corruptível, o que eu já fazia, meu pensamento já poderia conceber
algo melhor do que o meu Deus, se não fosses incorruptível.
Portanto, logo que vi que o incorruptível deve ser preferido ao corruptível, imediatamente
deveria buscar-te no incorruptível, para depois indagar a causa do mal, isto é, a origem da
corrupção, que de nenhum modo pode afetar tua substância. É certo que, nem por vontade, nem
por necessidade, nem por qualquer acontecimento imprevisto, pode a corrupção afetar nosso
Deus, porque ele é Deus, e não pode querer senão o que é bom, e ele próprio é o sumo bem; e
estar sujeito à corrupção não é nenhum bem.
Tampouco poder ser obrigado, contra a tua vontade, seja ao que for, porque tua vontade
não é maior do que teu poder. Seria maior caso pudesses ser maior do que és, pois a vontade e o
poder de Deus são o mesmo Deus. E que pode haver de imprevisto para ti, se conheces todas as
coisas, e se todas elas existem porque as conheces?
Mas, por que tantas palavras para demonstrar que a substância de Deus não é corruptível,
já que se o fosse não seria Deus?
CAPÍTULO V
A origem do mal
Eu buscava a origem do mal, mas de modo errôneo, e não via o erro que havia em meu
modo de buscá-la. Desfilava diante dos olhos de minha alma toda a criação, tanto o que podemos
ver – como a terra, o mar, o ar, as estrelas, as árvores e os animais – como o que não podemos
ver – como o firmamento, e todos os anjos e seres espirituais. Estes, porém, como se também
fossem corpóreos, colocados em minha imaginação em seus respectivos lugares. Fiz de tua
criação uma espécie de massa imensa, diferenciada em diversos gêneros de corpos; uns, corpos
verdadeiros, e espíritos, que eu imaginava como corpos.
E eu a imaginava não tão imensa quanto ela era realmente – o que seria impossível – mas
quanto me agradava, embora limitada por todos os lados. E a ti, Senhor, como a um ser que a
rodeava e penetrava por todas as partes, infinito em todas as direções, como se fosses um mar
incomensurável, que tivesse dentro de si uma esponja tão grande quanto possível, limitada, e toda
embebida, em todas as suas partes, desse imenso mar.
Assim é que eu concebia a tua criação finita, cheia de ti, infinito, e dizia: “Eis aqui Deus, e
eis aqui as coisas que Deus criou; Deus é bom, imenso e infinitamente mais excelente que suas
criaturas; e, como é bom, fez boas todas as coisas; e vede como as abraça e penetra! Onde está
pois o mal? De onde e por onde conseguiu penetrar no mundo? Qual é a sua raiz e sua semente?
E se tememos em vão, o próprio temor já é certamente um mal que atormenta e espicaça sem
motivo nosso coração; e tanto mais grave quanto é certo que não há razão para temer. Portanto,
ou o mal que tememos existe, ou o próprio temor é o mal. De onde, pois, procede o mal se Deus,
que é bom, fez boas todas as coisas? Bem superior a todos os bens, o Bem supremo, criou sem
dúvida bens menores do que ele. De onde pois vem o mal? Acaso a matéria de que se serviu para
a criação era corrompida e, ao dar-lhe forma e organização, deixou nela algo que não converteu
em bem?
E por que isto? Acaso, sendo onipotente, não podia mudá-la, transformá-la toda, para que
não restasse nela semente do mal? Enfim, por que se utilizou dessa matéria para criar? Por que
sua onipotência não a aniquilou totalmente? Poderia ela existir contra sua vontade? E, se é
eterna, por que deixou-a existir por tanto tempo no infinito do passado, resolvendo tão tarde servirse
dela para fazer alguma coisa? Ou, já que quis fazer de súbito alguma coisa, sendo onipotente,
não poderia suprimir a matéria, ficando ele só, bem total verdadeiro, sumo e infinito? E, se não era
conveniente que, sendo bom, não criasse nem produzisse bem algum, por que não destruiu e
aniquilou essa matéria má, criando outra que fosse boa e com a qual plasmar toda a criação?
Porque ele não seria onipotente se não pudesse criar algum bem sem a ajuda dessa matéria que
não havia criado.”
Tais eram os pensamentos de meu pobre coração, oprimido pelos pungentes temores da
morte, e sem ter encontrado a verdade. Contudo, arraigava sempre mais em meu coração a fé de
teu Cristo, nosso Senhor e Salvador, professada pela Igreja Católica; fé ainda incerta, certamente,
em muitos pontos, e como que flutuando fora das normas da doutrina. Minha alma porém não a
abandonava, e cada dia mais se abraçava a ela.
CAPÍTULO VI
O absurdo dos horóscopos
Também já havia rechaçado as enganosas predições e ímpios delírios dos astrólogos.
Ainda por isso, meu Deus, quero confessar-te tuas misericórdias desde o mais íntimo de
minha alma! Foste tu, e só tu – pois, quem pode afastar-nos da morte do erro, senão a Vida que
desconhece a morte, a Sabedoria que ilumina as pobres inteligências sem precisar de outra luz, e
que governa o mundo até as folhas que tremulam nas árvores? Foste tu que medicaste a
obstinação com que me opunha ao sábio velho Vindiciano e ao magnânimo jovem Nebrídio, que
diziam – o primeiro, com veemência, o segundo com alguma hesitação, mas frequentemente –
não existir a tal arte de predizer as coisas futuras, e que as conjecturas dos homens muitas vezes
têm concurso do acaso e que, de tanto repetir, acertavam em predizer algumas coisas, sem que
os mesmos que as diziam o soubessem.
Foste tu que me fizeste encontrar um amigo mui afeiçoado a consultar os astrólogos, não
entendido nessa ciência, mas que consultava por curiosidade. Conhecia ele uma história, que
ouvira do pai, segundo dizia. Ignorava ele até que ponto essa história era valiosa para destruir a
autoridade daquela arte.
Esse homem, chamado Firmino, educado nas artes liberais e instruído na eloqüência, veiome
consultar, como amigo íntimo, sobre alguns assuntos nos quais alimentava esperanças
mundanas, para ver qual seria meu vaticínio conforme suas constelações, como eles dizem. Eu,
que já começara a me inclinar à opinião de Nebrídio, embora não me negasse a fazer-lhe o
horóscopo e expor-lhe as suas conclusões, acrescentei, contudo, que estava quase persuadido de
que tudo aquilo era ridícula quimera.
Então, ele me contou que seu pai tinha grande interesse na leitura de tais livros, e que
tivera um amigo igualmente apaixonado. Conversando sobre a matéria, empolgaram-se cada vez
mais no estudo daquelas tolices, e chegaram ao ponto de observar os momentos do nascimento
até dos animais domésticos, notando a posição das estrelas a fim de coligir dados experimentais
daquela pseudo-arte.
Firmino me relatava ter ouvido o pai contar que, estando sua mãe para o dar à luz, também
estava grávida uma serva daquele amigo de seu pai, coisa que não poderia passar despercebida
a seu senhor, que cuidava com extrema diligência e precisão de conhecer até o parto das
cadelas.
E sucedeu que, contando com o maior esmero os dias, horas e suas menores parcelas, da
esposa e da escrava, ambas as mulheres deram à luz no mesmo momento, o que os obrigou a
fazer, até em seus menores detalhes os mesmos horóscopos para os nascidos, um para o filho e
outro para o pequeno servo.
Tendo começado o trabalho de parto, informaram um ao outro o que se passava em suas
casas, e enviaram mensageiros um ao outro, a fim de anunciar com igual rapidez o nascimento
das crianças; e conseguiram-no fazer facilmente, como se o fato se passasse em suas próprias
casas. E Firmino contava que os mensageiros que haviam sido enviados vieram a se encontrar à
mesma distância de suas respectivas casas, de modo que não se podia notar a menor diferença
na posição das estrelas, assim como nas demais frações de tempo. No entanto Firmino, como
filho de grande família, corria pelos mais brilhantes caminhos do mundo, crescia em riquezas e
era coberto de honras, ao passo que o escravo, sujeito ainda ao jugo da escravidão, tinha que
servir a seus senhores, segundo ele próprio contava, pois o conhecia.
Ouvindo essa história, na qual acreditei pelo crédito que merecia seu narrador – toda
minha resistência se quebrou. Esforcei-me em seguida para afastar Firmino daquela vã
curiosidade, dizendo-lhe que, pelo seu horóscopo e para ser verdadeiro, deveria certamente
considerar a seus pais como os primeiros entre seus concidadãos; o renome da sua família, a
mais nobre da cidade; seu nascimento ilustre, sua educação esmerada e seus conhecimentos nas
artes liberais. E, pelo contrário, se aquele servo me consultasse sobre o tal horóscopo – que era o
mesmo de Firmino – se também tivesse de lhe dizer a verdade – deveria ver nos mesmo signos
sua família paupérrima, sua condição servil e tantas outras coisas, tão diferentes e opostas às
primeiras.
Portanto, para dizer a verdade, vendo os mesmos sinais celestes deveria tirar conclusões
divergentes, porque fazer prognósticos semelhantes seria mentir.
De onde concluí, com toda certeza, que as predições verdadeiras não podem atribuir a
uma arte, mas ao acaso, e que as falsas não se devem à ignorância dessa arte, mas à mentira do
acaso.
Após esta abertura e nela baseado, ruminava dentro de mim tais coisas, para que nenhum
daqueles loucos que buscam nisso o lucro, e a quem eu então desejava refutar e ridicularizar, não
me objetasse que Firmino ou o pai podia ter contado mentiras. Voltei pois minha atenção ao caso
dos gêmeos, muitos dos quais saem do seio materno com tão breve intervalo de tempo, que por
mais que o pretendam importante, não pode ser apreciado pela observação humana, nem pode
ser considerado nos signos que o astrólogo lançará mão para fazer uma previsão certa. Mas os
vaticínios não serão verdadeiros pois, vendo os mesmos signos, deveria predizer a mesma sorte
para Esaú e Jacó, sendo que os sucessos da vida de ambos foram muito diversos.
O astrólogo, portanto, deveria prognosticar coisas falsas, ou, no caso de falar coisas
verdadeiras, estas forçosamente deveriam ser diferentes, a despeito da identidade das
observações. Logo, se seus prognósticos fossem verdadeiros, não o seriam por efeito da arte,
mas do acaso. Porque tu, Senhor, governador justíssimo do Universo, por inspiração secreta,
desconhecida dos consulentes e astrólogos, fazes que cada um ouça a resposta que lhe convém,
de acordo com os méritos das almas, do fundo do abismo de teu justo juízo. E que o homem não
se atreva a dizer: Que é isto? Por que isto? Não o diga, não o diga, porque é um simples homem.
CAPÍTULO VII
Ainda a origem do mal
Deste modo, ó meu auxílio, já me havias libertado daqueles grilhões. Contudo eu buscava
ainda a origem do mal, e não encontrava solução. Mas não permitias que as vagas de meu
pensamento me apartassem da fé. Fé na tua existência, na tua substância imutável, na tua
providência para os homens, e na tua justiça que os julgará. Já acreditava que traçaste o caminho
da salvação dos homens, rumo à vida que sobrevém depois da morte, em Cristo, teu Filho e
Senhor nosso, e nas Sagradas Escrituras, recomendadas pela autoridade de tua Igreja Católica.
Salvas e fortemente arraigadas estas verdades em meu espírito, buscava eu ansiosamente
a origem do mal. E que tormentos, como que de parto, eram aqueles de meu coração! Que
gemidos, meu Deus! E ali estavam teus ouvidos atentos, e eu não o sabia. Quando, em silêncio,
me esforçava em pacientes buscas, altos clamores se elevavam até tua misericórdia: eram as
silenciosas angústias de minha alma.
Tu só sabes o que eu padecia, mas homem algum o sabia. De fato, quão pouco era o que
minha palavra transmitia aos meus amigos mais íntimos! Chegava, porventura, a eles o tumulto de
minha alma, que nem o tempo, nem as palavras bastavam para declarar? Contudo, chegavam a
teus ouvidos as queixas que em meu coração rugiam, e meu desejo estava diante de ti, mas a luz
de meus olhos não estava contigo, porque ela estava dentro, e eu olhava para fora. Ela não
ocupava espaço algum, e eu só pensava nas coisas que ocupam lugar, e não achava nelas lugar
de descanso, nem me acolhiam de modo que pudesse dizer: “Basta, Aqui estou bem!” – Nem me
permitiam que eu fosse para onde me sentisse satisfeito. Eu era superior a estas coisas, mas
sempre inferior a ti. Serias minha verdadeira alegria se eu te fosse submisso, pois sujeitasse a
mim tudo o que criaste inferior a mim. Tal seria o justo equilíbrio e a região central de minha
salvação: permanecer como imagem tua, e servindo-te, ser o senhor de meu corpo. Mas, como
me levantei soberbamente contra ti, investindo contra meu Senhor coberto com o escudo de
minha dura cerviz, até mesmo as criaturas inferiores se fizeram superiores a mim, e me oprimiam,
e não me davam um momento de alívio e de descanso.
Quando as olhava, elas me vinham ao encontro atabalhoadamente de todos os lados; mas
quando nelas me concentrava, tais imagens corporais me barravam para que me retirasse, como
se me dissessem: “Para onde vais, indigno e impuro?” E estas recobravam forças com a minha
chaga, porque humilhaste o soberbo como a um homem ferido. Minha presunção me separava de
ti, e meu rosto de tão inchado, fechava meus olhos.
CAPÍTULO VIII
A piedade de Deus
Mas tu, Senhor, permaneces eternamente, e não te iras eternamente contra nós, porque te
compadeceste da terra e do pó, e foi de teu agrado corrigir minhas deformidades. Tu me
aguilhoavas com estímulos interiores para que estivesse impaciente, até que por uma visão
interior, te tornasses para mim uma certeza. O inchaço de meu orgulho baixava graças à mão
secreta de tua medicina; a vista de minha alma, perturbada e obscurecida, ia sarando dia a dia
graças ao colírio das dores salutares.
CAPÍTULO IX
Agostinho e o neoplatonismo
Primeiramente, querendo tu mostrar-me como resistes aos soberbos e dás tua graça aos
humildes, e com quanta misericórdia ensinaste aos homens o caminho da humildade, por se ter
feito carne teu Verbo, e ter habitado entre os homens, me fizeste chegar às mãos por meio de um
homem inchado de monstruoso orgulho, alguns livros dos platônicos, traduzidos do grego para o
latim.
Neles eu li – não com estas palavras, mas substancialmente o mesmo e expresso com
muitos e diversos argumentos – que “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o
Verbo era Deus. Este estava desde o princípio em Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e
sem ele nada foi feito do que foi feito. O que foi feito é vida nele, e a vida era a luz dos homens. E
a luz brilha nas trevas, mas as trevas não a compreenderam. Diziam também que a alma do
homem, embora dê testemunho da luz, não é a luz, mas o Verbo, Deus, é a verdadeira luz, que
ilumina a todo homem que vem a este mundo. E que neste mundo estava, e que o mundo é
criatura sua, e que o mundo não o conheceu.
E que ele veio para sua morada, e que os seus não o receberam, e que a quantos o
receberam deu o poder de se fazerem filhos de Deus, desde que acreditem em seu nome, isto
não o li nesses livros.
Também neles li que o Verbo, Deus, não nasceu da carne nem do sangue, nem da
vontade do varão, mas de Deus. Mas que o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, isso não o li
naqueles livros.
Igualmente achei nesses livros, dito de diversos e múltiplos modos, que o Filho,
consubstancial ao Pai, não considerou usurpação ser igual a Deus, porque o é por natureza. Não
dizem porém que se aniquilou a si mesmo, tomando a forma de escravo, que se fez semelhante
aos homens, sendo julgado homem por seu exterior; e que se humilhou, fazendo-se obediente até
a morte, e morte de cruz, pelo que Deus o ressuscitou entre os mortos, e lhe deu um nome acima
de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobrem todos os joelhos no céu, na terra e no
inferno, e toda língua confesse que o Senhor Jesus está na glória de Deus Pai.
Neles se diz também que antes e sobre todos os tempos, teu Filho único permanece
imutável, eterno consigo, e que de sua plenitude recebem as almas para sua bem-aventurança e
que, para serem sábias, são renovadas participando da sabedoria que permanece em si mesma.
Mas não se encontra escrito ali que morreu, no tempo marcado, pelos ímpios, e que não
perdoaste a teu Filho único, mas que o entregaste por todos nós. Porque escondeste estas coisas
aos sábios e as revelastes aos humildes, a fim de que os atribulados e sobrecarregados viessem
a ele, para que os reconfortasse, porque ele é manso e humilde de coração. Dirige os pequenos
na justiça e ensina aos mansos seu caminho, vendo nossa humildade e nosso trabalho, e
perdoando todos os nossos pecados.
Mas aqueles que, erguendo-se sobre uma doutrina, digamos, mais sublime, não ouvem ao
que lhes diz: Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso
para vossas almas. E ainda que conheçam a Deus, não o glorificam como Deus, nem lhe dão
graças, mas se desvanecem em seus pensamentos, e seu coração insensato se obscurece; e
dizendo que são sábios, se tornam estultos.
E por isso lia também nesses livros que a glória de tua natureza incorruptível havia sido
transformada em ídolos e simulacros de todo tipo, à semelhança da imagem do homem
corruptível, das aves, dos quadrúpedes e serpentes. Isto é, naquele alimento do Egito pelo qual
Esaú perdeu sua primogenitura. Israel, teu povo primogênito, voltando o coração para o Egito,
honrou em teu lugar a cabeça de um quadrúpede, curvando tua imagem, isto é, a própria alma,
diante da imagem de um bezerro comendo feno.
É o que encontrei nesses livros, mas delas não me alimentei, porque agradou-te, Senhor,
tirar de Jacó o opróbrio de sua inferioridade, para que o maior servisse ao menor, chamando os
gentios para tua herança.
Também eu vinha dentre os gentios para ti, e interessei-me pelo ouro que, por tua vontade,
teu povo trouxera do Egito, pois era teu onde quer que estivesse. E disseste aos atenienses, por
boca de teu Apóstolo, que em ti vivemos, nos movemos e temos nosso ser, como alguns deles o
disseram, e é deles que vinham os livros que me ocupavam. Mas não me fixei nos ídolos dos
egípcios, aos quais sacrificavam, com teu ouro, os que mudaram a verdade de Deus em mentira,
adorando e servindo ante à criatura do que ao Criador.
CAPÍTULO X
A descoberta de Deus
Estimulado por estas leituras a voltar a mim mesmo, entrei, guiado por ti, no profundo de
meu coração, e o pude fazer porque te fizeste minha ajuda. Entrei, e vi com os olhos da alma,
acima desses mesmos olhos, acima de minha inteligência, a luz imutável; não esta vulgar e visível
a todos os olhos de carne, nem outra do mesmo gênero, embora maior. Era muito mais clara e
enchendo com sua força todo o espaço. Não, não era esta luz, mas uma luz diferente de todas
estas.
Ela não estava sobre meu espírito como o azeite sobre a água, como o céu sobre a terra,
mas estava acima de mim porque me criou; eu lhe era inferior por ter sido criado por ela. Quem
conhece a verdade conhece a luz, e quem a conhece, conhece a eternidade. O amor a conhece!
Ó eterna verdade, amor verdadeiro, amada eternidade! Tu és meu Deus. Por ti suspiro dia
e noite. Quando te conheci pela primeira vez, ergueste-me para me fazer ver que havia algo para
ser visto, mas que eu ainda era incapaz de ver. E deslumbraste a fraqueza de minha vista com o
fulgor do teu brilho, e eu estremeci de amor e temor. Pareceu-me estar longe de ti numa região
desconhecida, como se ouvira tua voz do alto: “Sou o pão dos fortes; cresce, e comer-me-ás. Não
me transformarás em ti, como fazes com o alimento da tua carne, mas tu serás mudado em mim”.
E conheci então que “castigaste o homem por causa de sua iniqüidade”, e “que secaste
minha alma como uma teia de aranha”, e eu disse: Porventura não existe a verdade, por não ser
difusa pelos espaços finitos e infinitos? E tu me gritaste de longe: Na verdade, Eu sou o que sou.
E eu ouvi como se ouve no coração, sem deixar motivo para dúvidas; antes, mais facilmente
duvidaria de minha vida que da existência da verdade, que se manifesta à inteligência pelas
coisas da criação.
CAPÍTULO XI
Deus e as criaturas
E contemplei as outras coisas que estão abaixo de ti, e vi que nem existem absolutamente,
e nem absolutamente deixam de existir. Certamente existem, porque procedem de ti; mas não
existem, pois, não são o que tu és,, porque só existe verdadeiramente o que permanece imutável.
Com isso, para mim é bom apegar-me a Deus, porque, se não permanecer nele, tampouco
poderei permanecer em mim. ele, porém, permanecendo em si, renova todas as coisas, e tu és o
meu Senhor, porque não necessitas de meus bens.
CAPÍTULO XII
O mal e o bem da criação
Também pode entender que são boas as coisas que se corrompem. Se fossem
sumamente boas, não poderiam se corromper, como tampouco o poderiam se não fossem boas
de algum modo. Com efeito, se fossem sumamente boas, seriam incorruptíveis; e se não tivessem
nenhuma bondade, nada haveria nelas que se pudesse corromper. Porque a corrupção é um mal,
e não poderia ser nociva se não diminuísse o bem real. Logo, ou a corrupção é inofensiva, o que é
impossível, ou, o que é certo, tudo o que se corrompe é privado de algum bem. E assim, se algo
for privado de todo o bem, deixará totalmente de existir. E se algo subsistisse sem já poder ser
corrompido, seria ainda melhor, porque permaneceria incorruptível. E haverá maior absurdo do
que afirmar que uma coisa se torna melhor pela perda de todo o bem? Logo, ser privado de todo o
bem é o nada absoluto. De onde se segue que, enquanto as coisas existem, elas são boas.
Portanto, tudo o que existe é bom; e o mal, cuja origem eu procurava, não é uma substância,
porque se o fosse seria um bem. De fato, ou ele seria substância incorruptível, e portanto um
grande bem; ou seria uma substância corruptível, que se não se poderia corromper se não fosse
boa.
Vi pois, e foi para mim evidente, que tu eras o autor de todos os bens, e que não há em
absoluto substância alguma que não tenha sido criada por ti. E como não as fizeste todas iguais,
toas as coisas existem, porque cada uma por si é boa, e todas juntas muito boas, porque nosso
Deus fez todas as coisas muito boas.
CAPÍTULO XIII
Os louvores da criação
E para ti, Senhor, não existe absolutamente o mal; e nem para universalidade da tua
criação; porque nada existe fora dela, capaz de romper ou de corromper a ordem que tu lhe
impuseste. Todavia, em algumas de suas partes, determinados elementos não se harmonizam
com outros, e estes são considerados maus. Mas, como esses mesmos elementos combinam
com outros, são da mesma forma bons, e bons em si mesmos. E mesmo esses elementos que
não concordam entre si se harmonizam com a parte inferior das criaturas que chamamos terra,
com seu céu cheio de nuvens e de ventos, como lhe é conveniente.
Longe de mim dizer: Oxalá não existissem estas coisas! – Embora, considerando-as
separadamente, eu as desejasse melhores, somente o fato de existirem deveria bastar para eu te
louvar porque o proclamam os dragões da terra e todos os abismos; o fogo, o granizo, a neve, o
vento da tempestade, que executam tuas ordens; os montes e todas as colinas; as árvores
frutíferas e todos os cedros; as feras e todos os gados; os répteis e todas as aves; os reis da terra
e todos os povos; os príncipes e todos os juízes da terra, os jovens e as virgens, os anciões e as
crianças; todos louvam teu nome.
Mas como também do alto dos céus é louvado, que seja louvado o nosso Deus, lá no alto
por todos os teus anjos, todas as potestades, o sol e a lua, todas as estrelas e a luz, os céus dos
céus, e a águas que estão sobre os céus glorificam teu nome, eu já não desejava nada melhor,
porque, considerando o todo, os elementos superiores me pareciam sem dúvida melhores que os
inferiores; mas um julgamento mais sadio me fazia considerar o todo melhor que os elementos
superiores tomados à parte.
CAPÍTULO XIV
Recapitulação
Não têm juízo sadio, nos que se desagradam com alguma parte de tua criação, como
acontecia comigo, quando me desagradavam tantas de tuas obras. Mas, como minha alma não se
atrevia a desgostar do meu Deus, não queria considerar como obra tua o que lhe desagradava.
Por isso fora atrás da teoria das duas substâncias, na qual não achava descanso, e repetia
coisas alheias. Desembaraçando-me desses erros, imaginara para si um Deus que se difundia
pelos espaços infinitos e, julgando que eras tu, colocou-o em seu coração, e de novo se tornou o
templo de seu ídolo, coisa abominável a teus olhos.
Mas, depois que afagaste minha cabeça, sem que eu o percebesse, e fechaste meus olhos
para não vissem a vaidade, desprendi-me um pouco de mim mesmo, e minha loucura adormeceu
profundamente; quando despertei em teus braços, vi que eras infinito não daquele modo, e esta
visão não procedia da carne.
CAPÍTULO XV
Deus e a criação
Contemplei depois as outras coisas, e vi que deviam a ti sua existência, e que todas estão
contidas em ti, não como em um lugar material, mas de modo diferente: conservas todas elas em
tua verdade, sustentadas na tua mão; todas as coisas são verdadeiras enquanto existem, e só é
falso o que julgamos existir, mas não existe.
