Bíblia

A Bíblia (do grego βιβλία, plural de βιβλίον, transl. bíblion, “rolo” ou “livro” é uma coleção de textos religiosos de valor sagrado para o cristianismo, em que se narram interpretações religiosas do motivo da existência do homem na Terra. É considerada pelos cristãos como divinamente inspirada, tratando-se de importante documento doutrinário.

Segundo a tradição, a Bíblia foi escrita por 40 autores, entre 1 500 a.C. e 450 a.C. (livros do Antigo Testamento) e entre 45 d.C. e 90 d.C. (livros do Novo Testamento), totalizando um período de quase 1600 anos. A maioria dos historiadores considera que a data dos primeiros escritos acreditados como sagrados é bem mais recente: por exemplo, enquanto a tradição cristã coloca Moisés como o autor dos primeiros cinco livros da Bíblia (Pentateuco), muitos estudiosos aceitam que foram compilados pela primeira vez apenas após o exílio babilônico, a partir de outros textos datados entre o décimo e o quarto século antes de Cristo. Muitos estudiosos também afirmam que ela foi escrita por dezenas de pessoas oriundas de diferentes regiões e nações.

Segundo uma interpretação literal do Gênesis (primeiro livro da Bíblia), o homem foi criado por Deus a partir do pó, após os céus e a terra, entre seis e oito mil anos atrás, e ganhou a vida após Deus soprar o fôlego da vida em suas narinas.

É o livro mais vendido de todos os tempos com mais de seis bilhões de cópias em todo o mundo, uma quantidade sete vezes maior que o número de cópias do 2º colocado da lista dos livros mais vendidos, O Livro Vermelho.

Nos Estados Unidos, o único presidente que não fez o juramento de posse com a mão em uma Bíblia foi Theodore Roosevelt (1901-1909), de acordo com os registros oficiais do Arquiteto do Capitólio. John Quincy Adams (1825-1829), em sua posse, de acordo com cartas escritas pelo mesmo, colocou a mão em um volume de direito constitucional ao invés da Bíblia para indicar a quem pertencia sua lealdade.Não há registros para presidentes anteriores a John Tyler (1841-1845).

O apóstolo Paulo afirma que “toda a Escritura é inspirada por Deus” literalmente, “soprada por Deus”, que é a tradução da palavra grega θεοπνευστος, theopneustos (2 Timóteo 3:16).

O apóstolo Pedro diz que “nenhuma profecia foi proferida pela vontade dos homens. Inspirados pelo Espírito Santo é que homens falaram em nome de Deus.” (2 Pedro 1:21). O apóstolo Pedro atribui aos escritos de Paulo a mesma autoridade do Antigo Testamento: “E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição” (2 Pedro 3:15-16).

Interpretação:

Ver artigos principais: A Bíblia e a história, Datação da Bíblia e Simbologia bíblica
Segundo o jornalista David Plotz, da revista online Slate Magazine, até um século atrás, a maioria dos estadunidenses bem instruídos conheciam a Bíblia a fundo. Ele também afirma que atualmente, o desconhecimento bíblico é praticamente total entre pessoas não-religiosas. Ainda segundo Plotz, mesmo entre os fiéis, a leitura da Bíblia é irregular: a Igreja Católica inclui somente uma pequena parcela do Antigo Testamento nas leituras oficiais; os judeus estudam bastante os cinco primeiros livros da Bíblia, mas não se importam muito com o restante; os judeus ortodoxos normalmente passam mais tempo lendo o Talmude ou outra coisa que a Bíblia em si; muitos protestantes e /ou evangélicos lêem a Bíblia frequentemente, mas geralmente dão mais ênfase ao Novo Testamento.

A inacessibilidade da Bíblia entre a Antiguidade e a Idade Média resultou na criação de diversas narrativas sobre os personagens bíblicos, criando acréscimos e distorções. A Igreja Católica não permitia que seus fiéis possuíssem exemplares da Bíblia, alegando que estes não teriam nunca a capacidade necessária para interpretá-la, devido à sua complexidade. Assim, afirmava que a responsabilidade de ensinar as orientações de Deus era exclusivamente sua.

Os conflitos entre ciência e religião foram, em parte, ajudados pela interpretação literal da Bíblia. Esta não deve ser interpretada como um relato preciso da história da humanidade ou uma descrição perfeita da natureza. Galileu Galilei considerava que a Bíblia deveria ser interpretada a partir do estudo da natureza.