Também vi que cada coisa adapta-se não só a seus lugares, mas também a seus tempos,
e que tu, que és o único eterno, não começaste a agir depois de infinitos espaços de tempos,
porque todos os espaços de tempo – passados ou futuros – não teriam passado nem viriam se tu
não agistes e não fosses permanente.
CAPÍTULO XVI
Onde está o mal
Entendi por experiência que não é de admirar que o pão seja enjoativo ao paladar
enfermo, mesmo tão agradável para o paladar sadio, e que olhos enfermos considerem odiosa a
luz, que para os límpidos é tão cara. Se tua justiça desagrada aos maus, muito mais desagradam
a víbora e o caruncho, que criaste bons e adaptados à parte inferior da tua criação, com a qual
também os maus se assemelham, tanto mais quanto mais diferem de ti, assim como os justos se
assemelham às partes superiores do mundo na medida em que se assemelham a ti.
Indaguei o que era a iniqüidade, e não achei substância, mas a perversão de uma vontade
que se afasta da suprema substância, de ti, meu Deus – e se inclina para as coisas baixas, e que
derrama suas entranhas, e se intumesce exteriormente.
CAPÍTULO XVII
Caminho para Deus
Admirava-me de já te amar, e não a um fantasma em teu lugar, mas não era estável no
gozo de meu Deus. Era arrebatado a ti por tua beleza, e logo afastado de ti pelo meu peso, que
me precipitava sobre a terra a gemer. Meu peso eram os hábitos carnais. Mas tua lembrança me
acompanhava. Nem absolutamente duvidava da existência de um ser a quem eu devia me unir,
embora não estivesse apto para esta união, porque o corpo, que se corrompe, sobrecarrega a
alma, e a morada terrena oprime o espírito carregado de cuidados. Estava certíssimo de que tuas
belezas invisíveis se descobrem à inteligência desde a criação do universo, por meio de tuas
obras; bem como teu poder eterno e tua divindade.
Buscava saber de onde me vinha minha faculdade de apreciar a beleza dos corpos – quer
celestes, quer terrenos – e o que me permitia julgar rápida e cabalmente das coisas mutáveis
quando dizia: “Isto deve ser assim, aquilo não deve ser assim”. Procurando a origem de minha
faculdade de julgar quando assim julgava, achei a eternidade imutável e verdadeira, acima de
meu espírito mutável.
E, gradualmente, fui subindo dos corpos para a alma, que sente por meio do corpo; e dela
à sua força interior, à qual os sentidos comunicam as coisas exteriores, que é o limite alcançado
pelos animais. Daqui passei para o poder do raciocínio, ao qual cabe julgar as percepções dos
sentidos corporais; por sua vez, julgando-se sujeito a mudanças, levantou-se até a sua própria
inteligência, e afastou o pensamento de suas cogitações habituais. Livrou-se da multidão de
fantasmas contraditórios, para descobrir que luz a inundava quando, sem nenhuma dúvida,
afirmava que o imutável deve ser preferido ao mutável; e também de onde lhe vinha o
conhecimento do próprio imutável, porque, se não tivesse dele alguma noção, nunca o preferiria
ao mutável com tanta certeza. E, finalmente, chegou àquele que é um único lampejo.
Foi então que tuas perfeições invisíveis se manifestaram à minha inteligência por meio de
tuas obras. Mas não pude fixar nelas meu olhar; minha fraqueza se recobrou, e voltei a meus
hábitos, não levando comigo senão uma lembrança amorosa e, por assim dizer, o desejo do
perfume do alimento saboroso que eu ainda não podia comer.
CAPÍTULO XVIII
A senda da humildade
Buscava um meio que me desse força necessária para gozar de ti, e não a encontrei
enquanto não me abracei ao Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que está
sobre todas as coisas, Deus bendito por todos os séculos, que chama e diz: Eu sou o caminho, a
verdade e a vida. Ele une o alimento à carne (alimento que eu não tinha forças para tomar),
porque o Verbo se fez carne, para que tua Sabedoria, pela qual criaste todas as coisas, fosse o
leite de nossa infância.
Não tendo humildade, eu não possuía Jesus, o Deus da humildade, e não atinava o que
nos poderia ensinar sua fraqueza. Porque teu Verbo, verdade eterna, dominando as criaturas
mais sublimes da tua criação, levanta a si as que se lhe sujeitam e, nas partes inferiores, construiu
para si, com o nosso lodo, uma humilde morada. Assim faz para humilhar e arrancar de si
mesmos aqueles que deseja sujeitar e atrair, curando-lhes a soberba e alimentando-lhes o amor,
para que, confiando em si, não se afastem para mais longe. Pelo contrário, que se humilhem,
vendo a seus pés a humildade de um Deus que também se vestiu de nossa túnica de carne, e
cansados, se prostrem diante dela para que, ao se levantar, os exalte.
CAPÍTULO XIX
A doutrina do verbo
Mas eu então julgava de outro modo. Considerava meu Senhor Jesus Cristo apenas um
homem de extraordinária sabedoria, a quem ninguém poderia igualar. Sobretudo seu miraculoso
nascimento de uma virgem, que nos ensina a desprezar os bens temporais para adquirir a
imortalidade. Parecia-me ter merecido, por decreto da Providência divina, uma soberana
autoridade para ensinar os homens.
Mas nem suspeitava o mistério que se encerra nestas palavras: o Verbo se fez carne.
Somente conhecia, pelas coisas que dele nos deixaram escritas, que comeu, bebeu, dormiu,
passeou, que se alegrou, se entristeceu e pregou, e que essa carne não se juntou a teu Verbo
senão com alma e inteligência humanas. Tudo isso sabe quem conhece a imutabilidade de teu
Verbo, que eu já conhecia quanto me era possível, sem que disso nada duvidasse. Com efeito,
mover os membros do corpo à vontade, ou não movê-los, estar dominado por algum afeto ou não
o estar, traduzir por palavras sábios pensamentos e depois calar, são caracteres próprios da
mutabilidade da alma e da inteligência. Se esses testemunhos das Escrituras fossem falsos, tudo
o mais correria o risco de ser mentira, e o gênero humano não teria mais nesses livros a fé,
condição de salvação. Mas como são verdadeiras as coisas nela escritas, eu reconhecia em
Cristo um homem completo, não somente o corpo de um homem, ou um corpo sem uma alma
inteligente, mas um homem real, que eu julgava superior a todos os outros não por ser a
personificação da verdade, mas em razão da singular excelência de sua natureza humana, e de
uma mais perfeita participação na sabedoria.
Alípio porém pensava que os católicos, crendo em um Deus revestido de carne, entendiam
quem eu em Cristo, além de Deus e da carne, não havia alma humana; e não julgava que lhe
atribuíssem inteligência humana. E como estava bem persuadido de que os atos atribuídos
tradicionalmente a Cristo não podiam ser senão obras de um criatura cheia de vida e de
inteligência, Alípio se aproximava com certa relutância da fé cristã. Mas depois, ao saber que este
erro era próprios dos hereges apolinaristas, aderiu alegremente à fé católica.
De minha parte, confesso que só aprendi mais tarde a diferença de interpretação das
palavras “o Verbo se fez carne”, entre a verdade católica e o erro do Fotino (bispo de Sírmio,
afirmava que o Verbo não havia sido Filho de Deus até encarnar-se nas entranhas da Virgem
Maria, negando toda união substancial entre a natureza humana e o Verbo divino). A reprovação
dos hereges põe às claras o pensamento da tua Igreja e o que esta considera como doutrina sã.
Convém pois que haja heresias, para que os fortes se distingam entre os fracos.
CAPÍTULO XX
Do platonismo às Escrituras
Depois de ter lido aqueles livros dos platônicos, induzido por eles a buscar a verdade
incorpórea, começaram a se tornarem patentes, por meio de tuas obras, tuas perfeições visíveis.
Repelido para longe de ti, compreendi em que consistia essa verdade, que as trevas de minha
alma me impediam de contemplar. Estava certo de tua existência e de que és infinito, sem
contudo te estenderes por espaços finitos ou infinitos; e de que és verdadeiramente aquele que é
sempre idêntico a si mesmo, sem te mudares em outro, nem sofrer alteração alguma, quer
parcialmente ou com algum movimento, quer de qualquer outro modo; e de que tudo o mais vem
de ti, pela única e irrefutável razão de que existe. Tinha certeza de todas estas verdades, mas me
achava ainda demasiado fraco para gozar de ti. Tagarelava muito, como se fora competente
nisso, mas se não procurasse o caminho da verdade em Cristo, nosso Salvador, não seria perito,
mas perituro. Já começava a querer parecer sábio, cheio de meu castigo, e não chorava, mas
orgulhava-me com a ciência. Onde estava aquela caridade erigida sobre o alicerce da humildade,
que é Cristo Jesus? Ou talvez me a ensinariam aqueles livros? Creio que quiseste que com eles
me encontrasse antes de meditar nas tuas Escrituras, para que fixassem em minha memória os
afetos que nela experimentei. Depois, quando encontrasse em teus livros a paz do coração,
sarada com tuas mãos as feridas de minha alma, pudesse discernir e perceber a diferença entre
presunção e humildade, entre os que vêem para onde se deve ir, e não vêem por onde se vai,
nem o caminho que conduz à pátria bem-aventurada, não só para contemplá-la, mas também
para habitá-la.
Porém, se me tivesse instruído em tuas sagradas letras, e em sua intimidade tivesse
experimentado na doçura, para depois conhecer os livros dos platônicos, talvez eles me
arrancassem dos sólidos fundamentos da piedade; ou, se eu tivesse persistido nos sentimentos
salutares nelas hauridos, talvez julgasse que só por esses livros se poderia chegar ao mesmo
proveito espiritual.
CAPÍTULO XXI
A verdade das escrituras
Por isso lancei-me avidamente sobre as veneráveis escrituras inspiradas por teu Espírito,
sobretudo ao do apóstolo Paulo. E desnaveceram em mim aquelas dificuldades nas quais julguei
descobrir contradições entre ele e seu texto, em desacordo com os testemunhos da Lei e dos
Profetas. Compreendi a unidade daqueles castos escritos, e aprendi a me alegrar com tremor.
Comecei a lê-los e compreendi que tudo de verdadeiro que lera nos tratados dos
neoplatônicos se encontrava ali, mas com o aval da tua graça, para que aquele que vê não se
glorie como se não houvesse recebido não só o que vê, mas também a faculdade de ver. Com
efeito, que tem ele que não tenha recebido? E tu, que és imutável, não só o alertas para que te
veja, mas também para que seja curado, para te possuir. Aquele que está muito longe de te ver,
tome, contudo, o caminho para chegar a ti, para te ver e te possuir.
Porque, embora o homem se deleite com a lei de Deus, segundo o homem interior, que
fará dessa outra lei que luta em seus membros contra a lei de seu espírito, e que o prende sob a
lei do pecado, impressa em seus membros? Porque tu és justo, Senhor; nós, porém, pecamos,
cometemos iniqüidades; procedemos como ímpios, e tua mão se fez pesada sobre nós, e é com
justiça que fomos entregues ao pecador antigo, ao príncipe da morte, porque ele persuadiu nossa
vontade a se conformar à sua, que não quis persistir com tua verdade.
Que fará esse homem infeliz? Quem o livrará deste corpo de morte, senão tua graça, por
Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem tu geraste co-eterno e criaste no princípio de teus caminhos,
ele, em quem o príncipe deste mundo não achou nada que merecesse a morte, e a quem,
contudo, matou? Com o que foi anulada a sentença que havia contra nós?
Nada disso dizem os livros platônicos. Nem têm naquelas páginas esse sentimento de
piedade, as lágrimas da confissão, esse teu sacrifício, a alma abatida, esse coração contrito e
humilhado, nem a salvação de teu povo, nem a cidade prometida, nem o penhor do Espírito
Santo, nem o cálice de nossa redenção.
Nos livros platônicos ninguém canta: “Minha alma não estará sujeita a Deus? Porque dele
procede minha salvação, pois é meu Deus e meu amparo, do qual não mais me apartarei.
Ninguém ali ouvi o convite: Vinde a mim os que sofreis. Desdenham teus ensinamentos,
porque és manso e humilde de coração. Porque escondeste estas coisas dos sábios e doutos, e
as revelaste aos pequeninos.
Uma coisa é ver de um monte agreste a pátria da paz, e não encontrar o caminho que
conduz a ela, e fatigar-se debalde por lugares inacessíveis, entre ataques e emboscadas dos
desertores fugitivos, com seu chefe, o leão e o dragão, e outra coisa é conhecer o caminho que
conduz até lá, defendido pelos cuidados do imperador celeste, e onde não roubam os desertores
da milícia do céu, pois eles o evitam como um suplício.
Esses pensamentos penetravam-me as entranhas de modo maravilhoso, quando eu lia o
menor de teus apóstolos. Considerava tuas obras e enchia-me de assombro.
LIVRO OITAVO
CAPÍTULO I
Hesitações
Faze, meu Deus, que eu recorde de ti em ação de graças, e proclame tuas misericórdias
para comigo. Que meus ossos se penetrem do teu amor, e digam: Senhor quem semelhante a ti?
Rompeste com grilhões, e te oferecerei um sacrifício de louvor. Contarei como os rompeste, e
todos os que te adoram exclamarão quando me ouvirem: “Bendito seja o Senhor no céu e na
terra! Grande e admirável é seu nome!
Tuas palavras, Senhor, tinham-me gravado profundamente em meu coração, e me via
cercado apenas por ti de todos os lados. Tinha certeza de tua vida eterna, embora apenas a visse
em enigma e como em espelho. Já fora dissolvida toda dúvida quanto à tua substância
incorruptível, ao saber que toda substância procedia dela. E o que desejava não era tanto estar
mais certo de ti, mas mais firme em ti.
Quanto à minha vida temporal, estava eu ainda vacilante, e era necessário que meu
coração se purificasse do velho fermento. O caminho certo, que é o próprio Salvador, me
encantava, mas titubeava ainda em caminhar por seus estreitos desfiladeiros.
Então me inspiraste a idéia – que me pareceu excelente – de me dirigir a Simpliciano, que
eu tinha como um de teus bons servidores, em quem brilhava tua graça. Sobre ele ouvira também
que desde sua juventude te consagrava devotamente sua vida, e como já encanecia, achei que
em tão longa vida, dedicada ao estudo de teus caminhos, teria acumulado grande experiência e
instrução; e de fato assim era. Por isso queria confiar-lhe minhas inquietações, para que me
apontasse o modo de vida mais idôneo de alguém, com minhas disposições interiores, seguir teu
caminho.
Vi tua Igreja cheia de fiéis que, por um caminho ou por outro, progrediam.
Quanto a mim, aborrecia-me a vida que levava no mundo, e era para mim fardo
pesadíssimo, agora que os apetites mundanos, como a esperança de honras e riquezas, já não
me animavam para suportar tão pesada servidão. Essas paixões haviam perdido para mim o
encanto, diante de tua doçura e da beleza de tua casa, que já amava. Mas sentia-me ainda
fortemente amarrado à mulher. Sem dúvida o Apóstolo não me proibia de casar, embora em seu
ardente desejo de ver todos os homens semelhantes a ele, exortasse a um estado mais elevado.
Mas eu, ainda muito fraco, escolhia a condição mais fácil; por isso, vivia hesitando em tudo o
mais, e me desgastava com preocupações enervantes, pois a vida conjugal, a que me julgava
destinado e obrigado, ter-me-ia obrigado a novas incumbências, que eu não queria suportar.
Ouvira da boca da própria Verdade que há eunucos que mutilavam a si próprios por amor
ao reino dos céus, embora acrescentando que o compreenda quem o puder compreender. São
vãos, por certo, todos os homens nos quais não reside a ciência de Deus, e que nas coisas
visíveis não puderam achar aquele que é. Mas eu já me livrara dessa vaidade, já a havia
ultrapassado, e pelo testemunho de tua criação, te encontrara a ti, nosso Criador, e a teu Verbo,
Deus em ti, e contigo um só Deus, por quem criaste todas as coisas.
Há ainda outra espécie de ímpios; os que, conhecendo a Deus, não o glorificam como
Deus, nem lhe renderam graças. Eu também tinha caído nesse pecado; mas tua destra me
amparou e libertou, colocando-me em lugar onde me pudesse curar; e disseste ao homem: Eis
que a piedade é a sabedoria. E ainda: Não queiras parecer sábio, porque os que se dizem sábios
tornaram-se insensatos.
Já havia encontrado, finalmente, a pérola preciosa, que devia comprar vendendo tudo o
que possuía. Mas ainda hesitava.
CAPÍTULO II
Visita a Simpliciano. Conversão de Vitorino
Fui ter pois com Simpliciano, pai espiritual do então bispo Ambrósio, que o amava
verdadeiramente como pai. Contei-lhe os labirintos do meu erro. E quando lhe disse que havia lido
alguns livros dos platônicos, traduzidos para o latim por Vitorino, outrora retórico em Roma – e do
qual ouvira dizer que morrera cristão – ele me felicitou por não ter caído nas obras de outros
filósofos, falazes e enganosas, segundo os elementos deste mundo, mas apenas estes, que
insinuam por mil modos a Deus e a seu Verbo.
Depois, para me exortar à humildade de Cristo, escondida aos sábios e revelada aos
humildes, evocou a lembrança do próprio Vitorino, que conhecera intimamente, quando estava em
Roma. Não guardarei silêncio sobre o que me contou dele, porque me dará azo de proclamar os
grandes louvores de tua graça a seu respeito. Esse erudito ancião, profundo conhecedor de todas
as ciências liberais, leitor e crítico de tantos livros de filosofia, fora mestres de muitos nobres
senadores. O prestígio de seu magistério lhe valera uma estátua no foro romano, que ele aceitara
(coisa que os cidadãos desse mundo têm em grande conta). Até aquela idade avançada, havia
adorado os ídolos, participando de cultos sacrílegos, de que participava quase toda a nobreza
romana da época que inspirava ao povo sua devoção por Osíris, por “toda sorte de monstros
divinizados, pelo labrador Anúbis”, monstros que outrora “pegaram em armas contra Netuno,
Vênus e Minerva”, e a quem, vencidos, a própria Roma dirigia súplicas, esse velho Vitorino, que
durante tantos anos havia defendido esses deuses com sua terrível eloqüência, não se
envergonhou de se tornar servo de teu Cristo e criança de tuas águas, dobrando o pescoço ao
jugo da humildade, e dobrando sua fronte ante o opróbrio da cruz.
Senhor, Senhor, que inclinaste os céus e o desceste, que tocaste os montes e estes
fumegaram, de que modo te insinuaste naquele coração?
Segundo contou-me Simpliciano, Vitorino lia as Escrituras e investigava e esquadrinhava
com grande curiosidade toda a literatura cristã, e confiava a Simpliciano, não em público, mas
muito em segredo e familiarmente: “Sabes que já sou cristão?” Ao que respondia aquele: “Não hei
de acreditar, nem te contarei entre os cristãos enquanto não te vir na Igreja de Cristo”. Mas ele ria
e dizia: “Serão pois as paredes que fazem os cristãos?” E isto, de que já era cristão, o dizia muitas
vezes, contestando-lhe Simpliciano outras tantas vezes com a mesma resposta, opondo-lhe
sempre Vitorino o gracejo das paredes.
Vitorino receava desgostar a seus amigos, os soberbos adoradores dos demônios,
julgando que estes, de alto de sua babilônica dignidade, como cedros do Líbano, ainda não
abatidos pelo Senhor, fariam cair sobre ele suas pesadas inimizades.
Mas depois que hauriu forças nas leituras e orações, temeu ser renegado por Cristo diante
de seus anjos, se tivesse medo de o confessar diante dos homens. Sentiu-se réu de um grande
crime por se envergonhar dos mistérios de humildade de teu Verbo, não se envergonhando do
culto sacrílego de demônios soberbos, que ele próprio aceitara como soberbo imitador;
envergonhou-se da vaidade, e enrubesceu diante da verdade. De repente, disse a Simpliciano,
segundo este mesmo contava: “Vamos à Igreja; quero me tornar cristão”. Simpliciano, não
cabendo em si de alegria, foi com ele. Recebidos os primeiros sacramentos da religião, não muito
depois, deu seu nome para receber o batismo que renegara, causando admiração em Roma e
alegria na Igreja. Viram-no os soberbos, e se iraram; rangiam os dentes e se consumiam de raiva.
Mas teu servo havia posto no Senhor Deus sua esperança, e não tinha mais olhos para as
vaidades e as enganosas loucuras.
Enfim, chegou a hora da profissão de fé. Em Roma, os que se preparam para receber tua
graça, pronunciam de um lugar elevado, diante dos fiei, formulas consagradas aprendidas de cor.
Os presbíteros, dizia-me Simpliciano, propuseram a Vitorino que recitasse a profissão de fé em
segredo, como era costume fazer com os que poderiam se perturbar pela timidez. Mas ele preferiu
confessar sua salvação na presença da plebe santa, uma vez que nenhuma salvação havia na
retórica que ensinara publicamente. Quanto menos, pois, devia temer diante de tua mansa grei
pronunciar tua palavra, ele que não havia temido as turbas insanas em seus discursos!
Assim, logo que subiu à tribuna para dar testemunho da sua fé, em uníssono, conforme o
iam conhecendo, todos repetiram seu nome como num aplauso – e quem ali não o conhecia? – e
um grito reprimido, saiu da boca de todos os que se alegravam: “Vitorino! Vitorino!” Ao verem-no,
se puseram a gritar de júbilo, mas logo emudeceram pelo desejo de ouvi-lo. Vitorino pronunciou
sua profissão de verdadeira fé com grande firmeza, e todos queriam raptá-lo para dentro de seus
corações. E realmente o fizeram: seu amor e alegria eram as mãos que o arrebatavam.
CAPÍTULO III
A alegria das coisas perdidas
Bom Deus, que se passa no homem para que se alegre mais com a salvação de uma alma
desesperada, quando salva de grande perigo, do que se ela sempre tivesse tido esperança, ou se
o perigo tivesse sido menor? Também tu, Pai misericordioso, sentes mais alegria por um pecador
arrependido do que por noventa e nove justos que não têm necessidade de penitência. Grande é
o nosso prazer ao falar da alegria do pastor trazendo de volta sobre os ombros a ovelha
desgarrada, e da mulher que repõe em teus tesouros, para satisfação geral dos vizinhos, a
dracma perdida. E nos arranca lágrimas a alegria das festas de tua casa quando lemos que teu
filho menor estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.
Tu te alegras em nós e em teus anjos, santificados pelo santo amor; pois és sempre o
mesmo, e conheces do mesmo modo e sempre as coisas que nem sempre existem, nem da
mesma maneira.
Mas, que se passa na alma, para que se alegre mais com as coisas que estima,
encontradas ou reavidas, do que se sempre as tivesse possuído? Na verdade, tudo o atesta, e há
inúmeros testemunhos que afirmam: “É assim mesmo!”
O general celebra o triunfo da vitória, e não teria vencido sem combate; e quanto mais foi
árdua a batalha, tanto maior é o gozo no triunfo.
A tempestade cai sobre os navegantes com ameaça de naufrágio. Todos empalidecem
diante da morte iminente. O céu e o mar se acalmam, é grande sua alegria, e nasce do muito que
temeram.
Adoece uma pessoa amiga: seu pulso revela um desfecho fatal. Todos os que desejam
sua cura sofrem com ela, por simpatia. Havendo melhora, embora ainda não recuperado o vigor
de outrora, já reina tal alegria como não existia antes, quando andava sadia e forte.
Até os prazeres da vida humana, não só compensam os homens de desgraças casuais e
involuntárias, mas também de moléstias premeditadas e desejadas. Não há prazer algum em
beber ou comer sem que haja antes o estímulo da sede ou da fome. Os ébrios costumam comer
antes alguma coisa salgada, que lhes cause sede ardente e que transformará em prazer quando
acalmada com a bebida. O costume quer que as esposas não sejam entregues imediatamente
aos maridos: o marido desprezaria a noiva se não tivesse que esperar e suspirar por ela.
Assim ocorre tanto na alegria torpe e vil, como na alegria lícita e permitida, na mais sincera
e honesta amizade, como na aventura daquele que estava morto e tornou a viver, que se havia
perdido e foi encontrado; em todos os casos uma alegria maior é precedida de uma dor também
maior.
Por que isto, Senhor, meu Deus, quando tu mesmo és tua própria alegria eterna, e as
criaturas à tua volta em ti se alegram? Por que esta parte do universo sofre as alternâncias de
progressos e quedas, de uniões e separações? Será este o modo de ser que lhe concedeste
quando, do mais alto dos céus até às profundezas da terra, desde o princípio dos tempos até o fim
dos séculos, desde o anjo até o pequenino verme, e desde o primeiro movimento até o último,
dispuseste todos os gêneros de bens e todas as tuas obras justas, cada uma em seu lugar e
tempo?
Ai de mim! Quão alto és nas alturas e quão profundo nos abismos! Jamais te afastas de
nós e, contudo, quanta dificuldade para voltar a ti!
CAPÍTULO IV
A conversão dos grandes
Vamos pois, Senhor, mãos à obra! Desperta-nos, chama-nos, inflama-nos, arrebata-nos;
derrama tuas doçuras, encanta-nos: amemos, corramos!
Não é verdade que muitos voltam a ti, saindo de um abismo de cegueira mais profundo
que o de Vitorino, e se aproximam de ti, e são iluminados pela tua luz, junto da qual recebem o
poder de se fazerem teus filhos?
Mas se estes são menos conhecidos pelo mundo dos homens, mesmo os que os
conhecem se alegram menos; mas quando a alegria é partilhada por muitos, ainda é maior em
cada um, porque se aquece e inflama de uns para os outros.
Ademais, os que são conhecidos de muitos, arrastam à salvação muitos outros, e
caminham adiante seguidos dos que os imitam. Por isso, grande é a alegria dos que os
precederam, por que não se regozijam só consigo.
Mas, longe de mim pensar que no teu tabernáculo são mais aceitos os ricos que os
pobres, e os nobres mais do que os plebeus, porque escolheste os fracos segundo o mundo para
confundir os fortes; o que é vil e desprezível segundo o mundo, a que não é nada, para aniquilar o
que é.
Contudo, o menor de teus apóstolos, por cuja boca pronunciaste essas palavras, quando
suas armas abateram o orgulhoso procônsul Paulo, sujeitando-o ao leve jugo de teu Cristo e
fizeram dele um súdito do grande Rei, quis, parar comemorar tão grande triunfo, mudar seu nome
de Saulo pelo de Paulo. De fato, o adversário é mais completamente vencido naquilo em que tinha
maior domínio e por meio do que retém maior número de sequazes. Ora, o inimigo domina com
mais força os soberbos pela nobreza de seu nome e, graças a estes, número maior pelo prestígio
de sua autoridade.
Assim, na medida em que o coração de Vitorino era tido como fortaleza inexpugnável
antes ocupada pelo demônio, e sua língua como dardo poderoso e agudo, que tantas vezes havia
dado a morte às almas, tanto mais copiosamente deviam exultar teus filhos, ao verem que nosso
Rei agrilhoara o forte, e que seus vasos roubados, eram agora purificados e destinados à tua
honra, convertendo-se em instrumentos úteis ao Senhor para toda obra boa.
CAPÍTULO V
As duas vontades
Mal teu servo Simpliciano me contou a conversão de Vitorino, ardi no desejo de imitá-lo;
aliás, era esta a finalidade da narração de Simpliciano. Depois acrescentou que nos tempos do
imperador Juliano, uma lei proibia aos cristãos ensinar literatura e oratória, e Vitorino, dócil à lei,
preferiu abandonar a escola de palradores a abandonar teu Verbo, que torna eloqüentes as
línguas dos meninos. Não só me pareceu corajoso como afortunado, por ter encontrado ocasião
de se consagrar por ti. Por isso eu suspirava, acorrentado não com os ferros de uma vontade
estranha, mas por minha férrea vontade.
O inimigo dominava meu querer, e dele forjava uma corrente com a qual me mantinha
cativo. Da vontade perversa nasce a paixão, e desta satisfeita procede o hábito, e do hábito não
contrariado provém a necessidade, e com estes anéis enlaçados entre si – por isso lhes chamei
corrente – me mantinha preso em dura servidão. A nova vontade, que despontava em mim, de te
servir sem interesse, de me alegrar em ti, ó meu Deus, única alegria verdadeira, ainda não era
capaz de vencer a vontade antiga e inveterada. Deste modo minhas duas vontades, a velha e a
nova, a carnal e a espiritual, lutavam entre si e, nessa luta, dilaceravam-me a alma.
Entendi, por experiência própria, o que havia lido: a carne tem desejos contra o espírito, e
o espírito contra a carne. Eu vivia ao mesmo tempo a ambos, embora mais o que aprovava em
mim do que o que em mim desaprovava. Com efeito, nesta última parte de mim eu era passivo e
constrangido, mais do que ativo e livre.
E,contudo, o hábito que se impunha contra mim vinha de mim mesmo, pois fora
voluntariamente que eu chegara onde não queria. E quem poderia protestar legitimamente, se um
castigo justo segue o pecador?
Eu já não tinha aquela desculpa, com a qual persuadia-me de que, se ainda não
desprezava o mundo para te servir, era porque não tinha visão clara da verdade, uma vez que
agora já a conhecia de modo indiscutível. Mas, ainda apegado à terra, recusava-me a combater
em tuas fileiras, e temia ver-me livre dos meus laços, quando devia temer estar por eles atado.
Assim, sentia-me docemente oprimido pelo peso do mundo, como em um sonho, e os
pensamentos com que meditava em ti eram semelhantes aos esforços dos que desejam
despertar, mas, vencidos pela sonolência, voltam dormir. Não há ninguém que queira dormir
sempre, e segundo dita o bom senso, é melhor estar desperto que dormir. Contudo, às vezes
retarda-se o despertar, quando o torpor torna os membros pesados, e, mesmo a contragosto,
continua-se a dormir mesmo depois de chegada a hora de despertar. Assim eu estava certo que
era melhor entregar-me a teu amor que ceder à minha paixão. O primeiro me agradava, me
dominava; o segundo me encantava, me prendia.
Já não tinha o que responder quando me dizias: “Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de
entre os mortos, e Cristo te há de iluminar”. E quando por todos os meios me mostrava a verdade
do que dizias, e de que eu estava convencido, não tinha absolutamente nada para responder,
senão umas palavras preguiçosas e sonolentas: Um momento… Depois… Um pouquinho mais…
Mas este pouquinho não tinha fim, e este momento se ia prolongando.
Em vão me deleitava em tua lei, segundo o homem interior, porque em meus membros
outra lei combatia a lei de meu espírito, mantendo-me cativo sob a lei do pecado que estavas em
meus membros. Com efeito, a lei do pecado é a violência do hábito, pelo qual a alma é arrastada
e presa, mesmo contra sua vontade, merecidamente porém, pois se deixa arrastar por vontade
própria. Pobre de mim! Quem poderia libertar-me deste corpo de morte senão tua graça, por
Cristo, nosso Senhor?
CAPÍTULO VI
A narração de Ponticiano
Agora contarei de que modo me arrancaste do vínculo do desejo carnal, que me prendia
fortemente, e da servidão dos negócios do mundo, e confessarei teu nome, ó Senhor, meu auxílio
e minha redenção. Levava minha vida habitual com angústia crescente; todos os dias suspirava
por ti, freqüentava tua igreja, quando me deixavam livre os negócios, cujo peso me fazia sofrer.
Comigo estava Alípio, desonerado do cargo de jurisconsulto, depois de ter sido assessor
pela terceira vez. Ele aguardava a quem vender de novo seus conselhos, como eu vendia arte da
eloqüência, se é que pelo ensino a podemos transmitir.
Nebrídio, por sua vez, acendendo às nossas solicitações amigas, auxiliava na escola a
nossa amigo íntimo, Verecundo; este, gramático e cidadão milanês, desejava enormemente, e nos
instava em nome da amizade, que um de nós lhe prestasse uma fiel colaboração, pois dela muito
necessitava.
Não foi, pois, o interesse que moveu a Nebrídio – que poderia auferir bem mais vantagens
se ensinasse as letras – mas, como grande amigo que era, não quis recusar nosso pedido em
obsequio à amizade. Agia, porém, com muita prudência, evitando fazer-se conhecido dos
poderosos deste mundo, para evitar as inquietações do espírito que ele queria manter o mais
possível livre e desocupado para investigar, ler ou ouvir algo sobre a sabedoria.
Certo dia em que Nebrídio estava ausente, não sei por que motivo, Alípio e eu recebemos
a visita de um tal Ponticiano, nosso compatriota da África, que servia em alto cargo do palácio.
Não sei mais o que queria de nós.
Sentamo-nos para conversar, e, por acaso, deu com os olhos em um livro que estava
sobre a mesa de jogo, à nossa frente. Pegou-o, abriu-o, viu que eram as epístolas de Paulo e
ficou surpreso, pois pensava que se tratasse de algum dos livros cujo estudo me preocupava.
Então sorriu para mim e, cumprimentando-me, manifestou-me sua admiração por ter encontrado
aquele livro, e só aquele, ao alcance dos meus olhos. Ponticiano era um cristão fiel, e muitas
vezes prostrava-se diante de ti, nosso Deus, na igreja, em freqüentes e prolongadas orações.
E quando lhe declarei que aquele livro ocupava o melhor de minha atenção, tomando a
palavra, começou a falar-nos de Antão, monge do Egito, cujo nome era celebrado entre teus fiéis,
mas que nós desconhecíamos até aquela hora. Informado disto, continuou a falar, revelando esse
grande homem à nossa ignorância, que ele muito admirou.
Ouvíamos, estupefatos, tuas autenticas maravilhas, realizadas na verdadeira fé, na Igreja
Católica, tão recentes e quase contemporâneas. Todos nos admirávamos; nós, por serem coisas
tão grandes; e ele, por ser-nos tão desconhecidas.
Depois, passou a falar das multidões que vivem em mosteiros, e de seus costumes, que
trazem teu doce perfume, e da fecunda solidão do ermo, coisas todas que desconhecíamos.
Até em Milão havia, fora dos muros, um mosteiro cheio de bons irmãos sob a direção de
Ambrósio, que também desconhecíamos.
Ponticiano prosseguia, e falava sempre mais, e nós o ouvíamos atentos e calados. E assim
veio a nos contar que um dia, não sei quando, estando em Tréveris, saiu em companhia de três
companheiros, enquanto o imperador se concentrava nos jogos circenses da tarde, para dar um
passeio pelos jardins que rodeavam os muros da cidade. Distraidamente passeando dois a dois,
um com Ponticiano, e os outros dois juntos, separaram-se e tomaram caminhos diferentes.
Caminhando a esmo, estes últimos deram com uma cabana, habitada por alguns servos
teus, pobres de espírito, a quem pertence o reino dos céus. Lá encontraram um exemplar
manuscrito da Vida de Santo Antão. Um deles começou a lê-lo, e, admirado e arrebatado cogitou,
enquanto lia, em abraçar aquele gênero de vida, abandonando o serviço do mundo, para servir
unicamente a ti.
Estes dois eram os chamados agentes de negócios do imperador. De repente, tomado de
amor santo e casto pudor, irado consigo mesmo, olha para o companheiro, e lhe diz: “Dize-me, te
peço, onde pretendemos chegar com todos estes nossos trabalhos? Que buscamos? Qual a
finalidade do nosso labor? Podemos aspirar mais no palácio do que ser amigos do imperador? E
mesmo nisto, quanta incerteza, quantos perigos! E quantos perigos teremos de passar para
chegar a um perigo ainda maior? E quando chegaremos a isso? Mas, se eu quiser ser amigo de
Deus, posso sê-lo agora mesmo”. Disse essas palavras, e exaltado pela gestação da nova vida
voltou os olhos para o livro; ao ler, transformava-se interiormente, o que só tu sabias, e seu
espírito se despia do mundo, como logo se evidenciou.
Enquanto lia, o coração se lhe tornou um mar tempestuoso, sentiu um estremecimento e,
intuindo o melhor caminho a tomar, resolveu abraçá-lo, dizendo ao amigo:
“Já rompi com nossos sonhos: decidi dedicar-me ao serviço de Deus, e isso quero
começar aqui e agora. Se não me queres imitar, ao menos não me contraries”.
O amigo respondeu que desejava ficar com ele, e ser companheiro de tão nobre mercê e
de tão grande combate. Ambos já te pertenciam, e começavam a construir, com capital suficiente,
uma torre de salvação, a tudo renunciando para te seguir.
Então Ponticiano e seu companheiro, que passeavam em outro local do jardim,
procurando-os, deram também com a mesma cabana, e os avisaram para que voltassem, pois já
entardecia. Mas eles, relataram-lhes sua determinação e propósito, e o modo como nascera e se
fixara neles tal desejo, pediram-lhes que, se não quisessem juntar-se a eles, que não os
molestassem. Mas estes, sem se converterem, lamentaram a si mesmos, no dizer de Ponticiano,
e felicitando-os piedosamente, recomendaram-se às suas orações; depois, arrastando o coração
pela terra, voltaram ao palácio, enquanto que os convertidos, fixando seu coração no céu, ficaram
na cabana.
Ambos eram noivos; mas, quando suas noivas ouviram o sucedido, também te
consagraram sua virgindade.
CAPÍTULO VII
A reação de Agostinho
Eis o que Ponticiano nos relatou. E tu, Senhor, enquanto ele falava, me fazias refletir,
tirando-me da posição de costas, em que me colocara para não me ver a mim mesmo. Tu me
colocavas diante de meu próprio rosto para que visse como estava indigno, disforme, sórdido,
manchado e ulceroso.
Eu me via, e enchia-me de horror, mas não tinha para onde fugir de mim mesmo. Se
tentava afastar o olhar de mim mesmo, Ponticiano prosseguia com a narração, e de novo me
punhas diante de mim, e me empurravas diante de meus olhos, para que eu descobrisse minha
iniqüidade e a odiasse. Eu bem a conhecia, mas a dissimulava, fingia não ver, esquecia.
E quanto mais ardentemente amava aqueles jovens, cuja salutar decisão ouvia relatar, por
se terem entregue completamente a ti para que os curasses, tanto mais acerbamente me odiava
ao me comparar com eles. Com efeito, já tinham decorrido muitos anos – talvez uns doze – desde
que, ao dezenove anos, lendo o Hortênsio de Cícero, sentira-me atraído para o estudo da
sabedoria. Ia adiando a hora de abandonar a felicidade meramente terrena, quando não somente
a sua descoberta, mas a sua própria busca, deveria ser preferida aos maiores tesouros do mundo
e aos maiores prazeres corporais, que a um aceno, afluíam a meu redor.
Mas eu, jovem miserável, sim, miserável desde o despertar da juventude, já te havia
pedido a castidade, dizendo: “Dá-me castidade e continência, mas não agora” – pois temia que
me atendesse muito depressa, e que me curasses logo da doença de minha concupiscência, que
eu mais queria saciar do que extinguir. E caminhei pelas sendas ruins de uma superstição
sacrílega, não porque estivesse certo dela, mas porque a preferia às demais doutrinas, que eu
não estudava piedosamente, mas que hostilmente combatia.
Acreditava que o motivo por que adiava dia a dia o desprezo das promessas seculares,
para seguir apenas a ti, era o não ter descoberto uma claridade capaz de dirigir meus passos.
Veio, então, o dia em que me vi nu, a ouvir as repreensões de minha consciência: “Onde está a
tua palavra? Não dizias que tua indecisão para lançar longe o fardo de tua vaidade se devia à
incerteza? Agora tens a certeza, e não obstante, ainda te oprime esse fardo; outros, no entanto,
que não se consumiram tanto em procurá-la, nem meditaram dez anos ou mais sobre tais
problemas, vêem nascer asas em seus ombros mais livres”.
Assim me roia interiormente, devorado por enorme e terrível vergonha, enquanto
Ponticiano contava aquilo tudo. Finda a conversa, e resolvida a questão a que viera, Ponticiano
voltou para sua casa, e eu para dentro de mim. Que coisas não disse contra mim? Com que
açoite de palavras não flagelei minha alma, para obrigá-la a me seguir em meus esforços para te
alcançar! Ela resistia, recusava-se, sem se desculpar. Todos os argumentos já estavam
esgotados e refutados. Nada lhe restava, senão uma angústia muda: tinha medo, como da morte,
de ser tolhida à corrente do vício, onde se corrompia mortalmente.
CAPÍTULO VIII
Luta espiritual
Então, em meio àquela luta interior que eu travava violentamente contra mim mesmo no
recesso do meu coração, perturbado no rosto e no espírito, volto-me para Alípio exclamando:
“Que tanto nos aflige? O que significa isto que ouviste? Levantam-se os ignorantes e arrebatam o
céu, e nós, com todo nosso saber insensato, nos revolvemos na carne e no sangue! Acaso temos
vergonha de segui-los porque se nos adiantaram, e não temos vergonha de não os seguir?”
Foi mais ou menos o que eu lhe disse, e dele me afastei sob forte emoção. Alípio me
olhava atônito em silêncio. Eu não falava como de costume, e muito mais que as palavras, minha
fronte, minhas fazes, meus olhos, minha cor e o tom de minha voz denunciavam meu estado de
espírito.
Nossa casa tinha um pequeno jardim, que usávamos, assim como o restante da casa, que
nosso hóspede não habitava. Para ali me levara a tormenta de meu coração, onde ninguém
pudesse interferir no ardente combate que eu travava comigo mesmo, até que se resolvesse o
assunto conforme tu sabias e eu ignorava. Mas eu delirava para reencontrar a razão, e morria
para reviver; conhecia meu mal, mas desconhecia o bem que depois haveria de sobrevir.
Retirei-me, pois, para o jardim, e Alípio seguiu-me passo a passo; mas, apesar de sua
presença, eu não estava menos só. E como haveria ele de me deixar naquele estado? Sentamonos
o mais longe possível da casa. Eu tremia pela violenta indignação, me enraivecia por não
poder seguir teu agrado e aliança, ó meu Deus, aliança pela qual clamavam todos os meus ossos,
que te elevavam louvores até o céu. E para ir a ti não há necessidade de navios nem de carros,
nem mesmo de dar aqueles poucos passos que separavam a casa do jardim onde estávamos.
Não somente ir, mas chegar junto de ti, nada mais é do que querer ir, mas com querer enérgico e
pleno, e não com vontade tíbia, que se dispersa em todos os sentidos, e se agita incerta, dividida,
ora levantando-se, ora voltando a cair.
Enfim, naquela angustiante hesitação, fazia mil gestos, como soem fazer os homens que
querem e não podem, ou porque não têm membros, ou porque os têm atados em cadeias,
debilitados pela fraqueza ou paralisados de qualquer outro modo. Se puxei os cabelos, se feri a
fronte, se apertei os joelhos entre os dedos entrelaçados, eu o fiz porque quis. Poderia porém
querer fazê-lo e não o fazer, se a flexibilidade de meus membros não me obedecesse. Portanto,
fiz muitas coisas, nas quais o querer não era o mesmo que o poder.
Contudo, eu não fazia aquilo que desejava acima de tudo o mais, e que eu poderia fazer
desde que o quisesse, porque se o tivesse efetivamente querido, bastava que o quisesse
sinceramente; nisto o poder é o mesmo que o querer, e querer já seria agir.
Contudo não o fazia, e meu corpo obedecia mais facilmente ao mais leve comando de
minha alma, movendo os membros segundo sua vontade, do que a própria alma obedecer a si
mesma para realizar seu grande desejo com a vontade.
CAPÍTULO XI
A desobediência da vontade
Mas, de onde vinha este prodígio? Qual sua causa? Brilhe a tua misericórdia, e perguntarei
– se é que me podem responder – aos sombrios castigos infligidos aos homens, e às tenebrosas
misérias dos filhos de Adão. De onde vem este prodígio? E qual sua causa?
A alma dá ordens ao corpo, e este obedece imediatamente; a alma dá ordens a si mesma,
e resiste. Ordena a alma à mão que se mova, e é tal sua presteza, que mal se pode distinguir a
ordem da execução; não obstante, a alma é espírito e a mão é corpo. A alma dá a si mesma a
ordem de querer, uma não se distingue da outra, e contudo, ela não obedece. De onde este
prodígio? E qual sua causa?
Manda a alma que queira – e não mandaria se não quisesse – e, não obstante, não faz o
que manda. Logo, não quer totalmente, e por isso não manda de modo total. A alma manda na
proporção do querer, e enquanto não quiser, suas ordens não são executadas, porque é a
vontade que dá a ordem de ser a uma vontade que nada mais é que ela própria. Logo, não manda
plenamente, e esta é a razão por que não faz o que manda. Porque, se estivesse em sua
plenitude, não mandaria que fosse, porque já seria.
Não há, portanto, prodígio algum em querer em parte e em parte não querer; é uma
enfermidade da alma. esta, sustentada pela verdade, não se ergue de todo, pois está oprimida
pelo peso do hábito. Há, portanto, duas vontades, ambas incompletas, e o que uma possui falta à
outra.
CAPÍTULO X
Contra os maniqueus
Desapareçam de tua presença, ó meu Deus, como os vãos faladores e sedutores do
espírito, aqueles que, ao observarem a dupla deliberação da vontade, concluem que temos duas
almas de naturezas opostas, uma boa, outra má.
Eles é que são de fato maus, que seguem tais más doutrinas; somente serão bons quando
aceitarem a verdade, concordando com os que a possuem. E assim o Apóstolo poderá dizer
deles: Outrora fostes trevas, mas agora sois luz no Senhor. Mas esses, querendo ser luz não no
Senhor, mas em si mesmos, julgam que a natureza da alma á a mesma que a de Deus; vão-se
tornando trevas ainda mais densas, pois em sua terrível arrogância se afastam ainda mais de ti,
luz verdadeira, que ilumina a todo homem que vem a este mundo. Atentai para o que dizeis, e
enchei-vos de vergonha. Aproximai-vos dele, e sereis iluminados, e vossos rostos não serão
cobertos de confusão.
Quando eu deliberava dedicar-me ao serviço do Senhor meu Deus, como de há muito me
tinha proposto, eu era o que eu queria, e lera o que eu não queria. Mas, nem queria plenamente,
nem deixar de querer por completo. Por isso lutava comigo mesmo, e me dilacerava a mim
mesmo. Essa destruição, embora involuntária, não mostrava, contudo, a presença em mim de
uma alma estranha, mas apenas o castigo de minha alma. E por isso já não era eu quem mo
infligia, mas o pecado que habitava em mim, como castigo de pecado cometido livremente, por ser
eu filho de Adão.
Com efeito, se fossem tantas as naturezas contrárias quantas são as vontades que em nós
se contradizem, não deveríamos admitir apenas duas naturezas, mas muitas. Se alguém, com
efeito, hesita entre uma reunião dos maniqueístas ou ao teatro, logo eles exclamam: “Eis aí as
duas naturezas, uma boa, que o atrai para cá, e outra má, que o arrasta pra lá. E de onde mais
viria essa hesitação de vontades opostas?”
De minha parte eu digo que ambas são más, tanto a que leva a eles como a que arrasta ao
teatro; mas eles só julgam boa a que leva até eles.
Mas, suponhamos que um dos nossos queira decidir, e conflitando as duas vontades,
titubeie entre ir ao teatro ou à nossa igreja; não ficarão indecisos os maniqueístas na resposta que
hão de dar? Porque, ou hão de confessar o que não querem, que é boa a vontade que o leva à
nossa igreja, como vão a ela os que foram iniciados em seus mistérios e lhe permanecem fiéis, ou
terão de reconhecer que num mesmo homem lutam duas naturezas más e duas almas más. E
então terão de contradizer o que afirmam, que uma natureza é boa e outra má. Ou então terão de
aceitar a verdade e, neste caso, não negarão que, quando alguém escolhe, é uma mesma alma a
que hesita entre duas vontades opostas.
Portanto, quando virem duas vontades que se contrapõem ao mesmo homem, não falem
mais de luta entre duas almas contrárias, uma boa e outra má, originadas em duas substâncias
antagônicas. Porque tu, ó Deus verdadeiro, os confundes, como no caso em que ambas as
vontades são más; por exemplo, quando alguém hesita, entre matar a outrem com um punhal ou
veneno; entre assaltar esta ou aquela propriedade alheia, quando não pode assaltar a ambas;
entre esbanjar na compra do prazer da luxúria, ou guardar dinheiro por avareza; entre ir ao circo
ou ao teatro, quando ambos sejam concomitantes; e ainda acrescento uma terceira incerteza:
entre roubar ou não a casa do próximo, em havendo a oportunidade, ou ainda, acrescento uma
quarta hipótese: entre cometer ou não adultério, se tem possibilidade para isso. Suponhamos que
todas essas circunstâncias ocorram simultaneamente; como todas são igualmente desejadas, e
irrealizáveis ao mesmo tempo, a alma será dilacerada por um conflito entre quatro vontades, ou
mais ainda, tão numerosos são os objetos de desejo! Contudo, os maniqueus não afirmam que
existe tão grande número de substâncias diferentes.
O mesmo acontece com as vontades boas. Se eu lhes pergunto se é bom deleitar-se com
a leitura do Apóstolo, com a leitura de algum salmo espiritual, ou com o comentar do Evangelho,
eles responderão a cada questão: “É bom” – Ora, se as três atividades têm a mesma atração
simultaneamente, não teríamos vontades opostas a dividir o coração do homem, enquanto
escolhe qual delas abraçar de preferência?
Todas essas vontades são boas, e lutam entre si, até que se tome uma decisão, que
unifique a vontade, antes dividida. Assim também, quando a eternidade agrada à nossa parte
superior e o bem temporal nos prende fortemente cá embaixo: é a mesma alma que, sem uma
vontade plena, quer um e outro desses bens. Por isso, dilacera-a uma grande dor; a verdade nos
faz preferir a eternidade, mas o hábito não quer abandonar os bens temporais.
CAPÍTULO XI
Últimas resistências
Assim sofria e me atormentava, com acusações mais acerbas que de costume, rolando-me
e debatendo-me dentro de minha cadeias, para ver se as quebrava por completo. Elas mal me
prendiam,mas ainda me prendiam. E tu, Senhor, me espicaçavas no fundo de minha alma, e com
severa misericórdia redobravas os açoites do temor e da vergonha, para que eu não afrouxasse
de novo, e para que quebrasse minha tênue e leve cadeia, antes que ela se revigorasse para me
prender mais firmemente.