Os escravocratas basearam-se na parte da Bíblia que conta sobre Noé ter condenado seu filho Cam e seus descendentes à escravidão para justificar religiosamente a escravidão.

Martinho Lutero considerava que o amor de Cristo era alcançável gratuitamente por meio da Bíblia. Foi um dos primeiros teólogos a sugerir que as pessoas deveriam ler e interpretar a Bíblia por si mesmas. A maioria das pessoas interpreta a Bíblia por intermédio de seu líder religioso.

As Testemunhas de Jeová consideram 66 livros como componentes da Bíblia, interpretando-a de forma literal exceto quando o texto evidencia estar em sentido figurado. Chamam o Novo Testamento de Escrituras Gregas Cristãs e o Velho Testamento de Escrituras Hebraicas.Usam o método de comparação de textos bíblicos com outros textos bíblicos, encontrando, por temas, o que a Bíblia ensina como um todo. Suas conclusões são registradas por escrito, sendo utilizado para outras pesquisas bíblicas

Para o espiritismo a Bíblia é uma das várias referências de compreensão do mundo espiritual (não é a principal).

Estrutura interna:

A Bíblia é dividida em duas partes: o Antigo e o Novo Testamentos. O primeiro, na versão aceita de forma geral por protestantes e judeus, apresenta a história do mundo desde sua criação até os acontecimentos após a volta dos judeus do exílio babilônico, no século IV a.C. Os católicos e ortodoxos, por outro lado, têm um cânon mais extenso, cobrindo até os asmoneus do século II a.C.

O Novo Testamento apresenta a história de Jesus Cristo e a pregação de seus ensinamentos, durante sua vida e após sua morte e ressurreição, no século I. (ver: Vida de Cristo) A Bíblia não era dividida em capítulos até 1227, quando o cardeal Sthepen Langton os criou, e não apresentava versículos até ser assim dividida em 1551 por Robert Stephanus.

Livros do Antigo Testamento:

Antigo Testamento:
A quantidade de livros do Antigo Testamento varia de acordo com a religião ou denominação cristã que o adota: a Bíblia dos cristãos protestantes e o Tanakh judaico incluem apenas 39 livros, enquanto a Igreja Católica possui 46 e a Igreja Ortodoxa em geral aceita 51. Os sete livros existentes na Bíblia católica, ausentes da judaica e da protestante são conhecidos como deuterocanônicos para os católicos e apócrifos para os protestantes. O mesmo se aplica aos livros da bíblia ortodoxa, que por sua vez pode vir a ter mais livros.

Os livros do Antigo Testamento aceitos por todos os cristãos como sagrados (também chamados “protocanônicos” pela igreja católica) são: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, I Samuel, II Samuel, I Reis, II Reis, I Crônicas, II Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cânticos dos Cânticos, Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel, Daniel, Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.

Os deuterocanônicos, aceitos pela Igreja Católica como sagrados são: Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruque. Estes estão disponíveis na tradução grega do Antigo Testamento, datada do Século I a.C., a Septuaginta.

Segundo a visão protestante, os textos deuterocanônicos (chamados “Livros apócrifos” pelos protestantes) foram, supostamente, escritos entre Malaquias e o Novo Testamento, numa época em que segundo o historiador judeu Flávio Josefo, a Revelação Divina havia cessado porque a sucessão dos profetas era inexistente ou imprecisa (ver: Testimonium Flavianum). O parecer de Josefo não é aceito pelos cristãos católicos, ortodoxos e por alguns protestantes, e igualmente pensam assim uma maioria judaica não farisaica, porque Jesus afirma que durou até João Batista, “A lei e os profetas duraram até João” (cf. Lucas 16:16; Mateus 11:13).

Livros do Novo Testamento:

Novo Testamento:

O Novo Testamento é composto de 27 livros: Evangelho de Mateus, Evangelho de Marcos, Evangelho de Lucas, Evangelho de João, Atos dos Apóstolos, Romanos, I Coríntios, II Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, I Tessalonicenses, II Tessalonicenses, I Timóteo, II Timóteo, Tito, Filémon, Hebreus, Epístola de Tiago, Primeira Epístola de Pedro, Segunda Epístola de Pedro, Primeira Epístola de João, Segunda Epístola de João, Terceira Epístola de João, Epístola de Judas e Apocalipse.