E dizia comigo mesmo: “Vamos! Mãos à obra, sem demoras!” E quase passava da palavra
à ação. Estava a ponto de agir, mas não agia. Eu já não recaía nas antigas paixões, mas delas
estava bem próximo, e tomava ainda alento de seu ar. Quase a alcançava, faltava pouco, cada
vez menos, e já quase chegava ao termo e a segurava; mas não a alcançava, nem a tocava;
hesitava entre morrer para a morte e viver para a vida. O mal arraigado dominava-me mais do que
o bem, cujo hábito eu não possuía; na medida que ia se aproximando o momento em que me
transformaria em outro homem, maior era o horror que me incutia, sem contudo me fazer voltar
para trás ou mudar de caminho. Simplesmente mantinha-me indeciso.
Mantinham-me preso umas tantas bagatelas, umas vaidades de vaidades, antigas amigas
minhas, que me puxavam por minhas vestes carnais, murmurando: “Então, nos abandonas? De
agora em diante nunca mais estaremos contigo? Desde este momento nunca mais te será lícito
isto ou aquilo?”
E que coisas, meu Deus, que torpezas me sugeriam com o que chamei de isto ou aquilo!
Por tua misericórdia, afasta-as da alma de teu servo! Oh! Que imundícies me sugeriam, que
indecências! Já se reduzira a menos da metade o número de vezes que eu lhes dava ouvidos;
não era mais um assalto aberto, frontal, mas segredado por cima dos ombros, e como que
puxando-me furtivamente, se me afastava, para que me voltasse para trás.
Contudo, faziam com que eu, vacilante, tardasse em me separar delas para correr para
onde me chamavam, enquanto o hábito violento me dizia: “Julgas que poderás viver sem elas?”
Mas isto já dizia com voz muito débil. Para onde voltava o rosto, e por onde temia passar,
mostrava-se para mim a casta dignidade da continência, serena e alegre, sem desordens,
acariciando-me honestamente para que me aproximasse sem medo. Estendia para mim, para me
acolher e abraçar, suas mãos piedosas, cheias de uma multidão de bons exemplos.
Junto dela, uma turba de meninos e meninas, uma juventude numerosa, e homens de toda
idade, viúvas veneráveis e virgens idosas. Em todas essas almas, não era estéril, mas fecunda a
mãe de filhos nascidos nas alegrias do esposo, que eras tu, Senhor!
E a continência zombava de mim com ironia animadora, como se dissesse: “Então, não
serás capaz de fazer o mesmo que eles? Ou será que estes e estas encontraram forças em si
mesmos, e não no Senhor, seu Deus? Foi o Senhor Deus, quem me entregou a eles. Por que te
apóias em ti, se és vacilante? Lança-te nele, não temas, que ele não se apartará de ti, e tu não
cairás. Lança-te com confiança, que ele te receberá e te curará.”
E enchia-me de vergonha por ainda ouvir o murmúrio daquelas bagatelas e, vacilante,
continuava indeciso.
Mas de novo a voz da castidade parecia me dizer: Não dês ouvidos às tentações imundas
da tua carne impura que te prende à terra, a fim de que seja mortificada. Ela te fala de deleites,
contrários porém, à lei do Senhor teu Deus.
Essa luta se desenrolava no fundo do meu espírito, de mim contra mim mesmo. Alípio,
sem sair de perto de mim, aguardava em silêncio o desfecho de minha insólita agitação.
CAPÍTULO XII
A conversão
Mas logo que esta profunda reflexão tirou da profundeza de minha alma, e expôs toda
minha miséria à vista de meu coração, caiu sobre mim enorme tormenta, trazendo copiosa
torrente de lágrimas. E para dar-lhe toda vazão com seus gemidos, afastei-me de Alípio; a solidão
parecia-me mais adequada e me afastei o mais longe possível, para que sua presença não me
fosse embaraçosa. Tal era o estado em que encontrava, e Alípio percebeu-o, pois lhe disse
alguma coisa com um timbre de voz embargado de lágrimas que me denunciou.
Alípio, atônito, continuou no lugar em que estávamos sentados; mas eu, não sei como, me
retirei para a sombra de uma figueira, e dei vazão às lágrimas; e dois rios brotaram de meus
olhos, sacrifício agradável a teu coração. E embora não com estes termos, mas com o mesmo
sentido, muitas coisas te disse como esta: E tu, Senhor, até quando? Até quando, Senhor, hás de
estar irritado! Esquece-te de minhas iniqüidades passadas! Sentia-me ainda preso a elas, e
gemia, e lamentava: “Até quando? Até quando direi amanhã, amanhã? Por que não agora? Por
que não pôr fim agora às minhas torpezas?”
Assim falava, e chorava oprimido pela mais amarga dor do meu coração. Mas eis que, de
repente, ouço da casa vizinha uma voz, de menino ou menina, não sei, que cantava e repetia
muitas vezes: “Toma e lê, toma e lê”.
E logo, mudando de semblante, comecei a buscar, com toda a atenção em minhas
lembranças se porventura esta cantiga fazia parte de um jogo que as crianças costumassem
cantarolar; mas não me lembrava de tê-la ouvido antes. Reprimindo o ímpeto das lágrimas,
levantei-me. Uma só interpretação me ocorreu: a vontade divina mandava-me abrir o livro e ler o
primeiro capitulo que encontrasse.
Tinha ouvido dizer que Antão, assistindo por acaso a uma leitura do Evangelho, tomara
para si esta advertência: “Vai, vende tudo o que tens, dá-lo aos pobres, e terás um tesouro no
céu; depois vem e segue-me” – e que esse oráculo decidira imediatamente sua conversão.
Depressa voltei para o lugar onde Alípio estava sentado, e onde eu deixara o livro do
Apóstolo ao me levantar. Peguei-o, abri-o, e li em silêncio o primeiro capítulo que me caiu sob os
olhos: “Não caminheis em glutonarias e embriaguez, não nos prazeres impuros do leito e em
leviandades, não em contendas e rixas; mas revesti-vos de nosso Senhor Jesus Cristo, e não
cuideis de satisfazer os desejos da carne”.
Não quis ler mais, nem era necessário. Quando cheguei ao fim da frase, uma espécie de
luz de certeza se insinuou em meu coração, dissipando todas as trevas de dúvida.
Então, marcando com o dedo, ou não sei com que, fechei o livro, e com o rosto já
tranqüilo, revelei a Alípio o que se passara. Ele, por sua vez, me revelou o que acontecera com
ele, e que eu ignorava. Pediu para ver o que eu tinha lido; mostrei-lhe, ele prosseguiu a leitura. Eu
ignorava o texto seguinte, que era este: Recebei ao fraco na fé, palavras que aplicou a si mesmo,
e mo revelou. Fortificado por essa advertência, firmou-se nessa resolução e santo propósito, bem
de acordo com seus costumes, nos quais já há muito tempo tomara grande vantagem sobre mim.
Fomos depois à procura de minha mãe, que ao saber do sucedido, ficou radiante.
Contamo-lhe como o caso se passara; ela exultou, triunfante e bendizendo a ti, que és poderoso
para dar-nos mais do que pedimos ou entendemos, porque via que lhe havias concedido, a meu
respeito, muito mais do que constantemente te pedia com tristes gemidos e lágrimas.
De tal forma me converteste a ti, que já não procurava esposa, nem abrigava esperança
alguma deste mundo, mas estava já naquela “regra de fé” em que há tantos anos me havias
mostrado à minha mãe. E assim converteste seu pranto em alegria, muito mais fecunda do que
havia desejado, e muito mais preciosa e pura do que a que podia esperar dos netos nascidos de
minha carne.
LIVRO NONO
CAPÍTULO I
Colóquio
Ó Senhor, sou teu servo e filho de tua serva. Rompeste minhas cadeias: eu te sacrificarei
uma vítima de louvor. Louvem-te meu coração e minha língua, e que todos os meus ossos te
digam: Senhor, quem semelhante a ti? Que eles te digam essas palavras e que me respondas e
digas à minha alma: Eu sou tua salvação.
Quem sou eu, e como era? Que males não tive em minhas obras, ou, se não em minhas
obras, em minhas palavras, ou, se não em minhas palavras, em minha vontade! Mas tu, Senhor,
bom e misericordioso, puseste os olhos na profundeza de minha morte, e purificaste com tua
destra o abismo de corrupção de minha alma. Tratava-se agora apenas de não querer o que eu
queria, e de querer o que tu querias.
Mas, onde esteve meu livre arbítrio durante tantos anos? De que profundo e misterioso
abismo foi ele chamado num instante, para que eu inclinasse a cerviz a teu jugo suave e o ombro
a teu leve fardo, ó Cristo Jesus, meu auxílio e redenção?
Quão suave foi para mim a privação de doçuras fúteis! Temia então perdê-las, como agora
sentia prazer em deixa-las! Porque tu se afastavas de mim, e entravas em seu lugar, mais doce
que qualquer prazer, mas não para a carne e o sangue; mais claro que toda luz, mais oculto que
qualquer segredo; mais sublime que todas as honras, mas não para os que exaltam a si mesmos.
Minha alma já estava livre dos devoradores cuidados da ambição, do ganho, e do prurido dos
apetites carnais; e falava muito comigo, ó Deus e Senhor meu, minha luz, minha riqueza, minha
salvação!
CAPÍTULO II
Adeus ao magistério
Pareceu-me de bom alvitre, em tua presença, não abandonar de modo ostensivo o
ministério da minha língua, mas retirá-lo suavemente do mercado da loquacidade, para que dali
por diante os jovens, que não se preocupam com tua lei ou paz, mas com as enganosas loucuras
e contendas forenses, não comprassem de minha boca armas para seu furor. Felizmente faltavam
pouquíssimos dias para as férias das vindimas (é provável que as férias de outono dos estudantes
coincidissem com as férias dos tribunais, que se iniciavam em 22 de agosto, e terminavam em 15
de outubro). Decidi suportá-los até lá. Então me retiraria como de costume, e, resgatado por ti,
não tornaria mais a vender meu ofícios.
Esta minha determinação, te era conhecida; dos homens, só a conheciam os de minha
intimidade. E, mesmo assim, tínhamos combinado de nada deixar transpirar. Contudo, quando
subíamos do vale de lágrimas, cantando o cântico gradual (série de salmos cantados pelos
peregrinos que sobem os degraus do templo de Jerusalém) nos tinhas dado setas agudas e
carvões destruidores contra a língua pérfida que contradiz, sob o pretexto de aconselhar e, como
quem se alimenta, consome o que ama.
Tinhas alvejado nosso coração com as setas do teu amor, e levávamos tuas palavras
cravadas em nossas entranhas; os exemplos de teus servos, que das trevas trouxeram para a luz,
e da morte para a vida, ardiam no fundo de nosso espírito em uma espécie de fogueira, que
inflamava e consumia nosso torpor, para que não mais nos inclinássemos para as baixezas.
Estávamos inflamados de tal ardor, que o vento da contradição das línguas dolosas não nos
apagaria, antes fazia-nos arder mais e mais.
Contudo, por causa de teu nome, que santificaste em toda terra, nossa decisão e propósito
teriam também quem os louvasse. Pareceria de certo modo jactância não aguardar as férias tão
próximas; abandonar antes dessa data uma profissão pública, e exposta a todos, seria atrair sobre
minha conduta todas as atenções, provocando comentários. Diriam que eu me adiantara às férias
iminentes por querer parecer grande personagem. E de que me valeria que pensassem ou
discutissem sobre minhas intenções, blasfemando sobre o meu bem?
Além disso, nesse mesmo verão, devido ao excessivo trabalho didático, meus pulmões
começaram a se ressentir; respirava com dificuldade, e as dores no peito e minha voz, que não
saía clara ou prolongada, revelavam uma lesão. A princípio me senti angustiado, vendo-me quase
obrigado a abandonar o fardo do magistério ou, para me curar e convalescer, teria certamente de
o interromper. Mas, quando nasceu em mim e se firmou a vontade plena de repousar e de ver que
és o Senhor, então, tu o sabes meu Deus, que cheguei a me alegrar de encontrar esta desculpa
verdadeira para moderar o sentimento das famílias, que por causa de seus filhos nunca me
permitiram ser livre.
Cheio dessa consolação, esperava que escoasse aquele tempo – talvez uns vinte dias.
Mas minguara minha coragem, porque já me abandonara a cobiça de ganho, que me ajudava a
carregar este pesado encargo; e teria sucumbido se a paciência não tomasse o lugar da ambição.
Talvez alguns de teus servos, meus irmãos, dirá que pequei nisso porque, estando com o
coração já cheio de desejos de te servir, consenti ficar mais uma hora sentado na cátedra da
mentira. Não discutirei. Mas tu, Senhor misericordiosíssimo, acaso não me perdoaste e resgataste
também este pecado, junto com todos os demais horrendos e mortais na água santa do batismo?
CAPÍTULO III
Dois amigos
Angustiava-se Verecundo por este nosso bem, porque se via afastado de nossa
companhia pelos vínculos matrimoniais que o aprisionavam fortemente. Não era ainda cristão,
como sua mulher, mas justamente nela encontrava o maior obstáculo que o impedia de entrar
pelo caminho que havíamos começado a trilhar; não queria ser cristão, dizia ele, senão do modo
que justamente lhe era proibido.
Contudo, com sua grande bondade, pôs à nossa disposição sua propriedade no campo
pelo tempo que nos aprouvesse. Tu, Senhor, haverás de recompensá-lo no dia da retribuição dos
justos, pois já concedeste a graça. Porque, estando nós ausentes e já em Roma, atacado de uma
enfermidade corporal, Verecundo saiu desta vida depois de se fazer cristão e crente. Assim te
compadeceste não apenas dele, mas também de nós, para que quando pensássemos na grande
generosidade que teve conosco este amigo, não nos afligíssemos de dor intolerável por não poder
contá-lo entre os de tua grei.
Graças te sejam dadas, ó Deus nosso! Somos teus: tuas exortações e consolos o indicam.
Fiel cumpridor de tuas promessas, concedes a Verecundo a amenidade de teu paraíso sempre
florido, por nos ter oferecido sua propriedade de Cassicíaco, na qual descansamos em ti das
angústias do século; lhe perdoaste os pecados sobre a terra, na tua montanha, a montanha da
abundância.
Verecundo, como disse, angustiava-se, mas Nebrídio partilhava a nossa alegria, porque,
embora não sendo ainda cristão e houvesse caído no erro tão pernicioso de julgar que a carne
verdadeira do teu Filho fosse mera aparência, já começava a se desvencilhar e, sem ter ainda
recebido os sacramentos da tua Igreja, buscava ardentemente a verdade.
Não muito depois de nossa conversão e regeneração por teu batismo, fez-se por fim
católico fiel. Servia-te na África junto aos seus, em castidade e continência perfeitas; toda sua
família, sob sua influência, se fizera cristã. Libertaste-o então dos laços da carne, vivendo agora
no seio de Abraão, seja qual for o significado dessa expressão. Ali vive meu Nebrídio, meu doce
amigo que, de liberto, se tornou teu filho adotivo. Ali vive – pois, que outro lugar conviria a uma
alma assim? Ali vive, nesse lugar sobre o qual indagava muitas coisas a mim, pobre homem
ignorante. Já não aproxima seu ouvido da boca, mas aproxima sua boca espiritual de tua fonte, e
bebe avidamente de tua sabedoria, numa felicidade sem fim. Mas não creio que se embriague a
ponto de esquecer de mim, enquanto tu, Senhor, que és sua bebida, te lembras de nós.
Essa era a nossa situação. Consolávamos o Verecundo que, sem que a amizade
fenecesse, andava desgostoso com nossa conversão; nós o exortávamos a se manter fiel à sua
condição conjugal. Quanto a Nebrídio, esperávamos que nos seguisse, pois, facilmente poderia
fazê-lo, e já estava a ponto de se decidir. Enfim, aqueles dias passaram, e me pareceram tantos e
tão longos, tal era meu desejo de liberdade e descanso, para cantar do fundo do meu ser: A ti
meu coração: Procurei teu rosto; teu rosto, Senhor, hei de buscar.
CAPÍTULO IV
A doçura dos salmos
Por fim, chegou o dia da libertação da profissão de retórico, da qual já me libertara em
pensamento. Assim aconteceu. Livraste minha língua da tarefa de que há havias livrado meu
coração. Eu te bendizia contente, e parti com todos os meus, para a quinta de Verecundo. O que
lá realizei nas letras, já a teu serviço, mas ainda com a respiração ofegante, como durante uma
pausa da luta, e ainda respirando da soberba da erudição, é atestado pelos livros nos quais
anotava meus debates com meus amigos ou comigo mesmo em tua presença (refere-se aos
seguintes livros: Contra Acadêmicos, De beata vita, De ordine e dos Solilóquios). Do que tratei
com Nebrídio, então ausente, claramente o indicam minhas cartas.
Mas quando encontrei tempo suficiente para dar testemunho de todos os grandes
benefícios que me concedeste nessa época da vida, uma vez que tenho pressa de chegar a
outros assuntos mais importantes? Volta-me – e me é doce confessá-lo, Senhor – a lembrança
dos estímulos internos com que me domaste; o modo como me aplanaste a alma derrubando as
colinas e montanhas de meus pensamentos; como endireitaste meus caminhos tortuosos e
suavizasse minhas asperezas; como também submeteste Alípio – o irmão de meu coração – ao
nome de teu Filho único, Jesus Cristo, Senhor e Salvador nosso, nome que ele mal suportava em
minhas obras, porque preferia o cheiro dos soberbos cedros das escolas, já abatidos pelo Senhor,
ao odor das salutares ervas de tua Igreja, antídoto contra o veneno das serpentes.
Que invocações elevei a ti, meu Deus, lendo os Salmos de Davi, cânticos de fé, hinos de
piedade, que expulsavam de mim todo sentimento de orgulho? Eu era ainda inexperiente de teu
verdadeiro amor, e dividia minhas horas de lazer com Alípio, catecúmeno como eu. Minha mãe
estava conosco. Ao aspecto da mulher ela aliava fé varonil, a calma da velhice, a ternura de mãe
e a piedade de cristã. Que exclamações elevei a ti naqueles salmos, e como me inflamava com
eles em teu amor! Incendiava-me em desejos de recitá-los, se fosse possível, ao mundo inteiro,
para rebater a soberba do gênero humano! Com efeito, em todo o mundo se cantam. Não há
ninguém que se subtraia a teu calor.
Com que veemente e dolorosa indagação me levantava contra os maniqueístas! E de novo
me compadecia deles por ignorarem esses sacramentos, esses remédios, investindo loucamente
contra o antídoto que poderia curá-los! Gostaria que estivessem perto de mim, sem que eu o
soubesse, e que vissem meu rosto e ouvissem minhas exclamações quando lia o Salmo 4
naquelas minhas férias, e percebessem os efeitos salutares que me produzia este salmo: Quando
te invoquei, tu me escutaste, ó Deus de minha justiça! Dilataste minha alma na tribulação.
Compadece-te, Senhor, de mim, e ouve minha prece. Se me ouvissem – sem eu o saber, para
que não pensassem que eram por causa deles as palavras que eu entremeava às do salmo,
porque realmente nem eu diria tais coisas, nem as diria daquele modo, se soubesse da sua
presença; e, mesmo que as palavras fossem as mesmas, ele não as entenderiam como eu as
dizia a mim mesmo, diante de ti, na íntima efusão dos afetos de minha alma.
Estremeci de medo, ao mesmo tempo me abrasei de alegre esperança em tua
misericórdia, ó Pai! E todos estes sentimentos saíam pelos meus olhos e pela voz quando,
dirigindo-se para nós, teu Espírito de bondade nos dizia: Filhos dos homens, até quando sereis
duros de coração? Por que amais a vaidade e buscais a mentira?
Também eu tinha amado a vaidade e buscado a mentira. Mas tu, Senhor, já havias
glorificado teu eleito, ressuscitando-o de entre os mortos e colocando-o à tua direita, de onde
haveria de nos enviar, segundo a promessa, o Paráclito, o Espírito da Verdade. O Senhor estava
glorificado, ressuscitando de entre os mortos, e subindo aos céus. Antes o Espírito ainda não tinha
sido dado, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado.
Clama o profeta: Até quando sereis duros de coração? Por que amais a vaidade e buscais
a mentira? Sabeis que o Senhor já glorificou a seu santo. Clama: Até quando? Clama: Sabei! – E
eu sem o saber durante tanto tempo, amando a vaidade e buscando a mentira!
Por isso tremi quando o ouvi, porque me lembrei de ter sido igual àqueles a quem tais
palavras eram dirigidas. Os fantasmas que eu havia tomado pela verdade nada mais eram do que
vaidade e mentira.
Ah! As queixas fortes e profundas que me inspiravam a dor da recordação! Oxalá as
tivessem ouvido os que ainda amam a vaidade e buscam a mentira! Talvez também se
perturbassem e vomitassem seu erro. E tu os terias ouvidos quando clamassem por ti, porque
morreu por nós de verdadeira morte corporal aquele que intercede por nós diante de ti.
Eu lia: Irai-vos, e não queirais pecar. Como me perturbavam tais palavras, meu Deus! Já
havia aprendido a me irar contra mim mesmo pelos meus crimes passados, para não pecar mais;
e de uma cólera justa, porque não era uma natureza estranha, da raça das trevas, a que em mim
pecava, como dizem os que não se indignam contra si, e acumulam contra si a ira para o dia da
ira e da revelação de teu justo juízo?
Meus bens já não eram exteriores, e eu já não os buscava à luz deste sol, com olhos
carnais. Os que querem gozar externamente, facilmente se dissipam e derramam pelas coisas
visíveis e temporais, lambendo com pensamento faminto apenas as aparências. Oh! Se eles se
esgotassem com a privação, e perguntassem: Quem nos mostrará o bem? E que ouvissem nossa
resposta: Está gravada dentro de nós a luz de teu rosto, Senhor! – Porque não somos nós a luz
que ilumina a todo homem, mas somos iluminados por ti, para que sejamos luz em ti, nós que
outrora fomos trevas.
Oh! Se eles vissem essa luz interior e eterna que eu havia visto! E como a havia
saboreado, irritava-me por não poder mostrá-la. Se, pelo seus olhares dirigidos para fora, visse
seu coração afastado de ti, me dissessem: “Quem nos mostrará o bem? Pois ali, onde me irritara
contra mim mesmo, ali, no recôndito de meu coração onde, arrependido, eu havia sacrificado e
imolado em mim o velho homem; onde, pondo em ti minha esperança, começara a meditar a
renovação de mim mesmo, ali fizeste com que eu sentisse tua doçura, dando alegria a meu
coração. E exclamava ao ler, fora de mim, essas palavras cuja verdade ecoava em mim; e não
queria desdobrar-me pelos bens terrenos, devorando o tempo e sendo por ele devorado, porque
possuía na eterna simplicidade outro trigo, outro vinho e outro azeite.
E subia, no versículo seguinte, um profundo clamor de meu coração: Oh! Em paz! Oh! Em
seu próprio Ser! Mas, que disse? Dormirei e descansarei! Com efeito, quem nos há de resistir
quando se cumprir a palavra que está escrita: A morte foi devorada pela vitória?
Tu és esse mesmo Ser, e não mudas, e em ti está o repouso que faz esquecer todos os
sofrimentos. Porque ninguém pode ser comparado a ti e nem vale pensar em adquirir outras
coisas que não sejam o que tu és; mas tu, Senhor, singularmente me firmaste na esperança.
Eu lia isto, e me inflamava. Não sabia que fazer com aqueles surdos, de quem eu fora a
peste, um cão raivoso e cego que ladrava contra a Bíblia, dulcificada por seu mel celestial e
iluminada por tua luz. E me consumia de dor por causa dos inimigos de tuas Escrituras.
Quando poderei recordar tudo o que aconteceu naqueles dias de descanso? Mas não
esqueci, nem quero silenciar, a aspereza de um açoite que usaste em mim, e a admirável
presteza de tua misericórdia.
Atormentavas-me então com uma dor de dentes, que se agravara a tal ponto de me
impedir até de falar. Ocorreu-me ao pensamento pedir a todos os amigos, que rogassem por mim,
ó Deus da salvação! Escrevi meu pedido numa tabuleta encerada, e lha dei para que o lessem.
Apenas dobramos os joelhos com suplicante afeto, logo a dor desapareceu. E que dor! E como
desapareceu! Enchi-me de espanto, eu o confesso, meu Deus e Senhor. Nunca, desde minha
infância, havia experimentado coisa semelhante.
No fundo de meu coração penetrou o sinal da tua vontade e, alegre na fé, louvei teu nome.
contudo, esta fé não me deixava viver tranqüilo quanto a meus pecados passados, que ainda não
me haviam sido perdoados por teu batismo.
CAPÍTULO V
O conselho de Ambrósio
Terminadas as férias, informei aos milaneses que providenciassem para seus estudantes
outro vendedor de palavras, visto que determinara consagrar-me a teu serviço; e mesmo porque
não podia mais exercer aquela profissão pela dificuldade de respirar e pelas dores que sentia no
peito.
Também comuniquei por escrito a teu bispo e santo bispo Ambrosio, os meus antigos
erros, minha intenção atual, para que me indicasse o que deveria ler de preferência em tuas
Escrituras, a fim de me preparar e dispor melhor para receber tão grande graça.
Ele me indicou o profeta Isaías, creio que porque anuncia mais claramente que os demais
o Evangelho e vocação dos gentios. Contudo, nada tendo compreendido na primeira leitura, e
julgando que toda a obra era assim, decidi voltar a ela quando estivesse mais familiarizado com a
palavra do Senhor.
CAPÍTULO VI
Batismo de Agostinho. Seu filho Adeodato
Chegado o tempo em que convinha nos inscrever para receber o batismo, deixamos o
campo, e voltamos para Milão.
Alípio também quis renascer em ti comigo, já revestido de humildade tão conforme a teus
sacramentos. Era tão enérgico domador do seu corpo, que caminhava com os pés descalços, com
insólita coragem, sobre o chão gelado da Itália.
Juntamos também a nós o jovem Adeodato, filho carnal de meu pecado; a quem dotaste
de grandes qualidades. Tinha cerca de quinze anos, mas por seu talento ultrapassava já muitos
homens maduros e doutos. Confesso-te que eram dons teus, meu Senhor e meu Deus, criador de
todas as coisas, tão poderoso para corrigir nossas deformidades, pois este menino nada havia de
meu, senão meu pecado. Se o criei em tua disciplina, foste tu, e mais ninguém, quem no-lo
inspirou. Sim, confesso que eram dons teus.
Há um livro meu que se intitula O Mestre, no qual Adeodato dialoga comigo. Tu sabes que
todos os pensamentos ali manifestados são dele quando tinha dezesseis anos. Muitas outras
qualidades maravilhosas notei ainda nele, admirado por sua inteligência. Mas quem, além de ti,
poderia ser o autor dessas maravilhas? Cedo o arrebataste desta terra; e a lembrança dele se
torna mais tranqüila, nada mais tendo a temer por sua infância, por sua adolescência ou por toda
sua vida adulta. Associamo-lo a nós como irmão na graça, para educá-lo em tua lei. Fomos
batizados, e os remorsos de nossa vida passada se afastaram de nós.
Naqueles dias eu não me fartava de considerar a grandeza de teus desígnios para a
salvação do gênero humano, pela inefável doçura que sentia. Quanto chorei ao ouvir,
profundamente comovido, teus hinos e cânticos que ressoavam suavemente em tua Igreja!
Penetravam aquelas vozes em meus ouvidos, e destilavam a verdade em meu coração. Acendiase
em mim um afeto piedoso, corriam-me lágrimas dos olhos, e o pranto me consolava.
CAPÍTULO VII
O canto dos fiéis.
Os corpos de São Gervásio e de São Protásio
Não havia muito tempo que a igreja de Milão começara a adotar essa prática consoladora
e edificante do canto, com grande regozijo dos fiéis, que uniam em um só coro as vozes e o
coração. Havia um ano, ou pouco mais, que Justina, mãe do imperador Valentiniano, ainda
menor, seduzida pelos arianos, perseguia, por causa de sua heresia, teu servo Ambrósio. O povo
fiel passava as noites na igreja, disposto a morrer com seu bispo.
Nesse meio estava minha mãe, tua serva, uma das primeiras no zelo dessas inquietações
e vigílias, não vivendo senão de orações. Nós, apensar de ainda frios, sem o calor de teu Espírito,
nos sentíamos comovidos pela perturbação e consternação da cidade.
Foi então que se fixou o costume de cantar hinos e salmos, como se faz no Oriente, para
que os fiéis não se consumissem no tédio e na tristeza. Desde esse dia esse costume mantevese,
e no resto do mundo, quase todas as tuas comunidades de fiéis passaram a adotá-lo.
Foi também nessa época que revelaste em sonho ao bispo Ambrósio o lugar em que
jaziam ocultos os corpos dos mártires Gervásio e Protásio, que durante muito tempo,
conservastes intactos no tesouro de teus segredos, a fim de revelá-los no momento oportuno para
refrear o furor de uma mulher, embora imperatriz.
Com efeito, depois de descobertos e desenterrados, ao serem transladados com as honras
convenientes para a basílica ambrosiana, alguns possessos, atormentados pelos espíritos
imundos, foram curados, conforme confissão dos próprios demônios. Também um cidadão, cego
havia muitos anos, e muito conhecido na cidade, perguntou a razão daquele alvoroço e alegria
populares; informado, pediu a seu guia que o levasse até ás relíquias. Lá chegando, obteve
permissão para tocar com um lenço o ataúde de teus santos, cuja morte havia sido preciosa a
teus olhos. Feito isto, aplicou o lenço aos olhos, que imediatamente se abriram.
A noticia do milagre logo se propagou, e imediatamente se ouviram teus louvores com
fervor, e o coração de tua inimiga, sem se converter à tua fé, reprimiu contudo o furor da
perseguição.
Graças te dou, meu Deus! De onde e para onde guiaste minha memória, para que também
te confessasse estes acontecimentos que, embora grandes, eu já havia esquecido e omitido?
Todavia, quando assim exalava o odor de teus perfumes, eu ainda não corria atrás de ti.
Eis que redobrava minhas lágrimas ao ouvir teus cânticos. Outrora eu suspirava por ti, e enfim
respirava o pouco ar de uma choça de feno (alusão ao profeta Isaias,40,6)
CAPÍTULO VIII
Mônica
Tu, que fazes morar na mesma casa os que têm coração unânime, trouxeste pra junto de
nós Evódio, jovem de nosso município que, militando como agente de negócios do imperador, se
convertera e recebera o batismo antes de nós, abandonara a milícia do século, alistando-se na
tua.
Estávamos juntos, e juntos pensávamos viver nosso santo propósito. Buscávamos um
lugar onde nos pudéssemos instalar mais comodamente para te servir e juntos rumávamos para a
África quando, chegando a Óstia, na foz do Tibre, faleceu minha mãe.
Muitas coisas passo em silêncio, porque tenho pressa. Recebe minhas confissões e ações
de graças, meu Deus, pelas inúmeras bondades que não menciono aqui. Mas não quero calar o
que brota de minha alma a respeito desta tua serva, que me gerou na carne para a luz temporal, e
no coração para a luz eterna. Não referirei suas qualidades, nem a si mesma se havia educado.
Foste tu quem a educaste, nem seu pai, nem sua mãe sabiam o que viriam a ser aquela a quem
geraram. A disciplina de teu Cristo, a doutrina de teu Filho único educaram-na em teu temor em
uma família fiel, digno membro de tua Igreja.
Nem ela mesma enaltecia o zelo da mãe em educá-la, quanto o de uma velha serva, que
carregara seu pai quando menino, como hoje as meninas maiores costumam carregar as
crianças, às costas.
Estas recordações, sua idade avançada e hábitos exemplares lhe asseguravam naquela
casa cristã o respeito de seus amos. Ela própria cuidava solicitamente das meninas que lhe
haviam sido confiadas, ora repreendendo-as quando fosse o caso, com santa e enérgica
severidade, ora instruindo-as com discreta prudência. Afora do horário em que tomavam uma
sóbria refeição à mesa de seus pais, ainda que tivessem muita sede, nem água permitia que elas
bebessem, precavendo com isso um mau costume. E acrescentava este sábio aviso: “Agora
bebeis água, porque não tendes como beber vinho; mas quando estiverdes casadas, donas da
despensa e da adega, deixareis a água, mas continuará o hábito de beber”.
E unindo assim o conselho à autoridade, refreava os apetites daquela tenra idade, e
acostumava aquelas jovens à temperança, para que não tivesse desejo do que não lhes convinha.
No entanto – como tua serva me contou a mim, seu filho – insinuou-se nela certo gosto
pelo vinho. Julgando-a menina sóbria, seus pais a escolheram, como era costume, para tirar o
vinho do tonel. Mergulhava a caneca pela parte superior do recipiente e, antes de passar o vinho
para a garrafa, sorvia com a ponta dos lábios um pouquinho; era-lhe impossível beber mais,
porque o vinho lhe repugnava. Não fazia isto movida pela inclinação à embriaguez, mas pela
exuberância juvenil, que se manifestava em movimentos, em brincadeiras, e que na meninice
costumam ser reprimidos pela autoridade severa dos mais velhos. Mas, acrescentando todos os
dias uns goles àqueles goles – pois quem descuida das coisas pequenas pouco a pouco cai nas
maiores – acostumou-se a esvaziar avidamente copos quase cheios de vinho puro.
Onde estava então a prudente anciã, e sua severa proibição? Mas que remédio curaria um
mal oculto se tua medicina, Senhor, não velasse sobre nós? Na ausência do pai, da mãe e das
amas, estavas lá tu que nos criaste, que nos chamas, e que por meio dos que nos educam fazes
o bem para a salvação das almas. Que fizeste então, meu Deus? Como a socorreste? Como a
curaste? Fizeste sair de outra pessoa, segundo tuas secretas providências, um sarcasmo duro e
pungente como ferro medicinal, para curar de um só golpe aquela gangrena.
A criada que costumava acompanhá-la à adega, discutindo com sua jovem senhora, como
às vezes acontece, estando as duas a sós, lançou-lhe em rosto sua intemperança, chamando-a
insultuosamente de bêbada. Ferida por esse sarcasmo, a jovem reconheceu a fealdade daquele
hábito, reprovou-o, e no mesmo instante o abandonou.
Assim como muitas vezes as lisonjas dos amigos nos pervertem, assim os insultos dos
inimigos nos corrigem. Mas não é o bem que nos fazem por seu intermédio que retribuis, mas a
intenção com que o fazem. Aquela criada zangada pretendia ofender sua jovem senhora, e não
corrigi-la; e se o fez às escondidas foi só por força da circunstância do lugar e tempo, ou para que
não viesse a sofrer por denunciar tão tarde o costume de sua senhora.
Mas, tu, Senhor, governador do céu e da terra, que desvias para teus desígnios as águas
da torrente e regulas o curso turbulento dos séculos, curaste a loucura de uma alma com a insânia
de outra. Por isso ninguém, ao considerar o caso, atribua a seu poder pessoal o mérito de ter
corrigido com suas palavras a alguém cuja emenda deseja conseguir.
CAPÍTULO IX
Esposa e mãe exemplar
Educada assim na modéstia e na temperança, mais sujeita a seus pais pela tua mão que
por seus pais a ti, logo que chegou à idade núbil, foi dada em matrimônio a um homem, a quem
serviu como a senhor. Procurou conquistá-lo para ti, falando0lhe de ti com suas virtudes, com as
quais tu a tornavas bela e reverentemente amável e admirável ante seus olhos. Suportou suas
infidelidades conjugais com tanta paciência, que jamais teve com ele a menor briga por isso, pois
esperava que tua misericórdia viria sobre ele, e que lhe trouxesse, com a fé, a castidade.
Seu marido, se de um lado era sumamente afetuoso, por outro era extremamente colérico,
mas ela tinha o cuidado de não contrariá-lo nem com ações, nem com palavras, se o visse irado.
Logo que o via calmo e sossegado, oportunamente, mostrava-lhe o que havia feito, se por acaso
se tivesse irritado desmedidamente.
Muitas senhoras, embora tendo maridos mais calmos, traziam no rosto as marcas das
pancadas que as desfiguravam. Conversando entre amigas, lamentavam a conduta dos maridos.
Minha mãe reprovava-lhes a língua e, como por gracejo, lembrava-lhes que, desde a leitura do
contrato matrimonial, deviam considerá-lo como documento que as tornava servas, e portanto
proibia-lhes de serem altivas com seus senhores. Essas senhoras, que conheciam o mau gênio
de seu marido, admiravam-se de que jamais ninguém tivesse ouvido ou percebido qualquer
indício que Patrício maltratasse a mulher, nem sequer que algum dia tivessem brigado por
questões domésticas. E como lhe pedissem confidencialmente a razão disso, minha mãe
expunha-lhes seu agir habitual, como acima mencionei. Algumas, após experimentar, punham-no
em prática e davam-lhe graças; as que não a imitavam continuavam a sofrer humilhações e
violências.
Sua sogra, a princípio irritara-se contra ela por causa dos mexericos de criadas malévolas.
Mas conseguiu conquistá-la com respeito, contínua tolerância e mansidão, que ela mesma,
espontaneamente, denunciou ao filho as línguas intrigantes das criadas, que perturbavam a paz
doméstica entre ela e a nora, e pediu que as castigasse. Ele, em obediência à mãe, para manter a
disciplina familiar e a harmonia entre os seus, mandou açoitar as acusadas, segundo a vontade da
acusante; e esta prometeu-lhes ainda que esse era o prêmio que devia esperar quem, querendo
agradá-la, lhe dissesse mal da nora. E ninguém mais se atreveu a fazê-lo, e viveram as duas em
doce e memorável harmonia.
A esta tua boa serva, em cujo seio me criaste, ó meu deus, minha misericórdia, dotaste de
outra grande virtude: a de intervir como pacificadora, sempre que podia, nas discórdias e
querelas. Daquilo que ouvia de queixas amargas, vomitadas com animosidade ressentida, quando
na presença de uma amiga os ódios mal digeridos se desafogam em amargas confidencias a
respeito de uma amiga ausente, ela nada referia uma à outra, senão o que poderia servir para a
reconciliação.
Este dom me pareceria de pouca monta se uma triste experiência não me houvesse
mostrado grande número de pessoas – por não sei que horrível contagio de pecados, espalhados
por toda parte – que não só revelam as palavras pesadas de inimigos irados, mas que ainda
acrescentam coisas que não foram ditas. Quem fosse realmente humano, deveria ter em pouca
conta ou não excitar nem fomentar as inimizades dos homens, e melhor ainda procurar extinguilas
com boas palavras.
Assim era minha mãe, ensinada por ti, mestre interior, na escola de seu coração.
Por fim, conquistou para ti o seu marido, já no fim da vida, não tendo que lamentar no
cristão o que havia tolerado no infiel.
Ela era verdadeiramente a serva de teus servos, e todos os que a conheciam te louvavam,
honravam, te amavam em sua pessoa, porque percebiam tua presença em seu coração,
confirmada pelos frutos de uma vida santa.
Havia sido mulher de um só homem, cumprira sua dívida de gratidão com os pais,
governara sua casa piedosamente e dava testemunho com suas boas obras. Educara os filhos,
dando-os à luz tantas vezes quantas os via apartarem-se de ti.
E de nós, que nos chamamos teus servos por liberalidade tua, nós que vivemos em
comum na graça de teu batismo, antes de adormecer em tua paz, ela cuidou de nós como se
todos fôssemos seus filhos, e de tal modo nos serviu como se fosse filha de cada um de nós.
CAPÍTULO X
O êxtase de Óstia
Estando já próximo o dia em que teria de partir desta vida – que tu, Senhor, conhecias, e
nós ignorávamos – sucedeu, creio, por disposição de teus ocultos desígnios – que nos
encontrássemos sós, eu e ela, apoiados em uma janela que dava para o jardim interior da casa
em que morávamos. Era em Óstia, sobre a foz do Tibre, onde, longe da multidão, depois do
cansaço de uma longa viagem, recobrávamos forças para a travessia do mar.
Ali, sozinhos, conversávamos com grande doçura, esquecendo o passado, ocupados
apenas no futuro, indagávamos juntos, na presença da Verdade, que és tu, qual seria a vida
eterna dos santos, que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração do homem
pode conceber. Abríamos ansiosos os lábios de nosso coração ao jorro celeste de tua fonte – da
fonte da vida que está em ti – para que, banhados por ela, pudéssemos de algum modo meditar
sobre coisa tão transcendente.
Nossa conversa chegou à conclusão que nenhum prazer dos sentidos carnais, por maior
que seja, e por mais brilhante e maior que seja a luz material que o cerca, não parece digno de
ser comparado à felicidade daquela vida em ti. Elevando nosso sentimento para mais alto, mais
ardentemente em direção ao próprio Ser, percorremos uma a uma todas as coisas corporais, até o
próprio céu, de onde o sol, a luz e as estrelas iluminam a terra.
E subimos ainda mais em espírito, meditando, celebrando e admirando tuas obras, e
chegamos até o íntimo de nossas almas. E fomos além delas, para alcançar a região da
abundância inesgotável, onde apascentas eternamente a Israel com o alimento da verdade, lá
onde a vida é a própria Sabedoria, por quem foram criadas todas as coisas, as que já existem e
as vindouras, sem que ela própria se crie a si mesma, pois existe agora como antes existiu e
como sempre existirá. Antes, nela não há nem passado, nem futuro: ela apenas é, porque é
eterna; mas ter sido ou haver de ser não é próprio do ser eterno.
E enquanto assim falávamos dessa Sabedoria e por ela suspirávamos, chegamos a tocá-la
momentaneamente com supremo ímpeto de nosso coração; e, suspirando, deixando ali atadas as
primícias de nosso espírito, e voltamos ao ruído vazio de nossos lábios, onde nasce e morre a
palavra humana, em nada semelhante a teu Verbo, Senhor nosso, que subsiste em si sem
envelhecer, renovando todas as coisas!
E dizíamos: Suponhamos que se calasse o tumulto da carne, as imagens da terra, da
água, do ar e até dos céus; e que a própria alma se calasse, e se elevasse sobre si mesma não
pensando mais em si; se calassem os sonhos e revelações imaginarias e, por fim, se calasse por
completo toda língua, todo sinal, e tudo o que é fugaz – uma vez que todas as coisas dizem a
quem sabe ouvi-las: Não fizemos a nós mesmas; fez-nos o que permanece eternamente – se, dito
isto, todas se calassem, atentas a seu Criador; e se só ele falasse, não por suas obras, mas por si
mesmo, de modo que ouvíssemos sua palavra, não por uma língua material, nem pela voz de um
anjo, nem pelo ruído do trovão, nem por parábolas enigmáticas, mas o ouvíssemos a ele mesmo,
a quem amamos nas suas criaturas, mas sem o intermédio delas, como agora acabamos de
experimentar, atingindo em um relance a eterna Sabedoria, que permanece imutável sobre toda
realidade, e supondo que essa visão se prolongasse, que todas as outras visões cessassem, e
unicamente esta arrebatasse a alma de seu contemplador, e a absorvesse e abismasse em
íntimas delícias, de modo que a vida eterna seja semelhante a este momento de intuição que nos
fez suspirar, não seria isto a realização do entrar em gozo de teu Senhor? Mas quando se dará
isto? Por acaso quando todos ressuscitarmos? Mas então não seremos todos transformados?
Tais coisas dizíamos, embora não deste modo, nem com estas palavras. Mas tu sabes,
Senhor, que naquele dia, à medida que falávamos dessas coisas, quanto nos parecia vil este
mundo, com todos os seus deleites – disse-me minha mãe: “Filho, quanto a mim, já nada me atrai
nesta vida. Não sei o que faço ainda aqui, nem por que ainda estou aqui, se já se desvaneceram
pra mim todas as esperanças do mundo. Uma só coisa me fazia desejar viver um pouco mais, e
era ver-te católico antes de morrer. Deus me concedeu esta graça superabundantemente, pois te
vejo desprezar a felicidade terrena para servi-lo. Que faço, pois, aqui?”
CAPÍTULO XI
A morte de Mônica
Não me lembro bem o que respondi a tais palavras. Mas cerca de cinco dias mais tarde, ou
pouco mais, caiu de cama, com febre. Durante a doença, teve um dia um desmaio, ficando por
pouco tempo sem sentidos e sem reconhecer os presentes. Acudimos de imediato, e logo voltou a
si. Vendo-nos a seu lado, a mim e a meu irmão (chamava-se Navígio, e era o mais velho dos
irmãos), perguntou-nos, como quem procura algo: “Onde estava eu?” – Depois, vendo-nos
atônitos de tristeza, nos disse: “Sepultareis aqui a vossa mãe” – Eu me calava, retendo as
lágrimas, mas meu irmão disse umas palavras em que desejava vê-la morrer na pátria e não em
terras distantes. Ao ouvi-lo, minha mãe repreendeu-o com o olhar, e aflita por ter pensado em tais
coisas; depois, olhando para mim, disse: “Vê o que ele diz” – E depois para ambos: “Sepultem
este corpo em qualquer lugar, e não se preocupem mais com ele. Peço apenas que se lembrem
de mim diante do altar do Senhor, onde quer que estejam”. E tendo-nos exposto seu pensamento
com as palavras que pôde, calou-se; sua moléstia agravou-se e suas dores aumentaram.
Mas eu, ó Deus invisível, meditando nos dons que infundes no coração de teus fiéis, e nas
admiráveis colheitas que deles brotam, alegrava-me e te dava graças. Lembrava-me do grande
cuidado que sempre demonstrara acerca de sua sepultura, adquirida e preparada junto ao corpo
do marido. Tendo vivido com ele na maior concórdia, assim também queria – visão própria da
alma humana incapaz das coisas divinas – ter a felicidade de que os homens recordassem que,
depois de sua viagem para além-mar, lhe fora concedida a graça de a mesma terra cobrir o pó de
ambos os cônjuges.
Quando esta vaidade havia deixado de existir em seu coração, pela plenitude de tua
bondade, eu não o sabia, mas alegrava-me com admiração ao ouvi-la falar assim. No entanto,
naquela conversa à janela quando me disse: “Que faço eu aqui?” – já estava patente que não
mais desejava morrer na pátria.
Soube também depois que em Óstia, estando eu ausente, falou certo dia com alguns
amigos meus, com maternal confiança, sobre o desprezo desta vida e o benefício da morte. Eles,
maravilhados da coragem dessa mulher – dádiva tua – perguntaram-lhe se não temia deixar o
corpo tão longe da pátria. “Nada está longe para Deus – disse ela – nem preciso temer que ele
ignore, no fim dos tempos, o lugar onde me ressuscitará”.
Por fim, nove dias após cair enferma, aos cinqüenta e seis anos de idade e aos trinta e três
da minha, aquela alma santa e piedosa libertou-se do corpo.
CAPÍTULO XII
As lágrimas negadas
Fechei-lhe os olhos, e uma tristeza imensa invadiu-me o coração, e já me ia desfazer em
lágrimas; ao mesmo tempo, meus olhos, obedecendo ao enérgico poder de minha vontade,
fechavam sua fonte até secá-la. Como foi angustiosa essa luta! E foi quando ela deu o último
suspiro, que o meu filho Adeodato rebentou em soluços; mas, instado por todos nós, se calou.
Deste modo sua voz juvenil, voz do coração, calou em mim essa espécie de emoção pueril que
me provocava o pranto. De fato, não julgávamos correto celebrar aquele funeral com lágrimas e
choro, pois tais demonstrações deploram geralmente o triste destino dos que morrem, ou sua total
extinção. A morte de minha mãe não era uma desgraça, e ela não morria para sempre, e disto
estávamos certos pelo testemunho de seus costumes, por sua fé sincera e outras razões
inequívocas.
Que era então o que tanto me pungia, senão a ferida recente causada pelo rompimento
repentino de nosso dulcíssimo e querido convívio?
Era para mim grande consolação o testemunho que dera de mim, quando nesta última
enfermidade, respondendo com ternura às minhas atenções, chamava-me de bom filho, e
recordava com grande afeto o nunca ter ouvido de minha boca uma só palavra dura ou injuriosa
contra ela. Entretanto, o que era, meu Deus e meu Criador, a solicitude que eu lhe tributava, em
comparação com o devotamento servil que por mim suportava? Por me ver privado de tão grande
consolo, sentia a alma ferida e minha vida, que era uma só com sua, estava despedaçada.
Reprimido o pranto do Adeodato, Evódio tomou o saltério e começou a cantar um salmo,
ao que todos respondíamos “Misericórdia e justiça te cantarei Senhor”. Conhecia a notícia de sua
morte, acorreram muitos irmãos e mulheres piedosas e, enquanto os encarregados dos funerais
faziam seu ofício conforme o hábito, retirei-me para um lugar conveniente, junto com os amigos
que julgavam oportuno não me deixar só. Falava sobre assuntos próprios das circunstâncias, e
com o lenitivo da verdade mitigava meu sofrimento, só conhecido por ti. Eles o ignoravam e me
ouviam atentamente, julgando que não sofria nenhuma dor.
Mas eu, pertinho de teus ouvidos, onde ninguém me podia escutar, censurava a minha
sensibilidade e fraqueza e reprimia a onda de tristeza que me invadia; esta cedia por uns
instantes, e novamente me arrastava com seu ímpeto, embora não chegasse a derramar lágrimas
ou alterar a face. Somente eu sabia quão oprimido estava meu coração! E como me desgostava
profundamente que as vicissitudes humanas tivessem tanto poder sobre mim, que são inelutáveis
pela ordem natural e a sorte de nossa condição; minha própria dor causava-me outra dor, e me
afligia com dupla tristeza.
Quando o corpo foi levado à sepultura, fui e voltei sem derramar uma lagrima. Nem mesmo
nas orações que te fizemos, quando oferecemos o sacrifício de nossa redenção por intenção da
morta, cujo cadáver jazia junto ao sepulcro antes de ser inumado, como ali é costume, nem
mesmo nessas orações, chorei. Mas durante todo o dia andei oprimido por grande tristeza interior;
pedia-te como podia, com a mente perturbada, que aliviasses minha dor. Mas não me atendias,
sem dúvida para que fixasse, bem na memória, ao menos por esta única experiência, como são
poderosos os laços do costume, mesmo em uma alma que já não se alimentava de palavras
enganadoras.
Lembrei então a ir aos banhos, por ter ouvido dizer que a palavra banho (bálneo, em latim)
vinha dos gregos, que o chamaram balanéion (tirar fora a ania), porque o banho aliviava as
tristezas da alma. Mas eu o confesso à tua misericórdia – ó Pai dos órfãos: depois do banho fiquei
como estava antes, porque meu coração não expulsou o amargor de sua tristeza.