As traduções do Novo Testamento foram feitas a partir de mais de 5000 manuscritos, que podem ser divididos em duas categorias: Texto-Tipo Bizantino e Texto-Tipo Alexandrino. Os pergaminhos do Texto-Tipo Bizantino (também chamado Textus Receptus) são representados pela maioria (cerca de 95%) dos manuscritos existentes.

Através dos séculos, desde o começo da era cristã, e inclusive em alguns contextos, como na Reforma Protestante do século XVI, os textos deuterocanônicos do Novo Testamento foram tão debatidos como os textos deuterocanônicos do Antigo Testamento. Finalmente, os reformistas protestantes decidiram rejeitar todos os textos deuterocanônicos do Antigo Testamento, e aceitar todos os textos deuterocanônicos do Novo Testamento, embora houvesse em Lutero, no processo da Reforma Protestante, a intenção de remover determinados livros do Novo Testamento por considerá-los apócrifos ou dolosos, como a Epístola de Tiago.

Origem do termo “testamento”:

Este vocábulo não se encontra na Bíblia como designação de uma de suas partes. A palavra portuguesa “testamento” corresponde à palavra hebraica berith (que significa aliança, pacto, convênio, contrato), e designa a aliança que Deus fez com o povo de Israel no monte Sinai, tal como descrito no livro de Êxodo (Êxodo 24:1-8 e Êxodo 34:10-28). Segundo a própria Bíblia, tendo sido esta aliança quebrada pela infidelidade do povo, Deus prometeu uma nova aliança (Jeremias 31:31-34) que deveria ser ratificada com o sangue de Cristo (Mateus 26:28). Os escritores do Novo Testamento denominam a primeira aliança de antiga (Hebreus 8:13), em contraposição à nova (2 Coríntios 3:6-14).

Os tradutores da Septuaginta traduziram berith para diatheke, embora não haja perfeita correspondência entre as palavras, já que berith designa “aliança” (compromisso bilateral) e diatheke tem o sentido de “última disposição dos próprios bens”, “testamento” (compromisso unilateral).

As respectivas expressões “antiga aliança” e “nova aliança” passaram a designar a coleção dos escritos que contém os documentos respectivamente da primeira e da segunda aliança. As denominações “Antigo Testamento” e “Novo Testamento”, para as duas coleções dos livros sagrados, começaram a ser usadas no final do século II, quando os evangelhos e outros escritos apostólicos foram considerados como parte do cânon sagrado. O termo “testamento” surgiu através do latim, quando a primeira versão latina do Velho Testamento grego traduziu diatheke por testamentum . Jerônimo de Estridão, revisando esta versão latina, manteve a palavra testamentum, equivalendo ao hebraico berith — “aliança”, “concerto”, quando a palavra não tinha essa significação no grego (ver: Vulgata). Afirmam alguns pesquisadores que a palavra grega para “contrato”, “aliança” deveria ser suntheke, por traduzir melhor o hebraico berith.

Traduções:

Livro do Gênesis, Bíblia em Tamil de 1723
Eusébio Sofrônio Jerônimo (conhecido como São Jerônimo pelos católicos) traduziu a Bíblia diretamente do hebraico, aramaico e grego para o latim, criando a Vulgata.No Concílio de Trento em 1542, essa tradução foi estabelecida como versão oficial da Bíblia para a Igreja Católica (vide Cânone de Trento).

Em meados do século XIV o teólogo John Wyclif realizou a tradução da Bíblia para o inglês. Após a Reforma Protestante a Bíblia recebeu traduções para diversas línguas e passou a ser distribuída sem restrições para as pessoas.

Martinho Lutero traduziu a Bíblia para a língua alemã enquanto estava escondido em Wittenberg do papa Leão X, que queria fazer um “julgamento” após a publicação das 95 Teses.

A grande fonte hebraica para o Antigo Testamento é o chamado Texto Massorético. Trata-se do texto hebraico fixado ao longo dos séculos por escolas de copistas, chamados massoretas, que tinham como particularidade um escrúpulo rigoroso na fidelidade da cópia ao original. O trabalho dos massoretas, de cópia e também de vocalização do texto hebraico (que não tem vogais, e que, por esse motivo, ao tornar-se língua morta, necessitou de as indicar por meio de sinais), prolongou-se até ao Século VIII d.C. Pela grande seriedade deste trabalho, e por ter sido feito ao longo de séculos, o texto massorético (sigla TM) é considerado a fonte mais autorizada para o texto hebraico bíblico original.