Depois adormeci. Ao despertar, minha dor estava mitigada; só, em meu leito, lembrei-me
dos versos cheios de verdade de teu Ambrósio. Porque, na verdade
Tu és Deus, criador de quanto existe,
De todo o mundo supremo governante,
Que o dia vestes com tua luz brilhante,
E de sonhos gratos a noite triste
A fim de que os membros cansados
O descanso ao trabalho prepare
E as mentes cansadas, repare
E os peitos de pena oprimidos
Depois, pouco a pouco voltava aos sentimentos de antes sobre tua serva. Recordava de
sua piedade para contigo, de sua solicitude e paciência comigo, da qual subitamente me via
privado. E senti consolação em chorar diante de ti, por causa dela e por ela, e por minha causa e
por mim. E deixei que as lágrimas reprimidas corressem à vontade, estendendo-as como um leito
reparador sob meu coração. Teus ouvidos eram os que ali me escutavam, e não os de nenhum
homem, que pudesse interpretar com soberba meu pranto.
E agora, Senhor, to confesso nestas linhas: leia-o quem quiser, interprete-o como quiser. E
se alguém julgar que pequei nessas lágrimas, que derramei sobre minha mãe por alguns
instantes, por minha mãe então morta a meus olhos, ela que me havia chorado tantos anos para
que eu vivesse aos teus olhos, não se ria. Antes, é grande sua caridade, chore por meus pecados
diante de ti, Pai de todos os irmãos de teu Cristo!
CAPÍTULO XIII
Preces pela mãe morta
Agora, com a ferida do meu coração já sanada, na qual se podia censurar um afeto muito
carnal, derramo diante de ti, meu Deus, por tua serva, outra espécie de lágrimas, bem diferentes,
aquelas que brotam do espírito comovido à vista dos perigos que corre toda alma que morre em
Adão. É verdade que minha mãe, vivificada em Cristo, antes mesmo de ser livre dos laços da
carne, viveu de tal modo, que teu nome era louvado em sua fé e em seus costumes. Contudo, não
me atrevo a dizer que desde que a regeneraste no batismo não saiu de sua boca nenhuma
palavra contrária à tua lei. Porque a Verdade, que é teu Filho, disse: “Quem chamar a seu irmão
de louco será réu do fogo da geena”. Ai da vida dos homens, por mais louvável que seja, se tu a
julgares sem a tua misericórdia! Mas porque não examinas nossos pecados com rigor,
confiadamente esperamos tomar lugar a teu lado. Quem enumera diante de ti seus próprios
méritos, que mais expõe senão teus dons? Oh! Se os homens se reconhecessem como homens!
Se quem se glorifica se glorificasse no Senhor!
Por isso, Deus de meu coração, minha vida e minha gloria, esquecendo por um momento
as boas ações de minha mãe, pelas quais te dou graças com alegria, peço-te agora perdão por
seus pecados. Ouve-me pelos méritos daquele que é o médico de nossas feridas, que foi
suspenso do madeiro da cruz e que, sentado agora à tua direita, intercede por nós junto a ti. Eu
sei que ela sempre agiu com misericórdia, e que perdoou de coração todas as faltas contra ela
cometidas; perdoa-lhe também suas dívidas, se algumas contraiu em tantos anos que se
seguiram ao batismo. Perdoa-lhe, Senhor, perdoa-lhe, te suplico, e não entres em juízo com ela.
Triunfe a misericórdia sobre a justiça pois as tuas são palavras de verdade, e prometeste
misericórdia aos misericordiosos. Se alguém o foi, deve-o à tua graça, tu que tens compaixão de
quem te apraz, e usas de misericórdia com quem queres ser misericordioso.
Creio que já fizeste o que te suplico, mas desejo, Senhor, que acolhas os desejos de
minha boca. Estando iminente o dia de sua morte, ela não desejou sepultar o corpo com grande
pompa, ou que fosse embalsamado com preciosos aromas, nem desejou um rico monumento,
nem se preocupou em tê-lo na pátria. Nada disto nos pediu, mas desejou apenas que nos
lembrássemos dela ante do teu altar, onde servira todos os dias de sua vida, sabendo que nele se
oferece a vítima santa, com cujo sangue se destrói o libelo de nossa condenação, e pelo qual
vencemos o inimigo que conta nossas faltas e procura com que nos acusar, nada achando
naquele que é nossa vitória.
Quem poderá devolver-lhe seu sangue inocente? Quem poderá restituir-lhe o preço pago
por nosso resgate, para nos arrancar ao inimigo? A este mistério de nossa redenção ligou tua
serva sua alma com o vínculo da fé. que ninguém a afaste de tua proteção. Que entre ela e ti não
se interponha, nem pela força, nem pelo engano, o leão ou o dragão. Ela não responderá que
nada deve, para não ser convencida e arrebatada pelo astuto acusador, responderá que suas
dívidas lhe foram perdoadas por aquele a quem ninguém pode restituir o que por nós pagou sem
nada dever.
Que ela repouse em paz com seu marido, antes e depois do qual não teve outro; a quem
serviu, com uma paciência cujo fruto te oferecia, para o ganhar também para ti. Mas inspira, meu
Senhor e meu Deus, inspira a teus servos, meus irmãos, a teus filhos, meus senhores, a quem
sirvo de coração, com a palavra e com a pena, para que, ao lerem estas páginas, diante do teu
altar lembrem de Mônica, tua serva, e de Patrício, outrora seu esposo, pelos quais me introduziste
misteriosamente nesta vida. Que lembrem com piedoso afeto daqueles que foram meus pais
nesta vida transitória, e meus irmãos em ti, ó Pai, na Igreja Católica, nossa mãe, e meus
concidadãos na eterna Jerusalém, pela qual suspira teu povo em sua peregrinação desde a saída
até o regresso. Assim, graças às minhas confissões, o último desejo de Mônica será mais
amplamente satisfeito com muitas orações do que só pelas minhas.
LIVRO DÉCIMO
CAPÍTULO I
Finalidade do livro
Ó Deus, faz que eu te conheça, meu conhecedor, que eu te conheça como de ti sou
conhecido. Virtude de minha alma, penetra-a, assemelha-a a ti, para que a tenhas e possuas sem
mancha nem ruga.
Esta é a esperança com que falo, e nesta esperança me alegro, quando gozo de sã
alegria. Tudo o mais desta vida, tanto menos se há de chorar quanto mais o choramos, e tanto
mais teríamos que chorar quanto menos o choramos.
Mas tu amaste a verdade, porque quem a pratica alcança a luz. Eu desejo praticá-la em
meu coração, diante de ti, por esta minha confissão, e diante de muitas testemunhas por meus
escritos.
CAPÍTULO II
O que é confessar a Deus
E, para ti, Senhor, que conheces o abismo da consciência humana, que poderia haver de
oculto em mim, ainda que não to quisesse confessar?
Poderia apenas esconder-te de mim, e nunca me esconder de ti. Agora que meus gemidos
dão testemunho do desagrado que sinto por mim, tu me iluminas e me agradas, e és amado e
desejado a ponto de eu me envergonhar de mim. renuncio a mim para te escolher, e não quero
agradar a ti ou a mim senão por teu amor.
Portanto, assim como sou, Senhor, tu me conheces. Já te disse com que escopo me vou
confessando a ti. Faço esta confissão não com palavras e vozes do corpo, mas com as palavras
da alma e o brado da inteligência, que teus ouvidos conhecem. Quando sou mau, confessar-me ai
é o mesmo que desprezar a mim próprio; quando sou bom, é apenas nada atribuir a mim mesmo.
Porque tu, Senhor, abençoas o justo, mas antes tornas justo ao pecador.
Assim, meu Deus, a confissão que faço em tua presença, é e não é silenciosa; a boca se
cala, mas meu coração clama. Tudo o que digo aos homens de verdadeiro já tinhas ouvido de
mim, e nem ouves nada de mim que antes não me tivesses dito.
CAPÍTULO III
Por que se confessar aos homens?
Que tenho eu que ver com os homens, para que me ouçam as confissões, como se eles
pudessem curar as minhas enfermidades? São curiosos para conhecer a vida alheia, mas
indolentes para corrigir a própria! Por que desejam ouvir de mim quem sou, quando não se
importam em saber de ti o que são? E como podem saber, ao me ouvirem falar de mim mesmo,
se lhes digo a verdade, uma vez que homem algum sabe o que se passa no outro, senão o
espírito do homem, que nele, habita? Mas, se ouvissem a ti falar deles, não poderiam dizer: “O
Senhor mente”. E o que é ouvir-te falar de si, senão conhecerem-se a si mesmos? E quem,
conhecendo a si mesmo, pode dizer “é falso”, sem mentir?
A caridade crê em tudo – pelo menos entre corações que ela unifica em si por seus laços –
por isso também eu, Senhor, me confesso a ti para que me ouçam os homens. A eles não posso
provar que falo a verdade; mas crêem-me aqueles cujos ouvidos a caridade abre para mim.
Mas tu, Médico da minha alma, faze-me ver claramente a utilidade de meu propósito. As
confissões de meus pecados passados – que já perdoaste e esqueceste, para me fazer feliz em ti,
transformando minha alma com tua fé e teu sacramento – levam o coração dos que as lêem e
ouvem a não dormir no desespero dizendo: “Não posso”. Mas despertem para o amor pela tua
misericórdia e para a doçura de tua graça, que fortalece o fraco e este se dá conta de sua
debilidade.
Os bons, por sua vez, se agradam em ouvir os pecados passados daqueles que já não
sofrem. Agrada-lhes, não por serem pecados, mas porque o foram, e agora já não o são.
Mas, Senhor meu – a quem todos os dias se confessa minha consciência, agora mais
confiante com a esperança na tua misericórdia que na sua inocência – que proveito haverá em
confessar aos homens, na tua presença, neste livro, não o que fui, mas o que sou agora? Sobre a
confissão do passado, e dos seus eventuais proveitos, já falei acima.
Há muitos porém, quer me conheçam, quer não, que desejam saber quem sou agora,
neste momento em que escrevo as Confissões. Já ouviram de mim ou de outros alguma coisa a
meu respeito, mas seu ouvido não ouve meu coração, onde eu sou o que sou. Querem,
certamente, saber por confissão minha o que sou no íntimo, lá onde não podem penetrar com a
vista, com o ouvido, ou com a mente. Estão dispostos a acreditar em mim. Mas poderão
igualmente estar certos de me conhecer? A caridade, que os torna bons, lhes diz que eu não
minto quando confesso tais coisas de mim. É ela que os faz acreditarem em mim.
CAPÍTULO IV
O fruto das confissões
Mas, com que propósito desejam ouvir-me? Desejarão talvez congratular-me comigo,
ouvindo quanto me aproximei de ti por tua graça, e orar por mim, ao ouvir quanto me retardou o
peso de minhas culpas? A estes mostrarei quem sou; já não é pequeno fruto, Senhor meu Deus,
que muitos te dêem graças por mim, e que muitos te roguem por mim. possa o coração de meus
irmãos amar em mim o que ensinas a amar, e, deplorar em mim o que ensinas a aborrecer! Mas
que brotem tais sentimentos em uma alma irmã, e não em almas estranhas, ou nesses filhos
espúrios, cuja boca fala vaidade, e cuja direita é a direita da iniqüidade, que o faça uma alma
fraterna que se alegra por mim quando me aprova, e quando me reprova se aflige por mim,
porque quer me aprove, quer não, me ama.
É a esses que me revelarei. Que eles respirem diante de minhas boas ações, e suspirem à
vista de meus pecados. As obras boas são tuas obras e teus dons; as más são meus pecados. As
obras boas são tuas obras e teus dons; as más são meus pecados, objeto de teus juízos.
Respirem pelo bem e suspirem pelo mal, e que subam à tua presença hinos e lágrimas desses
corações fraternos, que são os teus turíbulos.
E tu, Senhor, que te alegras com a fragrância de teu santo templo, tem piedade de mim,
segundo tua grande misericórdia por causa de teu nome, e tu, que jamais abandonas uma obra
começada, aperfeiçoa em mim o que há de incompleto.
Este poderá ser fruto de minhas confissões, não do que fui, mas do que sou. Farei minha
confissão não apenas a ti, com íntima alegria mesclada de temor, e com secreta tristeza mesclada
de esperança, mas também para os homens, que compartilham minha alegria e de minha
mortalidade, meus concidadãos e peregrinos como eu, quer os que me precederam, como os que
me seguem ou me acompanham no caminho da vida. Estes são teus servos, meus irmãos, que tu
quiseste fossem filhos teus e meus senhores, e a quem me mandaste servir se quisesse viver
contigo e de ti.
Mas este preceito teria sido de pouco valor para mim, se teu Verbo o tivesse proferido
apenas com palavras, e não tivesse mostrado o caminho com a obra. Eis que eu o imito pela ação
e pela palavras, e o faço à sombra de tuas asas, o perigo seria grande demais, se minha alma aí
não se abrigasse, e se minha fraqueza não te fosse conhecida.
Sou como uma criança, mas meu Pai vive sempre, e é meu tutor idôneo; ele é a um tempo
o que me gerou e o que me protege. Tu és todo o meu bem, tu, onipotente, que estás comigo
mesmo antes de eu estar contigo.
Revelarei pois, a estes, a quem me mandas servir, não como fui, mas como já sou agora, e
como ainda não sou. Mas não quero julgar-me a mim mesmo. Assim é que peço para ser ouvido.
CAPÍTULO V
A ignorância do homem
És tu, Senhor, quem me julga, porque ninguém conhece o que se passa no homem, a não
ser o seu espírito que nele está, todavia há no homem coisas que até o espírito que nele habita
ignora. Mas tu, Senhor, que o criaste, conheces todas as coisas. E eu, embora diante de ti me
despreze e me considere como terra e cinza, sei algo de ti que ignoro de mim mesmo. É certo que
agora vemos por espelho, em enigmas, e não face a face. Por isso, enquanto peregrino longe de
ti, estou mais presente a mim do que a ti. Sei que em nada podes ser prejudicado, mas ignoro a
que tentações posso resistir e a quais não posso. Todavia há esperança, pois és fiel, e não
permites que sejamos tentados além de nossas forças; com a tentação, dás também meios para
suportar, para que possamos resistir.
Confessarei, portanto, o que sei de mim, e também o que de mim ignoro, porque o que sei
de mim só o sei porque me iluminas, e o que de mim ignoro continuarei ignorando até que minhas
trevas se transformem em meio-dia, em tua presença.
CAPÍTULO VI
Quem é Deus?
O que sei, Senhor, sem sombra de dúvida, é que te amo. Feriste meu coração com tua
palavra, e te amei. O céu, a terra e tudo quanto neles existe, de todas as partes me dizem que te
ame; nem cessam de repeti-lo a todos os homens, para que não tenham desculpas. Terás
compaixão mais profunda de quem já te compadeceste; e usarás de misericórdia com quem já
foste misericordioso. De outro modo, o céu e a terra cantariam teus louvores a surdos.
Mas, que amo eu, quando te amo? Não amo a beleza do corpo, nem o esplendor fugaz,
nem a claridade da luz, tão cara a estes meus olhos, nem as doces melodias das mais diversas
canções, nem a fragrância de flores, de ungüentos e de aromas, nem o maná, nem o mel, nem os
membros tão afeitos aos amplexos da carne. Nada disto amo quando amo o meu Deus. E,
contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento, um abraço de meu homem interior,
onde brilha para minha alma uma luz sem limites, onde ressoam melodias que o tempo não
arrebata, onde exalam perfumes que o vento não dissipa, onde se provam iguarias que o apetite
não diminui, onde se sentem abraços que a saciedade não desfaz. Eis o que amo quando amo o
meu Deus!
Então, o que é Deus? Perguntei à terra, e ela me disse: “Eu não sou Deus”. E tudo o que
nela existe me respondeu o mesmo. Perguntei ao mar, aos abismos e aos répteis viventes, e eles
me responderam: “Não somos teu Deus; busca-o acima de nós”. Perguntei aos ventos que
sopram; e todo o ar, com seus habitantes, me disse: “Anaxímenes está enganado eu não sou
Deus”. Perguntei ao céu, ao sol, à luz e às estrelas. “Tampouco somos o Deus a quem procuras”
– me responderam.
Disse então à todas as coisas que meu corpo percebe: “Dizei-me algo de meu Deus, já
que não sois Deus; dizei-me alguma coisa dele” – e todas exclamaram em coro: “Ele nos criou” –
Minha pergunta era meu olhar, e sua resposta a sua beleza.
Dirigi-me, então, a mim mesmo, e perguntei: “E tu, quem és?” – e respondi: “Um homem”.
Para me servirem, tenho um corpo e uma alma: aquele exterior, esta interior. Por qual deles
deverei perguntar pelo meu Deus, a quem já havia procurado com o corpo desde a terra até o
céu, até onde pude enviar os raios de meu olhar como mensageiros? Melhor, sem dúvida, é a
parte interior de mim mesmo. É a ela que dirigem suas respostas todos os mensageiros de meu
corpo, como a um presidente ou juiz, respostas do céu, da terra, e de tudo o que existe, e que
proclamam: “Não somos Deus” – e ainda – “Ele nos criou”. O homem interior conhece essas
coisas por meio do homem exterior; mas o homem interior, que é a alma, também conhece essas
coisas por meio dos sentidos do corpo.
Interroguei a imensidão do universo acerca de meu Deus, e ele me respondeu: “Não sou
eu, mas foi ele quem me criou”.
Mas essa beleza não se manifesta a quantos têm sentidos perfeitos? E por que não fala a
todos a mesma linguagem?
Os animais, pequenos ou grandes, a vêem; mas não podem interrogá-la, porque não
receberam a razão que, como juiz, interprete as mensagens dos sentidos. Os homens, porém,
podem interrogá-la, para que as perfeições invisíveis de Deus se manifestem pelas suas obras.
Mas o amor às coisas criadas os escraviza, e assim os torna incapazes de julga-las. Ora, elas só
respondem aos que podem julgar-lhes as respostas. Elas não mudam sua linguagem, isto é, sua
beleza, quando um só as vê, e outro as interroga; elas não lhes aparecem diferentes mas, para
uns ficam mudas, enquanto falam a outros. Ou melhor: eles falam a todos, mas apenas se
entendem os que comparam sua expressão exterior com a verdade interior. De fato a verdade me
diz: “Teu Deus não é nem o céu, nem a terra, nem corpo algum. A natureza das coisas o diz para
quem sabe ver; a matéria é menor em seus elementos que em seu todo. Por isso, minha alma,
digo-te que és superior ao corpo, pois vivificas sua matéria, dando-lhe vida, como nenhum corpo
pode dar a outro corpo. Mas teu Deus é também para ti a vida de tua vida.
CAPÍTULO VII
Deus e os sentidos
Que amo, então, quando amo a meu Deus? Quem é aquele que está acima da minha
alma? É por minha alma; portanto, que subirei até ele. Hei de sobrepujar a força que me ata ao
corpo, e que enche meu organismo de vida, pois não encontro nela o meu Deus. Se assim fosse,
o cavalo e a mula, que não têm inteligência, também o encontrariam, porque essa mesma força
vivifica seus corpos.
E existe outra força, que não só vivifica, mas que também torna sensível minha carne que
o Senhor me deu, ordenando ao olho que não ouça, e ao ouvido que não veja, mas àquele que
sirva para ver, e a este para ouvir; e que determinou a cada um dos outros sentidos o respectivo
lugar e ofício. É deles que se serve minha alma para exercer suas diversas funções,
permanecendo, contudo, uma só.
Vencerei também essa força, que também a possuem o cavalo e a mula, pois também eles
sentem por meio do corpo.
CAPÍTULO VIII
O milagre da memória
Vencerei então esta força de minha natureza, subindo por degraus até meu Criador.
Chegarei assim diante dos campos, dos vastos palácios da memória, onde estão os
tesouros de inúmeras imagens trazidas por percepções de toda espécie. Lá também estão
armazenados todos os nossos pensamentos, quer aumentando, quer diminuindo, ou até alterando
de algum modo o que nossos sentidos apanharam, e tudo o que aí depositamos, se ainda não foi
sepultado ou absorvido no esquecimento.
Quando ali penetro, convoco todas as lembranças que quero. Algumas se apresentam de
imediato, outras só após uma busca mais demorada, como se devessem ser extraídas de
receptáculos mais recônditos. Outras irrompem em turbilhão e, quando se procura outra coisa, se
interpõem como a dizer: “Não seremos nós que procuras?” Eu as afasto com a mão do espírito da
frente da memória, até que se esclareça o que quero, surgindo do esconderijo para a vista.
Há imagens que acodem à mente facilmente e em seqüência ordenada à medida que são
chamadas, as primeiras cedendo lugar às seguintes, e desaparecem, para se apresentarem
novamente quando eu o quiser. É o que sucede quando conto alguma coisa de memória.
Ali se conservam também, distintas em espécies, as sensações que aí penetraram cada
qual por sua porta: a luz, as cores, as formas dos corpos, pelos olhos; toda espécie de sons, pelos
ouvidos; todos os odores, pelas narinas; todos os sabores, pela boca; enfim, pelo tato de todo o
corpo, o duro e o brando, o quente e o frio, o suave e o áspero, o pesado e o leve, quer
extrínseco, como intrínseco ao corpo. A memória armazena tudo isso em seus vastos recessos,
em suas secretas e inefáveis sinuosidades, para lembra-lo e trazê-lo à luz conforme a
necessidade. Todas essas imagens entram na memória por suas respectivas portas, sendo ali
armazenadas.
Todavia, não são as coisas em si que entram na memória, mas as imagens das coisas
sensíveis, que ali ficam à disposição do pensamento que as evoca. Mas quem poderá explicar
como se formaram tais imagens, apesar de se conhecer o sentido pelo qual foram captadas e
escondidas em seu íntimo? Pois, mesmo quando estou em silêncio e no escuro, imagino, se
quiser, as cores, e sei distinguir o branco do preto, e todas as outras entre si; e isto sem que os
sons, mesmo os lembrados, perturbem minhas imagens visuais, e permanecem como que a parte.
Se decido chama-los, eles se apresentam imediatamente. Mesmo quando minha língua descansa
e minha garganta se cala, canto quanto quero, sem que as imagens das cores, também
presentes, se interponham ou perturbem enquanto me sirvo do tesouro que me entrou pelos
ouvidos.
Do mesmo modo as demais impressões, introduzidas e armazenadas em mim por meio
dos outros sentidos, posso recordar a meu talante; distingo o aroma dos lírios do das violetas,
sem cheirar nenhuma flor; e sem provar nem tocar em nada, mas apenas com a lembrança, posso
preferir o mel ao arrobe e o macio ao áspero.
Tudo isto realizo interiormente, no imenso palácio da memória. Ali eu tenho às minhas
ordens o céu, a terra, o mar, com tudo o que neles pude perceber, com exceção do que já me
esqueci. Ali encontro a mim mesmo, recordo de mim e de minhas ações, de seu tempo e lugar, e
dos sentimentos que me dominavam ao praticá-las. Ali encontro a mim mesmo, recordo de mim e
de minhas ações, de seu tempo e lugar, e dos sentimentos que me dominavam ao praticá-las. Ali
estão todas as lembranças do que aprendi, quer pelo testemunho alheio, quer pela experiência.
Deste mesmo manancial provém as analogias entre fatos de minhas experiências pessoais, ou
em que acreditei baseado nas experiências previas; ligo umas e outras ao passado, e medito no
futuro, nas ações, nos acontecimentos, nas esperanças, e tudo como se estivesse presente.
“Farei isto ou aquilo” – digo para mim, nesse vasto universo de minha alma, repleto de imagens de
tantas e tão grandes coisas. E disso tiro esta ou aquela conclusão. “Oh! Se acontecesse isto ou
aquilo!” “Queira Deus não aconteça isto ou aquilo!” isto digo em meu íntimo, e nisso visualizando
as imagens das realidades que exprimo, saídas do mesmo tesouro da memória; sem elas, nada
poderia dizer.
Grande é realmente o poder da memória, prodigiosamente grande, meu Deus! É um
santuário amplo e infinito. Quem o pôde sondar até suas profundezas? É um poder próprio de
meu espírito, que pertence à minha natureza; mas eu não sou capaz de compreender
inteiramente o que sou. Será o espírito demasiado estreito para se conter a si mesmo? Onde,
então, está o que ele não pode conter de si? Estaria fora dele, e não nele? Como então não o
contém?
Esta idéia me provoca grande admiração, e me enche de espanto. Viajam os homens para
admirar as alturas dos montes, as grandes ondas do mar, as largas correntes dos rios, a
imensidão do oceano, a órbita dos astros, e se esquecem de si mesmos! Nem se admiram que eu
fale dessas coisas sem vê-las com os olhos; contudo, eu não as poderia mencionar se esses
montes, se essas ondas, esses rios, esses astros, que eu vi, se esse oceano, no qual acredito
pelo testemunho alheio, eu não os visse na memória em toda sua dimensão, como se estivessem
diante de mim. mas quando eu os vi com meus olhos, eu não os absorvi; não são as coisas que
se encontram dentro de mim, mas apenas suas imagens. E sei por qual sentido do corpo recebi a
impressão de cada uma delas.
CAPÍTULO IX
A memória intelectual
E não se limita a isto a imensa capacidade de minha memória. Ali estão, como em um
lugar recôndito, que alias, não é um lugar, todas as noções aprendidas das artes liberais, pelo
menos as que ainda não esqueci. Mas, neste caso, não são as imagens delas que trago em mim,
mas as próprias realidades em si. As noções de literatura, a dialética, as diferentes espécies de
questões, tudo o que sei a respeito desses problemas estão em minha memória, mas não estão
ali como a imagem solta de uma coisa, cuja realidade se deixou fora. Nesse caso seria como um
som que se ouve e passa, como a voz que deixa no ouvido um rastro, que permite que a
lembremos, como se ainda soasse embora já não soe; ou como o perfume que, ao passar e
desvanecer-se no ar, atinge o olfato e grava sua imagem na memória, imagem que a lembrança
reproduz; ou como o alimento, que perde o sabor no estômago, mas o conserva na memória; ou
como um corpo que se sente pelo tato e que, ausente, é imaginado pela memória. Todas essas
realidades não nos penetram a memória, mas tão somente são captadas as suas imagens com
maravilhosa rapidez, e dispostas, digamos, em compartimentos admiráveis, de onde são extraídas
pelo milagre da lembrança.
CAPÍTULO X
Memória dos sentidos
Ouço dizer que há três gêneros de questões a saber: se uma coisa existe, qual a sua
natureza e qual sua qualidade – retenho a imagem dos sons de que se compõem estas palavras,
e sei que estes atravessaram o ar como ruído, e já não existem. Mas as realidades significadas
por tais palavras, eu jamais atingi com nenhum sentido do corpo, nem as vi em nenhuma parte
fora de meu espírito; o que gravei na minha memória não são suas imagens, mas as próprias
realidades. Que me digam, se o puderem, por onde entraram em mim! percorro em vão todas as
portas do meu corpo, e não descubro por onde poderiam ter entrado. Com efeito: os olhos dizem:
“Se são coloridas, fomos nós que as transmitimos.” – Os ouvidos dizem: “Se eram sonoras, foram
por nós comunicadas”. – As narinas dizem: “Se tinham cheiro, passaram por aqui”. – E o gosto
diz: “Se não têm sabor, nada me perguntem”. – O tato declara: “Se não são corpóreas, eu não as
toquei, e portanto não poderia revelá-las”
De onde, então, e por onde entraram em minha memória? Ignoro-o. Aprendi-as não dando
crédito ao testemunho alheio, mas as reconheci em mim e aprovei-as como verdadeiras; confieias
a meu espírito como em depósito, de onde poderei tirá-las quando quiser. Estavam pois ali,
antes mesmo que eu as aprendesse, mas não na memória. E onde estavam então? E porque, ao
serem mencionadas, eu as reconheci e disse: “É assim mesmo, é verdade” – senão porque já
estavam em minha memória? Mas tão escondidas e sepultadas em tão secretos recessos, que se
alguém não as arrancasse dali com suas perguntas, talvez eu nem pudesse concebê-las.
CAPÍTULO XI
Idéias inatas
Por isso descobrimos que adquirir tais noções – cujas imagens não atingimos por meio dos
sentidos mas que percebemos em nós, sem o auxílio de imagens, tais como são em si mesmas,
nada mais é do que coligir com o pensamento os elementos esparsos na memória e, pela
reflexão, obrigá-los a estarem sempre disponíveis à memória, onde antes se ocultavam em
desordem e abandono, de modo que se apresentem sem dificuldade ao chamado do nosso
espírito. E quantas noções deste tipo não encerra minha memória, já descobertas e, como disse,
postas como que à mão; eis o que chamamos de “aprender” e “saber”. Se porém deixo de as
recordar por uns tempos, de tal modo submergem e se dispersam em seus profundos
esconderijos, que é preciso reuni-las uma segunda vez, como se fossem novas (cogente) – pois
não têm outra habitação – e juntá-las de novo para que possam ser objeto do saber; isto é:
preciso tirá-las de sua condição de dispersão e juntá-las novamente. Daí a palavra cogitare,
porque cogo e cogito são como ago e agito, e facio, facito. Contudo, a inteligência reivindicou essa
palavra (cogito) para si, de modo que essa operação de coligir, de reunir no espírito, e não em
outra parte, é propriamente o que se chama pensar (cogitare).
CAPÍTULO XII
A memória e as matemáticas
A memória guarda também as relações e inumeráveis leis dos números e dimensões,
sendo que nenhuma dessas idéias foi impressa em nós pelos sentidos do corpo, porque não têm
cor, nem som, nem têm cheiro, nem gosto, nem são tangíveis. Ouço, quando elas se fala, os sons
das palavras que as exprimem; mas uma coisa são os sons, e outra bem diferente são as idéias
que elas significam. As palavras soam de modo diferente em grego e em latim; mas as idéias nem
são gregas, nem latinas, nem de nenhuma outra língua.
Vi linhas traçadas por artistas, finas como um fio de aranha. Mas as linhas materiais não
são a imagem das que vi com meus olhos carnais. Para reconhecê-las não há necessidade
alguma de se pensar em um corpo qualquer, pois, é no espírito que as reconhecemos.
Também conheci os números mediante os sentidos do corpo: mas a idéia de número é
bem diferente: não são imagens dos primeiros, possuindo por isso mesmo um ser muito mais real.
Ria-se de mim quem não compreender o que disse; eu terei compaixão de seu riso.
CAPÍTULO XIII
A memória da memória
Tudo isso eu guardo em minha memória, assim como o modo pelo qual o aprendi.
Também guardo na memória as muitas argumentações infundadas que ouvi contra essas
verdades. Essas objeções sem dúvida são falsas, mas não é falso recordá-las. E lembro de ter
sabido distinguir entre essas verdades e os erros que se lhe opunham. Vejo agora que uma coisa
é essa distinção, que faço hoje, e outra o recordar ter feito muitas vezes tal distinção, ao
considerá-las. Lembro-me, portanto, de ter muitas vezes compreendido isso, e confio à memória o
ato atual de distingui-las e compreendê-las, para me lembrar, mais tarde, de que hoje as
compreendi. Lembro-me então de que me lembrei; e se mais tarde lembrar de que agora pude
recordar essas coisas, será ainda por força da memória.
CAPÍTULO XIV
A lembrança dos sentimentos
Essa mesma memória conserva também os afetos da alma, não do modo como os sente a
alma quando da vivencia, mas de modo muito diverso, segundo o exige a força da memória.
Lembro-me de ter estado alegre, ainda que não o esteja agora; recordo minha tristeza passada,
sem estar triste; lembro-me de ter sentido medo, sem senti-lo de novo; lembro-me de antigo
desejo, sem que o mesmo sinta agora. Outras vezes, pelo contrário, lembro-me com alegria a
tristeza passada, e com tristeza uma alegria passada. Isto nada tem para admirar quando se trata
de emoções corporais, porque uma coisa é a alma e outra o corpo; e assim não é maravilha que
me lembre com alegria de um sofrimento físico já passado.
Porém, aqui o espírito é a própria memória. Quando confiamos uma tarefa a alguém,
dizemos: “Não o guardei no espírito”, “fugiu-me do espírito”. É, portanto, a memória que
chamamos de espírito. Sendo assim, por que ao evocar com alegria uma tristeza passada, meu
espírito sente alegria e minha memória, tristeza? Se meu espírito se alegra com a alegria que tem
em si, por que a memória não se entristece com a tristeza, que também tem em si? Seria a
memória estranha ao espírito? Quem ousará afirmá-lo? Sem dúvida a memória é como o
estômago da alma, e a alegria e a tristeza são como alimentos, doce ou amargo; quando tais
emoções são confiadas à memória, depois de passarem, digamos, por esse estômago, podem ali
serem guardadas, mas já perderam o sabor. Seria ridículo comparar emoções e alimento como
semelhantes. Contudo, elas não são totalmente diferentes.
É ainda da memória que tiro a distinção entre as quatro emoções da alma: o desejo, a
alegria, o medo e a tristeza. Assim, todo raciocínio que eu teça, dividindo cada uma delas nas
espécies de seus gêneros, definindo-as, é na memória que encontro o que tenho a dizer, e de lá
tiro tudo o que digo. Contudo, ao recordar essas emoções, não me perturbo com nenhuma delas.
E antes mesmo que eu as recordasse para discuti-las, elas ali estavam, e por isso puderam ser
tiradas da memória mediante a lembrança. Talvez a lembrança tire da memória essas emoções
como o ato de ruminar tira do estômago os alimentos. Mas então, por que aquele que rumina
sobre tais paixões não sente na boca do pensamento a doçura da alegria ou a amargura da
tristeza? Estará justamente nisto a diferença entre tais fatos? De fato, quem gostaria de falar
dessas emoções se, todas as vezes que falássemos do medo ou da tristeza, nos víssemos tristes
ou temerosos?
Contudo, certamente não poderíamos falar deles se não encontrássemos na memória não
só os sons dessas palavras, segundo a imagem gravada em nós pelos sentidos, mas ainda as
noções que elas exprimem. Essas noções, nós não a recebemos por nenhuma porta da carne,
mas a própria alma, sentindo-as pela experiência das próprias emoções, confiou-as à memória; ou
então a própria memória as reteve, sem que ninguém lhas confiasse.
CAPÍTULO XV
A memória das coisas ausentes
Mas quem poderá explicar se a recordação se faz por meio de imagens ou não?
Por exemplo: se digo pedra, ou digo sol, sem que tais objetos estejam presentes a meus
sentidos, certamente tenho suas imagens na memória, à minha disposição.
Evoco uma dor do corpo, que está ausente de mim, já que nada me dói. Contudo, se a
imagem da dor não estivesse em minha memória, não saberia o que dizia, e ao raciocinar não a
distinguiria do prazer.
Falo de saúde do corpo, estando são; neste caso, está em mim o próprio objeto. No
entanto, se sua imagem não estivesse em minha memória, de modo algum lembraria o significado
dessa palavra. Os doentes, ouvindo falar de saúde, não saberiam do que se trata, não fosse o
poder da memória a conservar a imagem da ausência da realidade.
Falo dos números com que calculamos, e eles se apresentam na memória, não suas
imagens, mas os próprios números.
Evoco a imagem do sol, e esta se apresenta à minha memória; e não evoco a imagem de
uma imagem, mas a própria imagem, disponível à recordação.
Falo em memória, e reconheço o que falo, mas de onde o sei, senão da própria memória?
Estará ela presente a si própria por sua imagem, e não por si mesma?
CAPÍTULO XVI
A memória do esquecimento
E quando falo do esquecimento, e reconheço de que falo, como poderia eu reconhecê-lo
se dele não lembrasse? Não falo do som da palavra, mas da realidade que ela exprime. Se eu a
tivesse esquecido, não seria capaz de reconhecer o significado de tal som. Por isso, quando me
lembro da memória é por ela mesmo que se apresenta a mim; mas quando me lembro do
esquecimento, este e a memória estão presentes simultaneamente: a memória, com que me
recordo, e o esquecimento, de que me recordo.
Mas, que é o esquecimento, senão falta de memória? E como pode ele estar presente na
minha lembrança. Se sua lembrança significa não lembrar? Mas se nos lembramos, o guardamos
na memória, e se nos é impossível reconhecer o que significa a palavra esquecimento, quando a
ouvimos, a não ser que dele nos lembremos, logo a memória é a que retém o esquecimento. Ele
está na memória, pois do contrário, nós o esqueceríamos; mas, ele presente, nós nos
esquecemos. Segue-se que ele não está presente à memória por si mesmo, quando nos
lembramos dele, mas por sua imagem. Do contrário, o esquecimento não faria com que nos
lembrássemos, mas com que nos esquecêssemos. Mas, enfim, quem poderá descobrir, quem
poderá compreender o modo como isto se realiza?
Mas, Senhor, esgota-me esta busca e é, portanto, sobre mim mesmo que me canso;
tornei-me para mim mesmo uma terra de dificuldades e árduos labores. Por que não exploro
agora as regiões do firmamento, nem meço as distâncias dos astros, nem busco as leis do
equilíbrio da terra. Sou eu que me lembro, eu, o meu espírito. Não é de admirar que esteja longe
de mim tudo o que não sou eu. Todavia, que há mais perto de mim do que eu mesmo? No
entanto, é-me impossível compreender a natureza de minha memória, sem a qual eu nem poderia
pronunciar meu próprio nome.
Que direi então, desde que tenho a certeza que lembro do esquecimento? Diria talvez que
não está em minha memória o que recordo? Ou talvez direi que o esquecimento está em minha
memória, para que não o esqueça? Ambas hipóteses são grandes absurdos. Vejamos uma
terceira hipótese: poderei eu afirmar que minha memória retém a imagem do esquecimento, e não
o esquecimento em si, quando dele me lembro? Com que fundamento, pois, poderei dizê-lo, se
para que se grave na memória a imagem de um objeto, é necessário que este esteja presente
antes, de onde emana a imagem a ser gravada? É assim que lembro de Cartago, e assim de
todos os outros lugares por que passei; assim me lembro do rosto dos homens que vi e das
coisas que meus sentidos me deram a conhecer; assim me lembro ainda da dor física, coisas
cujas imagens a memória fixou quando estavam presentes, para que eu as pudesse contemplar e
repassar em espírito, quando eu as evocasse na sua ausência.
Se, pois, é a imagem do esquecimento que está na memória, e não ele mesmo, é evidente
que nalgum momento esteve presente para que sua imagem fosse fixada. Mas, se estava
presente, como podia gravar na memória sua imagem, se o esquecimento apaga com sua
presença tudo o que lá está impresso? Contudo, seja qual for o mecanismo desse fenômeno, e
por mais incompreensível e inexplicável que seja, estou certo de que me lembro do esquecimento,
que apaga da memória, todas as nossas lembranças.
CAPÍTULO XVII

Deus e a memória
Grande é o poder da memória! E ela tem algo de terrível, meu Deus, em sua complexidade
infinita e profunda. E isto é o espírito, e isto sou eu mesmo. Que sou, pois meu Deus? Qual a
minha natureza? Vida vária e multiforme, de amplidão imensa. Eis-me em minha memória, em
seus campos, antros, inumeráveis cavernas, tudo isso infinitamente cheio de toda espécie de
coisas, também inumeráveis. Umas gravadas em imagens, como os corpos; outras, estão sob a
forma de não sei que noções e sinais, como os afetos da alma, que a memória conserva quando a
alma já não os sente, embora tudo o que está na memória esteja também no espírito. Percorro em
todas as direções este mundo interior, vou de um lado para outro, e nele me aprofundo o mais
possível, sem encontrar-lhe os limites, tão grande é a vida que reside no homem mortal!
Que hei de fazer, pois, meu Deus, minha verdadeira vida? Ultrapassarei também esta
faculdade que se chama memória? Ultrapassá-la-ei para chegar a ti, doce luz? Que dizes?
Subindo em espírito a ti, que estás acima de mim, ultrapassarei também esta minha força, que se
chama memória, pois quero atingir-te onde és acessível, e unir-me a ti por onde possa fazê-lo.
Também os animais e as aves têm memória, porque de outro modo não voltariam a seus ninhos e
tocas, nem fariam outras coisas habituais, e nem mesmo poderiam adquiri hábitos sem a
memória. Passarei, pois, além da memória para chegar àquele que me separou dos animais e me
fez mais sábio que as aves do céu. Passarei além da memória, mas onde te hei de achar, ó Deus
verdadeiramente bom, suavidade segura? Onde te hei de encontrar? Se te encontro sem minha
memória, estou esquecido de ti, e se não me lembro de ti, como te poderei encontrar?
CAPÍTULO XVIII
A memória das coisas perdidas
Uma mulher perdeu uma dracma, e a procurou com sua lanterna. Mas se não se
lembrasse dela, não a haveria de encontrar; de fato, se dela não lembrasse, como poderia saber,
ao acha-la, que era aquela?
Lembro-me de ter procurado e achado muitas coisas perdidas, sei disso porque, estando
eu à procura, me diziam: “Por acaso é esta?” “Por acaso é aquela?” – e eu sempre respondia que
não, até encontrar o que procurava. Se não tivesse fixado a lembrança do objeto, fosse o que
fosse, ainda que me fosse mostrado, não o encontraria, pois não o poderia reconhecer. E sempre
que perdemos e achamos alguma coisa acontece o mesmo.
Se alguma coisa desaparece de nossa vista, e não da memória – como sucede com um
corpo visível – conservamos interiormente sua imagem e o procuramos até que apareça a nossos
olhos. Quando for encontrado, será reconhecido de acordo com essa imagem interior. Não
podemos dizer que encontramos um objeto perdido se não o reconhecemos; nem o podemos
reconhecer se dele não lembramos. Tinha pois desaparecido da nossa vista, mas era conservado
pela memória.
CAPÍTULO XIX
A memória das lembranças
E quando a própria memória perde uma lembrança, como acontece quando nos
esquecemos de algo e procuramos recordá-la, o que se passa? Onde, afinal, a procuramos senão
na própria memória? E se esta, por acaso, nos oferece uma coisa por outra, a repelimos até que
apareça o que buscamos. E assim que aparece dizemos: “É isto”. E assim não diríamos se não a
reconhecêssemos, e não a reconheceríamos se dela não houvesse registro. É certo, portanto, que
já a havíamos esquecido. Ou será que ela não se apagara totalmente de nossa memória, por
meio da parte que nos ficou impressa procuramos a outra? A memória, nesse caso, teria ciência
de não poder, como de ordinário, fornecer a lembrança em seu conjunto e, mutilada, reclamaria e
parte faltante. É o que sucede quando vemos uma pessoa conhecida, ou nela pensamos sem
poder recordar seu nome. Se outro nome nos apresenta ao espírito, não o associamos à tal
pessoa; por isso o afastamos, até que se apresenta um que concorde com nossa representação
habitual da pessoa.
Mas donde nos vem este nome, senão da memória? Mesmo quando nos é sugerido por
outrem, é pela memória que reconhecemos; não o aceitamos como um conhecimento novo, mas
recordando-o, confirmamos ser esse o nome que nos disseram. Se fosse totalmente apagado da
alma, nem mesmo avisados o reconheceríamos.
Não podemos pois, afirmar que nos esquecemos completamente daquilo de que nos
lembramos ter esquecido. De nenhum modo poderíamos resgatar uma lembrança perdida se seu
esquecimento fosse total.
CAPÍTULO XX
A memória da felicidade
E como hei de te buscar, Senhor? Quando te procuro, meu Deus, estou à procura da
felicidade. Procurar-te-ei para que minha alma viva, porque meu corpo vive de minha alma, e
minha alma vive de ti. Como então devo buscar a felicidade? Porque não a possuirei até que
possa dizer “basta”. Como, pois, procurá-la? Talvez pela lembrança, como se a tivesse esquecido,
guardando contudo a lembrança do esquecimento? Ou pelo desejo de conhecer algo
desconhecido ou por nunca tê-lo vivido, ou por tê-lo esquecido a ponto de nem ter consciência do
seu esquecimento?
Mas não será justamente a felicidade que todos querem, sem exceção? E onde a
conheceram para a desejarem tanto? Onde a viram para assim a amarem? O que é certo é que
está em nós a sua imagem. Mas não sei como isto se dá. E há diversos modos de ser feliz: quer
possuindo realmente a felicidade, quer possuindo apenas sua esperança. Este último modo é
inferior ao dos que são realmente felizes, embora estejam melhor que os não felizes nem na
realidade, nem na esperança. Mesmo estes, todavia, não desejariam tanto a felicidade se esta
lhes fosse completamente estranha, e é certo que a desejam. Não sei como a conheceram, e
portanto ignoro a noção que dela têm. O que me preocupa é saber se essa noção reside na
memória, pois, se é lá que reside, é sinal de já fomos felizes alguma vez. Por ora não busco saber
se todos fomos felizes individualmente, ou se o fomos naquele que pecou primeiro, e no qual
todos morremos, e de quem nascemos na infelicidade. O que procuro saber é se a felicidade
reside na memória, porque certamente não a amaríamos se não a conhecêssemos. Mal ouvimos
esta palavra, e todos confessamos que desejamos a mesma coisa; e não é o som da palavra que
nos deleita. Quando um grego a ouve pronunciar em latim, não se alegra, porque ignora seu
sentido. Mas nós nos alegramos ao ouvi-la, como ele se a ouvisse em sua língua. A felicidade,
com efeito, não é grega nem latina; mas gregos e latinos, assim como todos que falam outras
línguas, desejam alcançá-la.
Logo, a felicidade é conhecida de todos; e se fosse possível perguntar-lhes a uma voz:”
Quereis ser felizes?” – todos, sem hesitar, responderiam que sim. E isso não aconteceria se a
memória não tivesse em si a realidade, expressa por essa palavra.
CAPÍTULO XXI
A memória do que nunca tivemos
Podemos comparar essa lembrança à que conserva de Cartago, quem a viu? Não, a
felicidade não se vê com os olhos, pois não é corporal. Seria pois comparável à lembrança dos
números? Também não, pois quem conhece os números não deseja adquiri-los. Pelo contrário, a
idéia da felicidade nos inclina a amá-la e a querer possuí-la, para sermos felizes.
Lembramos dela, talvez, como lembramos da eloqüência? Também não, embora ao ouvir
essa palavra, muitos que não são eloqüentes a associam à realidade que ela exprime, e
desejariam obtê-la, o que indica que já têm idéia de eloqüência. Foi porém pelos sentidos do
corpo que ouviram a eloqüência alheia, deleitando-se com ela, e desejando também ser
eloqüentes. E certamente não lhes daria prazer se já não tivessem uma idéia da eloqüência, e
nem a desejariam se esta não os tivesse deleitado. Mas a felicidade não a percebemos nos outros
por nenhum sentido corporal.
Essa lembrança, será porventura comparável à da alegria? Talvez, pois quando estou
triste me lembro da alegria passada, e quando infeliz, lembro-me da felicidade. Ora, esta alegria,
eu jamais a vi, ou ouvi, ou senti, ou saboreei, ou toquei; apenas a experimentei em minha alma
quando me alegrei. E esta idéia se fixou em minha memória para que eu pudesse recordá-la, às
vezes com desgosto, outras com saudades, conforme as circunstâncias que a geraram.
De fato me senti invadido de alegria causada por ações torpes, cuja lembrança agora
aborreço e abomino; outras vezes alegrei-me por ações boas e honestas, das quais me lembro
com saudade; mas já pertencem ao passado, e evoco com tristeza minha antiga alegria.
Mas onde e quando, então, experimentei a felicidade para lembrar-me dela, para amá-la e
deseja-la? Não sou eu apenas, ou alguns que a desejam; mas todos, sem exceção queremos ser
felizes. Sem uma noção precisa da felicidade, nossa vontade não teria essa firmeza.
Que significa isto? Se perguntarmos a dois homens se querem alistar-se no exército, talvez
um responda que sim o outro que não. Mas, perguntemos se desejam ser felizes, e ambos
responderão que sim, sem nenhuma hesitação. E desejando um engajar-se, e o outro não, têm
ambos a mesma finalidade: ser felizes. Um gosta disto, outro daquilo, mas ambos concordam em
ser felizes, como seria unânime a resposta afirmativa a quem lhes perguntasse se querem estar
alegres. Essa alegria é o que eles chamam de felicidade. E ainda que um siga por um caminho e
outro por outro, a finalidade de todos é um só: a alegria. Como a alegria é um sentimento do qual
todos temos experiência, a encontramos em nossa memória, e a reconhecemos ao ouvir
pronunciar a palavra felicidade.
CAPÍTULO XXII
A verdadeira felicidade
Longe de mim, longe do coração de teu servo, Senhor, que a ti se confessa, a idéia de
encontrar a felicidade não importa em que alegria! A felicidade é uma alegria que não é concedida
aos ímpios, mas àqueles que te servem por puro amor: tu és essa alegria! Alegrar-se de ti, em ti e
por ti: isso é felicidade. E não há outra. Os que imaginam outra felicidade, apegam-se a uma
alegria que não é a verdadeira. Contudo, sempre há uma imagem da alegria da qual sua vontade
não se afasta.
CAPÍTULO XXIII
Felicidade e verdade
Poderemos então concluir que nem todos desejam ser felizes, pois há aqueles que não
querem buscar em ti sua alegria, tu que és a única felicidade? Ou talvez todos a queiram, mas,
como a carne combate contra o espírito, e o espírito contra a carne, e com isso se contentam.
Porque não querem com força bastante aquilo que não podem, para obtê-lo.
Pergunto a todos se preferem encontrar a alegria na verdade ou no erro; ninguém hesita
em declarar que preferem a verdade, como em dizer que querem ser felizes. É que a felicidade é
a alegria que provém da verdade. E essa alegria é a que nasce de ti, que és a própria Verdade, ó
meu Deus, minha luz, saúde de meu rosto! Todos querem essa vida, a única feliz, essa alegria
que se origina na verdade.
Encontrei muitos que gostam de enganar, mas ninguém que quisesse ser enganado.
Onde, então, conheceram a felicidade, senão onde conheceram a verdade? Visto que não querem
ser enganados, também amam a verdade, e desde que amam a felicidade, que nada mais é que a
alegria proveniente da verdade, certamente também amam a verdade; e não a amariam se não
retivessem dela, na sua memória, alguma noção. Por que, então, não se alegram com ela? Por
que não são felizes? Porque se empolgam demais com outras coisas, que os tornam mais
infelizes do que a verdade, de que se recordam fracamente, e que os faria felizes.
Há ainda um pouco de luz entre os homens: caminhem, caminhem, para que as trevas não
os surpreendam.