No entanto, outras versões do Antigo Testamento têm importância, e permitem suprir as deficiências do Texto Massorético. É o caso do Pentateuco Samaritano (os samaritanos que eram uma comunidade étnica e religiosa separada dos judeus, que tinham culto e templo próprios, e que só aceitavam como livros sagrados os do Pentateuco), e principalmente a Septuaginta grega (sigla LXX).

A Versão dos Setenta ou Septuaginta grega, designa a tradução grega do Antigo Testamento, elaborada entre os séculos IV e I a.C., feita em Alexandria, no Egito. O seu nome deve-se à lenda que dizia ter sido essa tradução um resultado milagroso do trabalho de 70 eruditos judeus, e que pretende exprimir que não só o texto, mas também a tradução, fora inspirada por Deus. A Septuaginta grega é a mais antiga versão do Antigo Testamento que conhecemos. A sua grande importância provém também do facto de ter sido essa a versão da Bíblia utilizada entre os cristãos, desde o início, versão que continha os Deuterocanônicos, e a que é de maior citação do Novo Testamento, mais do que o Texto Massorético.

A Igreja Católica considera como oficiais 73 livros bíblicos (46 do Antigo Testamento e 27 do Novo), sendo 7 livros a mais no Velho Testamento do que das demais religiões cristãs e pelo judaísmo. Já a Bíblia usada pela Igreja Ortodoxa contém 78 livros, 5 a mais que a católica e 12 a mais que a protestante.

Número de traduções:

De acordo com as Sociedades Bíblicas Unidas, a Bíblia já foi traduzida, até 31 de dezembro de 2007, para pelo menos 2 454 línguas e dialetos. (ver: Traduções da Bíblia em línguas indígenas do Brasil).

Mundo lusófono:

Ver artigos principais: Tradução Brasileira e Traduções da Bíblia em língua portuguesa
A primeira versão portuguesa da Bíblia surgiu apenas em 1748, a partir da Vulgata Latina, traduzida para o português por João Ferreira de Almeida. Almeida faleceu antes de concluir o trabalho, que foi finalizado por colaboradores holandeses.

Versões:

A Igreja Católica possui 46 livros no Antigo Testamento como parte de seu cânone bíblico. Os livros de Livro de Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, I Macabeus e II Macabeus e as chamadas Adições em Ester e Adições em Daniel) são considerados “deuterocanônicos” (ou “do segundo cânon”) pela Igreja Católica. Além disso, existem 27 livros no Novo Testamento.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

biblia3

Como surgiu a Bíblia?

Um longo e maravilhoso itinerário percorrido pela razão humana iluminada pela fé, e assistida pela graça e pelos carismas do Espírito, tornou possível definir com divina autoridade a “regula fidei” das Sagradas Escrituras.
Muito se fala sobre a Bíblia, mas quantos a conhecem com profundidade? Saberá o geral dos católicos – mesmo os considerados praticantes – como surgiram os livros sagrados, qual o critério de seleção utilizado e com que autoridade foram eles adotados ou rejeitados? Vê-se, assim, que um esclarecimento a respeito é de toda oportunidade paraBiblia..jpgoconjunto dos fiéis.

Antigo e Novo testamento

A Bíblia, como se sabe, é o conjunto dos escritos ou livros do Antigo e do Novo Testamento, com os quais Deus Se revelou aos homens. Denominados também Sagradas Escrituras ou Sagradas Letras, constituem um só e único livro contendo a Palavra de Deus. Embora sejam da lavra de autores humanos – os hagiógrafos, autores sagrados -, foramescritos sob a inspiração do Espírito Santo e por isso são autenticamente a Palavra de Deus. Assim costuma-se dizer que as Sagradas Escrituras são obra conjunta dos hagiógrafos e do Divino Paráclito.

A Bíblia é dividida em duas grandes partes: o Antigo e o Novo Testamento. 1 O primeiro contém a Palavra de Deus dirigida ao povo eleito da Primeira Aliança e foi consignada em diversos escritos elaborados ao longo de mais ou menos 900 anos. O Novo Testamento contém, consignados pelos Apóstolos e Evangelistas, os ensinamentos com os quais Jesus Cristo completou e aperfeiçoou a Revelação Antiga, e o testemunho de sua Morte e Ressurreição – o Mistério Pascal -, com o qual abriu triunfalmente a era da graça, selando assim a Nova e Eterna Aliança.

E o eixo divino em torno do qual giram ambos os Testamentos é a pessoa de Jesus Cristo. Com efeito, no Antigo é Ele o anunciado: “as Escrituras dão testemunho de Mim”, (Jo 5, 39), disse Nosso Senhor; e o Novo é a realização desse anúncio. Tal verdade é expressa por Santo Agostinho com o brilho e a concisão de seu gênio: “in Vetere Novum lateat, et
in Novo Vetus pateat – O Novo Testamento está oculto no Antigo, e o Antigo se revela no Novo”.2

Ora, sabe-se que antes de Cristo e, sobretudo, na era cristã, vieram à luz inúmeros escritos que pretensamente continham a Palavra de Deus, e destes apenas um reduzido número foi incluído na relação dos Livros Sagrados. Por que uns escritos entraram e outros não? Quem fez esta seleção e com que autoridade? Tais questões nos levam a tratar de um belíssimo tema: a formação do cânon dos livros sagrados.

Admirável unanimidade forjada ao longo de séculos:

A palavra grega καν?ν (cânon) tem vários significados: régua de medir, regra, norma e, por extensão, lista, relação. O Cânon das Sagradas Escrituras é, pois, a relação dos Livros Sagrados que compõem a Bíblia: 46 do Antigo Testamento e 27 do Novo. Somente estes 73 gozam da prerrogativa de Palavra de Deus. Longa e luminosa história é a da formação do Cânon, ou seja, de como a Divina Providência foi dispondo ao longo dos séculos as circunstâncias e os espíritos para a Santa Igreja discernir e identificar, entre diversos escritos apresentados como autênticos transmissores da Palavra de Deus, quais eram de fato inspirados e continham infalivelmente as verdades da Fé.

A dificuldade estava no fato de, no decorrer dos séculos, aparecerem certo número de escritos no seio das comunidades religiosas israelitas do Antigo Testamento. Nem todos, porém, gozavam de igual respeito e acatamento. Alguns, desde o início, refletiam antigas e autênticas tradições com as quais o povo de Deus se identificava plenamente. Com relação a outros, não havia essa aceitação geral.

Uma maravilhosa ação de Deus conduziu aos poucos as comunidades judaicas a uma opinião quase unânime nesta matéria. Obra de fato admirável, pois não se conhecia nessa época uma autoridade infalível, como a concedida por Cristo Jesus à sua Igreja, que pudesse reconhecer e declarar o caráter sagrado e inspirado desses livros.

Primeiramente o Pentateuco, ou Torah, foi desde muito cedo reconhecido como a Palavra de Deus. Em seguida, os Profetas e depois os demais Escritos foram adquirindo reconhecimento normativo, até constituírem coleções, contendo mais ou menos o atual conjunto dos livros do Antigo Testamento.3

Discernir a mensagem evangélica das interpretações falsas:

No tocante ao Novo Testamento, a situação é ainda mais rica e complexa, se bem que mais clara e fácil de ser acompanhada. Em certo momento da história da Igreja Primitiva, os Apóstolos e seus seguidores dedicaram-se à tarefa de registrar por escrito boa parte daquilo que oralmente pregavam. Surgiram assim os primeiros livros.

Muito cedo, entretanto, se introduziram heresias no meio das comunidades cristãs. Algumas provindas de errôneas interpretações doutrinárias concebidas por cristãos judaizantes; outras, ao que parece, originárias do paganismo, como as doutrinas chamadas gnósticas. Umas e outras levavam a interpretações falseadas da mensagem evangélica.

Nos primeiros tempos do Cristianismo proliferaram escritos neotestamentários, misturando-se, assim, testemunhos autênticos dos Apóstolos e de seus primeiros seguidores com outros de cuja autenticidade se podia legitimamente duvidar, porque não gozavam da garantia de procedência apostólica (do tempo dos Apóstolos), ou porque não eram objeto de credibilidade por parte das igrejas.

Cedo se introduziram também adaptações ou interpolações heréticas em alguns escritos com pretensões de procederem da era apostólica, mas de duvidosa e suspeita autoria.