Mas por que a verdade gera o ódio? Por que os homens olham como inimigo aquele que a
prega em teu nome, uma vez que amam a felicidade, que mais não é que a alegria nascida da
verdade? Talvez por amarem a verdade de tal modo que tudo de diferente que amam, querem
que seja verdade; e, não admitindo ser enganados, também não querem ser convencidos de seu
erro. Desse modo, detestam a verdade por amarem aquilo que tomam pela verdade. Amam-na
quando ela brilha, mas odeiam-na quando os repreende; e, como não querem ser enganados,
mas enganar, eles a amam quando ela se manifesta, mas a odeiam quando ela os denuncia.
Porém ela os castiga; não querem ser descobertos pela verdade, mas esta os denuncia, sem que
por isso se manifeste a eles.
É assim o coração do homem! Cego e lerdo, torpe e indecente: quer permanecer oculto,
mas não quer que nada lhe seja ocultado. Em castigo, sucede-lhe o contrário: não consegue
esconder-se da verdade, enquanto esta lhe continua oculta. Contudo, apesar de tão infeliz,
prefere encontrar alegrias na verdade que no erro. Será, portanto, feliz quando, livre de
perturbações, se alegrar somente na Verdade, origem de tudo o que é verdadeiro.
CAPÍTULO XXIV
Deus e a memória
Eis como esquadrinhei minha memória em tua procura, Senhor: não me foi possível
encontrar-te fora dela. Nada encontrei de ti que não fosse lembrança, e nunca me esqueci de ti
desde que te conheci. Onde encontrei a verdade, aí encontrei a meu Deus, que é a própria
verdade; e desde que aprendi a conhecer a verdade, nunca mais a esqueci. Por isso, desde que
te conheço, permaneces em minha memória. É lá que te encontro quando me lembro de ti e
quando sou feliz em ti. Estas são as santas delicias que me deste em tua misericórdia, olhando
para minha pobreza.
CAPÍTULO XXV
Recapitulação
Onde habitas em minha memória, Senhor, em que lugar dela estás? Que esconderijo
construíste aí? Que santuário aí edificaste para ti? Deste-me a honra de morar em minha
memória; mas em que parte dela resides? É o que quero agora descobrir.
Quando me recordei de ti, ultrapassei aquela região da memória que também os animais
possuem, pois não te encontrei entre as imagens dos objetos corpóreos. E cheguei àquela parte
onde depositei os afetos de minha alma, mas também aí não te encontrei. Cheguei à morada que
meu próprio espírito possui na memória – porque também o espírito lembra de si mesmo – mas
nem ali estavas. Isso porque não és imagem corpórea, nem afeto de ser vivo, como a alegria, a
tristeza, o desejo, o temor, a lembrança, o esquecimento e outros semelhantes, e nem és meu
próprio espírito, porque és o Senhor e Deus do espírito, e tudo isso é mutável, enquanto
permaneces imutável e subsistes acima de todas as coisas, e te dignaste habitar em minha
memória desde que te conheço.
Mas, por que perguntar em que lugar da memória habitas, como se a memória tivesse
compartimentos? Certo é que habitas nela desde que te conheço, e é nela que te encontro,
quando penso em ti.
CAPÍTULO XXVI
Onde encontrar Deus?
Onde, então, te encontrei, para te conhecer? Não estavas ainda em minha memória antes
de eu te conhecer. Onde, então, te encontrei, para te conhecer, senão em ti mesmo, acima de
mim? No entanto, aí não existe espaço. Quer nos afastemos de ti, quer nos aproximemos, aí não
existe espaço algum. Ó Verdade, por toda parte assistes aos que te consultam, e respondes ao
mesmo tempo a todas essas diversas consultas. Tuas respostas são claras, mas nem para todos.
Os homens te consultam sobre o que querem, mas nem sempre ouvem as respostas que querem.
Teu servo fiel é o que não pensa em ouvir de ti a resposta que quer, mas em querer a resposta
que lhe dás.
CAPÍTULO XXVII
Solilóquio de amor
Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro de mim,
e eu lá fora, a te procurar! Eu, disforme, me atirava à beleza das formas que criaste. Estavas
comigo, e eu não estava em ti. Retinham-me longe de ti aquilo que nem existiria se não existisse
em ti. Tu me chamaste, gritaste por mim, e venceste minha surdez. Brilhaste, e teu esplendor
afugentou minha cegueira. Exalaste teu perfume, respirei-o, e suspiro por ti. Eu te saboreei, e
agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me, e o desejo de tua paz me inflama.
CAPÍTULO XXVIII
A vida do homem
Quando me unir a ti com todo meu ser, não sentirei mais dor ou fadiga; minha vida, cheia
de ti, será então a verdadeira vida. Alivias aqueles que enches de ti; mas, como ainda não estou
cheio de ti, sou um peso para mim mesmo. Minhas alegrias, que deveriam ser choradas, lutam
com minhas tristezas que deveriam alegrar-me, e ignoro de que lado está a vitória.
Ai de mim, Senhor, tem piedade de mim! As tristezas do meu mal lutam com minhas
santas alegrias, e eu não sei de que lado está a vitória. Ai de mim! Senhor, tem piedade de mim!
Eis minhas feridas: eu não as escondo. Tu és o médico, eu o enfermo; és misericordioso, e eu,
miserável. Não é contínua tentação a vida do homem sobre a terra? Quem quer aborrecimentos e
dificuldades? Mandas que os suportemos, e não que os amemos. Ninguém ama o que tolera,
ainda que goste de o tolerar; e mesmo que alguém se alegre em tolerar, preferiria nada ter que
suportar. Na adversidade, desejo a prosperidade, e na prosperidade temo a adversidade. Entre
estes dois extremos, qual será o termo médio onde a vida humana não seja tentação?
Ai das prosperidades do século, onde se receia a adversidade e a alegria é corrompida! Ai
das adversidades do século, uma, duas, três vezes ai! Pelo desejo da prosperidade, por ser dura
a adversidade, e pelo temor que vença a nossa paciência! A vida do homem sobre a terra não é
pois uma contínua tentação?
CAPÍTULO XXIX
Esperança em Deus
Só na grandeza da Tua misericórdia coloco toda minha esperança. Dai-me o que me
ordenas e ordena-me o que quiserdes. Mandas que sejamos castos. “Sabendo, diz um sábio, que
ninguém pode ser casto se Deus não lhe der este dom, já é sabedoria saber de quem procede
este dom”. A continência reúne os elementos de nossa pessoa, reconduz-nos à unidade que
perdemos dispersando-nos por tantas criaturas. Pouco te ama quem te ama juntamente com
alguma criatura, e não a ama por tua causa.
Ó amor, que sempre ardes e jamais te extingues! Ó caridade, meu Deus, inflama-me!
Ordena-me a continência? Dá-me o que mandas, e ordena o que quiseres!
CAPÍTULO XXX
Sonho e voluptuosidade
Ordenas que me abstenha da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e da
ambição do século. Proibiste as uniões luxuriosas, e embora tenhas permitido o casamento,
ensinaste que há um estado bem melhor. E, pela tua graça, optei por esse estado, antes mesmo
de me tornar dispensador de teu sacramento.
Mas em minha memória, de que falei longamente, vivem ainda as imagens dessas
voluptuosidades que meus costumes de outrora ali gravaram. Sem forças diante de mim quando
estou acordado, durante o sono, elas não somente suscitam em mim o prazer, mas o
consentimento do prazer e a ilusão da ação. Tais ilusões têm tal poder sobre minha alma e sobre
meu corpo, apesar de tão falsas, que seus fantasmas impelem a meu sono o que a realidade não
me pode induzir quando em vigília. Acaso então, Senhor meu Deus, será que eu não sou eu
nessas horas? E como vai tão grande diferença dentro de mim mesmo, do momento em que
passo da vigília para o sono e vice versa! Onde pois está a razão, que durante a vigília resiste a
tais sugestões, e que não se abala mesmo diante da realidade? Acaso se fecha juntamente com
os olhos? Ou adormece com os sentidos do corpo?
E por que, muitas vezes, mesmo no sono, resistimos, lembrados de nosso propósito, e
nele permanecemos castos, negando o consentimento a tais seduções? Todavia, a diferença é
tanta que, no caso de não resistir durante o sono, ao acordar voltamos a encontrar a paz de
consciência; e a própria diferença entre os dois estados indica que não fomos nós que fizemos
aquilo, e lamentamos o que se fez em nós.
Senhor onipotente, não poderia tua mão curar todas as enfermidades de minha alma,
abolindo também, com maior abundância de graça, os movimentos lascivos de meu sono? cada
vez mais multiplica, Senhor, o número de tuas bondades para comigo, para que minha alma, livre
do visco da concupiscência, siga até chegar a ti. Para que não seja rebelde, nem mesmo durante
o sono; para que, pelo estímulo de imagens bestiais, não só não cometa essas torpezas
degradantes até a lascívia carnal, mas que nem mesmo consinta nisso.
Não é muito para ti, ó Todo-Poderoso, que podes fazer mais do que pedimos e
compreendemos, fazer com que, quer minha idade presente, quer na minha vida futura, eu me
deleite nessas tentações – mesmo que sejam tão pequenas, que o primeiro esforço as venceria,
quando adormeço com pensamentos castos.
Agora digo exultando ao meu Senhor em que estado me encontro neste gênero de
pecado, com tremor pelos dons que já me concedeste, e gemendo pelas minhas imperfeições.
Espero que aperfeiçoes em mim tuas misericórdias, até que atinja a plenitude da paz de que
gozarão em ti meu espírito e meu corpo, quando a morte for absorvida pela vitória.
CAPÍTULO XXXI
A intemperança
O dia me traz novo pecado, e oxalá fosse o único! Comendo e bebendo, restauramos as
diuturnas perdas de nosso corpo, até o dia em que destruirás o alimento e o estômago, matando
minha necessidade com uma maravilhosa saciedade, e revestindo este corpo corruptível de
eterna incorruptibilidade.
Mas por ora esta necessidade me é grata, e luto contra essa delícia, para que não me
domine; é uma guerra cotidiana que sustento com jejum, reduzindo meu corpo à escravidão. Mas
minhas dores são eliminadas pelo prazer, porque a fome e a sede são sofrimentos: queimam e
matam como a febre se os alimentos não lhe põem remédio. Mas como esse remédio está
sempre à nossa disposição, graças à liberdade de teus dons que põe à disposição de nossa
fraqueza a terra, a água e o céu, nossas misérias recebem por nós o nome de delícias.
Tu me ensinaste a considerar os alimentos como remédios. Mas quando passo dessa
penosa necessidade à paz da saciedade, nessa passagem a concupiscência arma para mim sua
cilada. Esta passagem é prazerosa, e não há outra para se chegar onde a necessidade nos
obriga. A razão do beber e do comer é a conservação da saúde; mas um prazer insidioso
acompanha como lacaio essas funções, e sempre tenta tomar a dianteira, de modo que faço pelo
prazer o que digo fazer por minha saúde.
Ora, a medida do prazer não é a mesma da saúde; o que é bastante para a saúde não o é
para o prazer, e muitas vezes é difícil discernir se é o cuidado com o corpo que pede reforço de
alimento, ou se é a gula que nos engana e quer ser servida. Essa incerteza alegra nossa pobre
alma, feliz por ter encontrado um álibi e uma desculpa na impossibilidade de determinar o que
basta para o cuidado com a saúde, e sob o pretexto da sua conservação esconde a busca do
prazer. Esforço-me para resistir a essas tentações diárias, e invoco tua mão para me socorrer. A ti
confesso minha incerteza, porque sobre este ponto meu juízo ainda não é firme.
Ouço a voz de meu Deus que ordena: “Não se façam pesados vossos corações com a
intemperança e embriaguez”. A embriaguez está longe de mim; que tua misericórdia não a deixe
se aproximar. Mas a intemperança, ao contrário, chega às vezes a arrastar teu servo. Tua
misericórdia há de afastá-la de mim, porque ninguém pode ser temperante senão por tua graça.
Muitas coisas nos concedes quando te invocamos, e todo o bem que recebemos, mesmo
antes de o pedir, é a ti que sempre o devemos. E o ato mesmo de reconhecermos que esses dons
são teus, é ainda graça tua. Nunca estive embriagado, mas conheci muitos, dados a esse vicio,
que se tornaram sóbrios por tua graça. Assim, é graças a ti que alguns não são o que nunca
foram; e também é graças a ti que outros não são mais o que foram; e é graças a ti, enfim, que
estes e aqueles sabem a quem devem essa graça.
Ouvi ainda de ti outra palavra: “Não corras atrás de tuas concupiscências, e reprime teus
apetites” – Tua graça ainda me fez ouvir outra palavra, de que tanto gostei: “Se comemos, não
teremos abundância; e se não comemos, não sofreremos privação”. – Ou seja: nem isto me fará
rico, nem aquilo pobre. – E ouvi ainda esta outra: “Aprendi a me contentar com o que tenho: sei
viver na abundância e suportar a penúria. Tudo posso naquele que me fortalece”. – Eis como fala
o bom soldado da milícia celeste: nada parecido ao pó que somos. Mas, Senhor, lembra-se que
somos pó, e que de pó fizeste o homem; que este havia se perdido, e que foi reencontrado.
Por si mesmo, formado do mesmo pó que nós, nada podia aquele cujas palavras
inspiradas tanto amei: “Tudo posso naquele que me fortalece” – Concede-me forças, para que eu
possa. Dá-me o que mandas, e manda o que quiseres. Paulo confessa que tudo recebeu de ti, e,
quando se gloria, é no Senhor que ele se gloria.
Ouvi também outro que te pedia esta graça: “Afasta de mim a intemperança”. – De onde se
conclui claramente, ó Deus santo, que dás a força de cumprir o que mandas.
“Tu me ensinaste, Pai bondoso, que tudo é puro para os puros, mas que é mau para o
homem comer com escândalo, que tudo o que fizeste é bom, e que nada deve ser rejeitado do
que se recebe com ação de graças; que os alimentos não nos recomendam a Deus, que ninguém
nos deve julgar pela comida ou pela bebida; que o que come não deve julgar o que não come”. –
Por essas lições, graças e louvores te dou, meu Deus, meu Mestre, que bateste à porta de meus
ouvidos e iluminaste meu coração. Livra-me de toda tentação. Não receio a impureza dos
alimentos, mas a impureza do prazer.
Sei que Noé teve permissão de comer toda espécie de carne que pudesse servir de
alimento, e que Elias comeu carne para reparar as forças; sei que João Batista, asceta admirável,
não se manchou com os animais – os gafanhotos – de que se alimentava. Todavia eu sei que
Esaú deixou-se enganar pelo desejo de um prato de lentilhas; que Davi se repreendeu a si mesmo
por ter desejado água; que nosso Rei foi submetido à tentação, não de carne, mas de pão. Por
isso o povo foi justamente repreendido no deserto, não por ter desejado comer carne, mas porque
o desejo o fez murmurar contra o Senhor.
Exposto a estas limitações, luto diuturnamente contra a concupiscência do comer e do
beber, pois não é coisa que possa cortar de uma vez por todas, apenas com o propósito de nunca
mais recair, como fiz com a luxúria. É uma rédea imposta a meu paladar, ora para afrouxá-la, ora
para retesá-la. E quem é, Senhor, que não se deixa arrastar às vezes além dos limites do
necessário? Se existe alguém assim, é de fato grande, e deve engrandecer teu nome. eu porém
não sou desse número, porque sou pecador. Contudo, também, eu engrandeço teu nome, e
Aquele que venceu o mundo intercede junto a ti por meus pecados. Conta-me entre os membros
enfermos de seu corpo, porque teus olhos viram minhas imperfeições e porque todos serão
inscritos em teu livro.
CAPÍTULO XXXII
Os prazeres do olfato
Quanto à sedução dos perfumes, não me preocupo demais. Quando ausentes, não os
procuro; quando presentes, não os recuso, mas estou sempre disposto a deles me abster. Pelo
menos assim me parece, embora talvez me engane. Trevas deploráveis me envolvem, que me
escondem minhas faculdades reais; por isso, quando meu espírito indaga à respeito de suas
forças, bem sabe que não pode confiar em si mesmo, por seu íntimo permanecer muitas vezes
insondável, até que a experiência lho manifeste. Ninguém pois se deve ter seguro nesta vida, que
é tentação perpétua. Pois. Como podemos nos tornar melhores, não aconteça de nos tornar
piores. Nossa única esperança, nossa única confiança, nossa firme promessa é tua misericórdia.
CAPÍTULO XXXIII
Os prazeres do ouvido
Os prazeres do ouvido me prendem e me subjugam com mais força, mas tu me desligaste,
me libertaste.
Agradam-me ainda, eu o confesso, os cânticos que tuas palavras vivificam, quando
executados por voz suave e artística; todavia eles não me prendem, e dele posso me desvencilhar
quando quero. Para assentarem no meu íntimo, em companhia com os pensamentos que lhe dão
vida, buscam em meu coração um lugar de dignidade, mas eu me esforço ou me ofereço para
ceder-lhes só o lugar conveniente.
Às vezes parece-me tributar-lhe mais atenção do que devia: sinto que tuas palavras
santas, acompanhadas do canto, me inflamam de piedade mais devota e mais ardente do que se
fossem cantadas de outro modo. Sinto que as emoções da alma encontram na voz e no canto,
conforme suas peculiaridades, seu modo de expressão próprio, um misterioso estímulo de
afinidade.
Mas o prazer dos sentidos, que não deveria seduzir o espírito, muitas vezes me engana.
Os sentidos não se limitam a seguir, humildemente, a razão; o mesmo tendo sido admitidos
graças à ela, buscam precedê-la e conduzi-la. É nisso que peco sem o sentir, embora depois o
perceba.
Outras vezes, porém, querendo exageradamente evitar este engano, peco por excessiva
severidade; chego ao ponto de querer afastar de meus ouvidos, e da própria Igreja, a melodia dos
suaves cânticos que habitualmente acompanham os salmos de Davi. Nessas ocasiões parece-me
que o mais seguro seria adotar o costume de Atanásio, bispo de Alexandria. Segundo me
relataram, ele os mandava recitar com tão fraca inflexão de voz, que era mais uma declamação do
que um canto.
Contudo, quando lembro das lágrimas que derramei ao ouvir os cantos de tua Igreja, nos
primórdios de minha conversão, e que ainda agora me comovem, não tanto com o canto, mas
com as letras cantadas, voz clara e modulações apropriadas, reconheço novamente a grande
utilidade desse costume.
Assim, oscilo entre o perigo do prazer e a constatação dos efeitos salutares do canto. Por
isso, sem emitir juízo definitivo, inclino-me a aprovar o costume de cantar na igreja, para que, pelo
prazer do ouvido, a alma ainda muito fraca, se eleve aos sentimentos de piedade. E quando me
comovem mais os cantos do que as palavras cantadas, confesso meu pecado e mereço
penitencia, e então preferiria não ouvir cantar.
Eis em que estado me encontro! Chorai comigo, e chorai por mim, vós que alimentais no
coração a virtude, fonte de boas obras. Porque vós, a quem isso não afeta, sois insensíveis a tudo
isso. E tu, Senhor meu Deus, escuta, olha e vê; tem piedade de mim, cura-me. Eis que me tornei
um problema para mim mesmo, sob teu olhar, e aí está precisamente meu mal.
CAPÍTULO XXXIV
O prazer dos olhos
Resta ainda falar do prazer destes olhos carnais. Oxalá que os ouvidos fraternos e
piedosos de teu templo ouvissem a minha confissão! Encerrando assim as tentações da
concupiscência que ainda me perseguem, apesar de meus gemidos e dos desejos de ser
revestido de meu tabernáculo, que é o céu.
Meus olhos apreciam as formas belas e variadas, as cores brilhantes e amenas. Oxalá
elas não me acorrentassem a alma! Oxalá ela só fosse presa pelo Deus que criou coisas tão
boas: ele é meu bem, e não elas. Todos os dias, estando acordado, elas me importunam sem o
descanso das vozes que se calam, e às vezes de tudo o que existe, quando silencia. A própria
rainha das cores, a luz que inunda tudo o que vemos, e onde quer que eu esteja durante o dia,
acaricia-me de mil modos, mesmo quando estou ocupado em outra coisa e não lhe dou atenção.
E ela se insinua tão fortemente que, se de repente me for tirada, a desejo, a procuro e, se sua
ausência se prolonga, a alma se entristece.
Ó luz que Tobias contemplava quando, cego, mostrava ao filho o caminho da vida,
caminhando à sua frente com os passos da caridade, sem jamais se perder! Luz que via Isaac,
quando seus olhos carnais, oprimidos e velados pela velhice, mereceram não abençoar os filhos
reconhecendo-os, mas reconhecê-los ao abençoá-los! Luz que via Jacó, também cego pela idade
provecta, irradiou os fulgores de seu coração iluminado sobre as gerações do povo futuro,
representadas em seus filhos! E a seus netos, os filhos de José, impôs as mãos misticamente
cruzadas, não na ordem em que queria dispô-los o pai, que via com os olhos corporais, mas de
acordo com seu próprio discernimento interior! Eis a verdadeira luz; ela é uma, e todos os que a
vêem e amam formam um único ser.
Quanto à luz corporal, de que falava, com sua doçura sedutora e perigosa, é um dos
prazeres da vida para os cegos amantes do mundo. Mas os que nela sabem encontrar motivos
para te louvar, Deus, criador de todas as coisas, convertem-na em hino em teu louvor, sem se
deixarem dominar por ela no sono. é assim que desejo ser. Resisto às seduções dos olhos, para
que meus pés, que começam a trilhar teus caminhos, não fiquem enredados. Elevo a ti olhos
invisíveis, para que libertes meus pés de seus laços. Tu não cessa de livrá-los, porque sempre
estão a se prender. Tu não cessas de me livrar, e eu me deixo cair a cada passo nas insídias
espalhadas por toda parte, porque não dormirás, nem cochilarás, tu que guardas a Israel.
Quantos encantos os homens acrescentaram às seduções dos olhos, com a variedade de
suas artes, com sua indústria de vestidos, de calçados, de vasos, de objetos de toda espécie, com
pinturas e esculturas diversas que de longe ultrapassam os limites do necessário e moderado e da
expressão piedosa. Exteriormente perseguem as produções de suas artes, e em seu interior
abandonam Àquele que os criou, deturpando em si o que ele fez.
Quanto a mim, meu Deus e minha glória, encontro nisto razão para cantar-te um hino, e
oferecer um sacrifício de louvor àquele que sacrificou por mim. As belezas que da alma do artista
passam para suas mãos, provêm desta beleza, que é superior às nossas almas e pela qual minha
alma suspira dia e noite.
Entretanto, os que geram e os amantes das belezas exteriores, tiram da beleza soberana
apenas o critério para julgá-las, mas não uma regra para usá-las bem. Contudo, a norma ali está,
mas eles não a vêem. Se a vissem, não se afastariam , e guardariam sua força para ti, e não a
dissipariam em fatigantes delícias.
Mesmo eu, que exponho e compreendo essas verdades, deixo-me enredar nessas
belezas; mas tu me livras de seu laço, tu me libertas, porque tua misericórdia está diante de meus
olhos. Miseravelmente eu caio, e tu me levantas misericordiosamente, às vezes sem que eu o
perceba, quando minha queda foi suave, e outras infligindo-me uma pena, por ter ficado preso ao
chão.
CAPÍTULO XXXV
A curiosidade
Às anteriores acrescente-se outra tentação, que oferece maiores perigos. Além da
concupiscência da carne, que consiste no deleite voluptuoso de todos os sentidos, e cuja servidão
dana os que ela afasta de ti, insinua-se na alma um outro desejo, que se exerce pelos mesmos
sentidos corporais, mas tende menos a uma satisfação carnal do que a tudo conhecer por meio da
carne.
É a vã curiosidade, que se disfarça sob o nome de conhecimento e de ciência. Como
nasce do apetite de tudo conhecer, e como entre os sentidos os olhos são os mais aptos para o
conhecimento, a Sagrada Escritura chamou-a de concupiscência dos olhos.
De fato, ver é função própria dos olhos; mas muitas vezes nós usamos essa expressão
mesmo quando se trata de outros sentidos, aplicados ao conhecimento. Nós não dizemos: “Ouve
como isto brilha” – nem: “Sente como isso resplandece” – nem: “Apalpa como isto cintila”. – Para
exprimir tudo isso dizemos “ver ou olhar”. E até não nos limitamos a dizer: “Olha que luz!”, pois
apenas os olhos nos podem dar esta sensação – mas, dizemos ainda: “Olha que som! Olha que
cheiro! Olha que gosto! Olha como é duro!” Por isso toda experiência que é obra dos sentidos é
chamada, como disse, concupiscência dos olhos. Essa função da visão, que pertence aos olhos, é
usurpada metaforicamente pelos outros sentidos, quando buscam conhecer alguma coisa.
Daqui podemos distinguir claramente o papel da volúpia e o da curiosidade na ação dos
sentidos. O prazer procura o que é belo, melodioso, suave, saboroso, agradável ao todo; a
curiosidade por sua vez deseja o contrário, não para se expor ao sofrimento, mas pela paixão de
conhecer por meio da experiência. Que prazer pode ter na visão de um cadáver dilacerado, que
causa horror? E todavia onde há um cadáver, para lá corre toda a gente para se entristecer e
empalidecer. E temem depois revê-lo em sonhos, como se alguém os tivesse obrigado a
contemplá-lo, ou como se a

Deixe uma resposta