Museum of Art, Nova York Dado que, pelo Espírito Santo, a Igreja recebeu como legado as Escrituras, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, coube a ela discernir, reconhecer e declarar, com a assistência do mesmo Espírito, quais dentre esses numerosos escritos eram de fato Palavra de Deus. O resultado desse trabalho lento e seguro da Igreja na identificação dos Livros Sagrados foi a formação do Cânon.
A ação do Espírito Santo

E nessa paciente tarefa da Igreja nota-se uma tríplice ação do Espírito Santo.

Primeiro, o Divino Paráclito age sobre as comunidades que acolheram a Palavra de Deus, o qual “falou outrora a nossos pais pelos profetas, e ultimamente por seu Filho” (Hb 1, 1-2), formando e inspirando as tradições, propiciando que estas sejam conservadas na memória do povo, e dispondo que a Palavra permaneça íntegra e inalterável. Em segundo lugar, inspira os hagiógrafos a colocarem por escrito o conteúdo da Palavra de Deus transmitida de início oralmente e consignada nas tradições; e a escreverem “tudo aquilo e só aquilo que Ele queria”.4 Os autores sagrados se entregam, então, a esta missão. Por fim, através da mesma Tradição, ou seja, daquilo que semper, ubique et ab omnibus foi objeto de fé, dá a conhecer à Igreja os escritos inspirados.

A definição do Cânon, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento é, pois, obra humana e divina da Igreja. Ou seja, desta, enquanto aplicando critérios lógicos de sabedoria humana para discernir a autenticidade dos escritos vétero e neotestamentários, mas ao mesmo tempo enquanto assistida pelo Divino Espírito Santo na interpretação dos dados provenientes de tais recursos humanos. O trabalho aplicado e inteligente de uma admirável plêiade de homens dos primeiros tempos do Cristianismo – os Santos Padres – levou a Igreja a um altíssimo plano no conhecimento das Escrituras e a fez discernir, pela ação do Espírito Santo, preciosos critérios para a seleção e classificação dos Livros Sagrados.

Cânon veterotestamentário

Atendendo ao fato de que os livros do Antigo Testamento foram escritos ao longo de aproximadamente 900 anos nos idiomas hebraico, aramaico e, em medida bem menor, o grego, e não entrando no interessante tema da provável datação de tais escritos, nem de seus autores, pois extravasaríamos os limites naturais deste artigo dedicado a estudar a formação do Cânon, vejamos a seguir como os referidos livros se tornaram conhecidos.

É certo que algumas coleções parciais de escritos veterotestamentários já circulavam entre as várias comunidades israelitas, tanto da Palestina quanto da Diáspora, no tempo pós-exílico, sobretudo no período dos Macabeus, mas faltam-nos dados históricos precisos a esse respeito.

Por volta do ano 200 a.C., apareceu pela primeira vez uma ampla coleção dos escritos veterotestamentários em grego, composta, segundo se dizia, por 70 sábios judeus da Alexandria, e por isso chamada “Septuaginta” ou “dos Setenta”, ou ainda “Alexandrina”, frequentemente designada pela sigla LXX.

Não há notícia, porém, de que se tenha elaborado um Cânon dos livros sagrados antes da era cristã. Ao lado de alguns livros reconhecidos por todos como sagrados, havia vários sobre os quais pairava alguma indecisão e alguns outros francamente contestados.

As diversas versões das Escrituras circulavam pacificamente entre os judeus da Palestina e do estrangeiro, destacando-se a Septuaginta, que obteve larga aceitação entre uns e outros e era a mais difundida nos primeiros tempos do Cristianismo.

“A maior parte das citações do Antigo Testamento atribuídas a Jesus nos Evangelhos correspondem ao texto da versão dos Setenta”.5 O fato de ser esta a versão mais citada nos Evangelhos lhe confere inegável autoridade. Era ela, também, a mais usada entre os judeus cristãos dos primeiros tempos, e gozava de plena credibilidade nesses meios.

No decurso do primeiro século, a maior parte dos livros constantes da versão dos LXX foi pacificamente aceita: são os chamados protocanônicos (de proto, primeiro, em grego). Outros, entretanto, se prestavam a discussões e foram aceitos somente num segundo momento: são os chamados deuterocanônicos (de deutero, segundo).

Foi só no começo do século II – quando a Igreja já tinha vida própria, independente do judaísmo e nela se dava larga aceitação à relação de livros dos LXX, chamada Cânon Longo – que as autoridades judaicas, por iniciativa dos rabinos fariseus, decidiram fechar o seu cânon, recusando sete livros constantes da versão dos LXX6 e abraçando assim um cânon reduzido, chamado Cânon Curto.

Não é disparatado admitir que o fato de terem os judeus abraçado o Cânon Curto deveu-se, entre outros motivos, a uma necessidade de diferenciação em face do Cristianismo.
Evangelistas_São Lucas e São João – Museu Sao Pio V – Valencia.jpg
“Os Evangelistas São Lucas e São João” – Museu São Pio V, Valência (Espanha)
Os dados históricos de que se dispõe indicam que, mais provavelmente, essa coletânea abraçada pelos rabinos – conhecida também pelo nome de Texto Protomassorético – foi mais tarde, na Idade Média, revista e provida de notas e sinais vocalizantes, à maneira de comentários, pelos massoretas judeus, mestres e representantes da Massorah (tradição) judaica, vindo a constituir o chamado Texto Massorético, ou seja, a atual Bíblia hebraica.

Quando os judeus resolveram fechar o seu cânon, era já largamente aceita na Igreja, havia mais de um século, a versão dos LXX, o Cânon Longo. Assim, o cânon dos rabinos fariseus não teve senão um alcance restrito, limitado ao âmbito das comunidades judaicas remanescentes.

A Igreja primitiva, desde o início, acatou a versão dos LXX, versão esta que, entre outras, como já foi dito, corria livremente entre os judeus, pois não havia ainda, entre eles, uma relação definida dos livros considerados sagrados. Essa, pois, não herdou do judaísmo um cânon definido, mas foi ela quem o definiu, acolhendo todos os livros constantes dos LXX e também os chamados deuterocanônicos. Deste modo a versão dos Setenta, o Cânon Longo, foi abraçado pelo Cristianismo, na sua totalidade, desde os seus primórdios – com algumas dificuldades circunstanciais”, esclarecidas com o tempo – e gozou de plena autoridade entre os cristãos. O Concílio de Calcedônia (451 d.C.) não fez senão reconhecer uma realidade já vivida pelo Cristianismo até o século IV, pois, embora o Cânon Veterotestamentário já estivesse vivo na Igreja, e os livros que vieram a compô-lo gozassem de grande autoridade entre os fiéis, excetuadas algumas raras comunidades orientais isoladas e sem maior significação, não se pode ainda falar de livros canônicos. Foi somente a partir desta data que a coleção de tais livros adquiriu plena configuração canônica.8 E assim permaneceu por mais de mil anos.

Foi somente no século XVI – milênio e meio depois do nascimento do Cristianismo! – que semelhante realidade foi negada. Com efeito, Martinho Lutero e seus seguidores resolveram recusar quase 1.500 anos de Tradição cristã e abraçar o Cânon Curto, fixado pelos rabinos fariseus para uso dos judeus, nascendo assim a chamada Bíblia Protestante.

Durante muitos séculos, na trilha da Tradição apostólica, a Igreja não sentiu necessidade de apresentar uma definição dogmática sobre o Cânon sagrado, de tal modo a pax Christi não se via seriamente ameaçada nesta matéria. Foram as negações de Lutero no século XVI e a intranquilidade suscitada por elas no seio da Cristandade que levaram a Santa Igreja a manifestar neste campo o poder que por seu Divino Fundador lhe fora conferido. Assim, o que estava assente como doutrina comum e corrente da Igreja desde o século IV, e vivido pelo Cristianismo desde os seus primórdios, foi objeto de uma formulação explícita no Concílio de Florença, (1442) no decreto Pro Iacobitis,9 e de uma definição dogmática no Concílio de Trento (1564), reafirmada no Concílio Vaticano I (1870).

biblia2

Cânon neotestamentário:

Como vimos, a pregação apostólica foi de início exclusivamente oral, pois os Apóstolos saíram pelo mundo a pregar, fiéis ao mandamento do Divino Mestre que disse, “ide e pregai” (Mc 16, 15) e não “ide e escrevei”. E não nos esqueçamos das grandes dificuldades da época em se obter livros, os quais eram todos manuscritos, portanto, custosos e de elaboração demorada.

Assim, no Período Apostólico (até o ano 70), a Igreja nascente não possuía ainda escritos próprios, mas somente a “Lei e os Profetas”, quer dizer, o Antigo Testamento, lido à luz da mensagem cristã. Logo, porém, dois fatores exigiram dos Apóstolos e de seus primeiros seguidores o recurso à escrita: a multiplicação de comunidades em regiões muito distantes, graças, sobretudo, ao apostolado de São Paulo, e o aparecimento das heresias. Porém, durante muito tempo e até mesmo no Período dos Padres Apostólicos, as tradições evangélicas eram mais conhecidas através da tradição oral do que da escrita.10 São Lucas dá disso testemunho: “Muitos empreenderam compor uma história dos acontecimentos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram aqueles que foram desde o princípio testemunhas oculares e que se tornaram ministros da Palavra” (Lc 1, 1-2).

Tal combate acabou por cristalizar na Igreja uma ideia que existia já, latente, desde o Período Subapostólico: 11 a da necessidade de um Cânon fechado.

Nos tempos de São Justino Mártir (século II) em Roma, o Novo Testamento já continha dois terços do que veio a ser o seu Cânon definitivo. No período seguinte – de Santo Irineu, São Clemente de Alexandria, Orígenes – o essencial do Cânon definitivo havia já sido incluído no Cânon reconhecido por Santo Irineu e pela igreja da Gália: os quatro Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, algumas cartas e o Apocalipse.

Foi justamente Santo Irineu – uma das grandes figuras da Patrística – que, em face do gnosticismo e, sobretudo, do marcionismo, desenvolveu a doutrina cristã, estabelecendo magnificamente os fundamentos da compreensão das Escrituras como um só todo, coerente e harmônico.

São Clemente de Alexandria e Orígenes apresentavam uma relação de 22 livros sobre os quais, para eles, não pairavam dúvidas: os quatro Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as 14 cartas paulinas, as primeiras epístolas de Pedro e João e o Apocalipse. 12

Alguns escritos neotestamentários, como ficou visto acima, parecem ter obtido muito cedo o reconhecimento canônico, manifestado sobretudo pelo uso litúrgico que deles se foi fazendo. São os chamados protocanônicos do Novo Testamento.

Pregação de São Pedro:

Museu das Belas Artes, Dijon (França) Outros houve, entretanto, que ofereceram alguma dificuldade para serem aceitos e somente depois de um processo relativamente longo a autoridade da Igreja os incluiu no Cânon. São estes chamados deuterocanônicos do Novo Testamento – a epístola aos Hebreus, a segunda de Pedro, a segunda e terceira de João, as epístolas de Tiago e Judas e o Apocalipse – o que significa que entraram no Cânon neotestamentário só depois de certa hesitação, sendo aceitos, repetimos, unicamente pela autoridade da Igreja.
A sabedoria divina supera toda previsão humana

Ao longo de mais ou menos 300 anos, baseado na aceitação pelas comunidades, animadas pelo sensus fidei (o sentir da fé), mas, sobretudo pelo uso litúrgico, com o reconhecimento explícito das autoridades eclesiásticas – reunidas em sínodos e concílios regionais ou ecumênicos -, foi-se definindo um núcleo de livros de canonicidade certa e indiscutível. Lutero havia recusado também os deuterocanônicos do Novo Testamento, mas seus seguidores não puderam sustentar essa posição e acabaram por admiti-los. Deste modo a Reforma caía na incoerência de negar a autoridade da Igreja quanto ao Antigo Testamento e afirmá-la em relação ao Novo.

Assim, de maneira divinamente sapiencial vai o Espírito Santo governando a Santa Igreja, sem adotar uma postura racionalista e esquemático, definindo com organicidade maravilhas como o conjunto dos livros das Sagradas Escrituras, nos quais “o Pai que está no Céu sai amorosamente ao encontro de seus filhos para conversar com eles”.13

Este longo e maravilhoso itinerário percorrido pela razão humana iluminada pela fé, e assistida pela graça e pelos carismas do Espírito Santo, tornou possível discernir com clareza e definir com divina autoridade a regula fidei das Sagradas Escrituras. Neste percurso fomos levados também a contemplar a maravilhosa harmonia entre as duas fontes nas quais se funda toda a fé cristã: a Sagrada Tradição e as Santas Letras. (Revista Arautos do Evangelho, Setembro/2013, n. 141, p. 20 à 26)

Origem Arautos do Evangelho- Pe. Arnóbio José Glavam, EP – 2013/09/09

Deixe uma resposta